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Genebra enterra — por ora — o tratado global contra plásticos

Escrito por Neo Mondo | 15 de agosto de 2025

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Toneladas de plásticos continuam invadindo oceanos, solos e até nossos corpos - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Entre discursos inflamados e a diplomacia do impasse, as negociações em Genebra expõem o abismo entre quem quer frear a crise plástica e quem lucra com ela — enquanto toneladas de resíduos seguem invadindo oceanos, solos e até o corpo humano

Genebra, terra de relógios precisos, não conseguiu dar hora certa para um acordo que poderia mudar o destino de bilhões de toneladas de lixo plástico. Na manhã desta sexta-feira (15), as negociações para um Tratado Global de Plásticos terminaram sem consenso — um déjà-vu constrangedor para um processo que começou em 2022 e já havia tropeçado feio na rodada anterior, na Coreia do Sul.

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O roteiro, de tão previsível, parece novela repetida: de um lado, mais de 100 países defendendo cortes na produção de plástico, regulação do ciclo completo do material e um texto com dentes afiados. Do outro, produtores de petróleo e aliados afinando a orquestra para manter o status quo. Resultado? Um texto-base que desagradou a todos — como se fosse possível escrever um tratado “meio a favor do planeta, meio a favor do lucro” e esperar aplausos.

“Alguns países não vieram aqui para finalizar um texto, vieram para o oposto: bloquear qualquer tentativa de avançar um tratado viável”, resumiu David Azoulay, do Center for International Environmental Law, em uma daquelas declarações que dispensam traduções diplomáticas.

Um multilateralismo que patina

A diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, tentou suavizar o fiasco: “O multilateralismo nunca é fácil, e conseguir um tratado em dois a três anos nunca foi feito antes”. O argumento é justo — mas soa como explicar um incêndio dizendo que “acender fósforos é uma habilidade complicada”.

A dinâmica do consenso mostrou-se novamente o calcanhar de Aquiles das negociações: basta um punhado de países contrários para transformar urgência em inércia. Estados Unidos, por exemplo, alinharam-se ao bloco dos “Like-Minded” — grupo que inclui Irã, Rússia e Arábia Saudita — garantindo que qualquer proposta mais ambiciosa encontrasse um labirinto de obstáculos.

foto de cima de uma praia lotada por plásticos
Mais uma vez, interesses econômicos e políticos falaram mais alto que a urgência ambiental - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

Entre avanços tímidos e retrocessos óbvios

Apesar do fracasso formal, três anos de negociações deixaram algum legado: mais de 100 países, empresas e organizações da sociedade civil concordam que é preciso tratar todo o ciclo de vida do plástico. Há respaldo para medidas como eliminação gradual de químicos perigosos, design de produtos para reuso e reciclagem e responsabilidade estendida do produtor (REP). Parece pouco? É — mas é também a base para um eventual renascimento do tratado.

O Brasil e o peso da justiça ambiental

Na delegação brasileira, a senadora Mara Gabrilli destacou a necessidade de um acordo robusto, lembrando que o maior impacto da poluição plástica recai sobre comunidades pobres, sem saneamento e expostas a lixões a céu aberto. Ela também frisou a importância de incluir catadores de recicláveis nas negociações — gesto simbólico que contrasta com a miopia de quem prefere discutir apenas resíduos, ignorando a produção.

E há avanços internos: o PL 2524/2022, já aprovado em comissão no Senado, prevê que em sete anos o Brasil use apenas embalagens plásticas retornáveis ou compostáveis. Uma meta ousada num país onde o descarte irregular ainda domina o cenário.

Enquanto isso, o plástico não espera

Sem um tratado global, a produção anual — já acima de 400 milhões de toneladas — pode crescer 70% até 2040. Hoje, 22 milhões de toneladas de resíduos plásticos chegam ao meio ambiente todos os anos, poluindo solos, oceanos e a cadeia alimentar. É um tsunami silencioso, mas constante.

Pedro Prata, da Fundação Ellen MacArthur, lembra que “a ausência de um tratado mantém a lógica linear de produção e consumo, aprofundando impactos sobre ecossistemas, biodiversidade e saúde humana”. Para ele, a economia circular não é moda: é a única saída possível.

Box Informativo – A Crise Plástica em Números

🌍 Produção Global de Plásticos

  • +400 milhões de toneladas de plástico produzidas anualmente.
  • Projeção de +70% de aumento até 2040 sem acordo global.

♻ Descarte

  • 22 milhões de toneladas de resíduos plásticos entram no meio ambiente a cada ano.
  • Menos de 10% do plástico produzido é reciclado globalmente.

⚠ Impactos

  • Poluição marinha ameaça mais de 800 espécies.
  • Microplásticos já foram encontrados em água potável, alimentos e até no sangue humano.

📜 Tratado Global

  • Lançado em 2022 com a meta de conclusão em 2024 (agora incerta).
  • Divergências centrais:
    1. Corte na produção de plástico virgem
    2. Eliminação de químicos perigosos
    3. Financiamento da transição para a economia circular
    4. Regras para redesenho de embalagens e responsabilidade estendida do produtor

Ironia final

Genebra sai do noticiário como palco de mais um impasse histórico. A COP30, que herdará o mesmo modelo de negociação, que se prepare: o mundo precisa de acordos que sirvam ao planeta, não de maratonas diplomáticas que terminam com declarações educadas e resultados inexistentes.

Enquanto chefes de delegação trocam apertos de mão e promessas vagas de “continuar trabalhando juntos”, o plástico segue fazendo o que faz de melhor: acumular-se. E, nesse duelo desigual, o tempo — como um relógio suíço — não para.

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