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Escrito por Neo Mondo | 16 de outubro de 2017
POR - Julio Berdegué, representante regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para América Latina e Caribe, e Pablo Aguirre, assessor técnico do representante regional
Em artigo de opinião, o representante da FAO para América Latina e Caribe, Julio Berdegué, e seu assessor técnico, Pablo Aguirre, alertam que a fome voltou a assombrar a região. Brasil é exceção e continua com progressos, mas precisará desenvolver políticas especiais para enfrentar miséria em bolsões de pobreza, que são reflexo de profundas desigualdades sociais. Especialistas da agência da ONU lembraram que países se comprometeram a alcançar a Fome Zero até 2030
Alimentação escolar é uma das estratégias defendidas pela FAO para combater a fome na América Latina e Caribe. Foto: FAO/Ubirajara Machado
Podemos identificar um terceiro grupo de países onde o problema piorou no último ano. Costa Rica, com 5,6% da sua população sofrendo com a subalimentação, é um dos países com melhores índices, mas o problema tem aumentado recentemente. Antígua e Barbuda, Granada, Peru, Santa Lúcia e Venezuela, também estão retrocedendo em comparação com 2016 e, no último caso, de maneira significativa. O recente retrocesso do Peru deve ser considerado a partir do fato de que o país tem uma trajetória de sucesso a longo prazo, pois diminuiu a fome em 22 pontos percentuais desde 1990, o que deixa o país com somente 8% de incidência de subalimentação.
A partir das tendências resumidas anteriormente, quais devem ser as estratégias para que, no ano de 2030, possamos declarar que a América Latina e o Caribe são uma região livre da fome, como se comprometeram nossos líderes políticos?
Em países como Guatemala ou o Haiti, que ainda contam com uma alta porcentagem da população com fome, é necessário implementar uma estratégia ampla e transversal, ou seja, que abranja todos os setores das sociedades. O Plano de Segurança Alimentar e Nutricional da CELAC ou a Iniciativa Mesoamérica sem Fome, contam com propostas baseadas nas melhores e mais exitosas experiências regionais. Esses países, especialmente o Haiti, necessitam da cooperação internacional, que para ser frutífera deve ser acompanhada de uma forte vontade política nacional e de longo prazo, superando a lógica humanitária e ligando a redução da fome à promoção do desenvolvimento sustentável.
Nos países que já têm a meta à vista, mas que ainda não podem cantar vitória, a estratégia básica, que tem funcionado em décadas anteriores, deve ser ajustada. Esses países entram na etapa mais dura da luta contra a fome, a que persiste em bolsões sociais e territoriais de pobreza profunda, onde fatores como as fraquezas institucionais, as desigualdades étnicas de gênero, a exclusão social ou o isolamento geográfico tornam as políticas usuais menos eficazes.
É como um alpinista que busca chegar no topo do Everest: o esforço dos últimos 500 metros é muito maior do que os anteriores e, para alcançar a meta, deve-se recorrer a estratégias especiais. A FAO propõe que sejam identificados com precisão os bolsões sociais e territoriais da fome, país por país, para que cada um deles desenhe um programa feito à sua medida.
Há um fator, porém, que é o mais importante em qualquer um dos países. A América Latina e o Caribe só poderá anunciar que é uma região livre da fome em 2030 se nossos líderes políticos, sociais, empresariais, todos e cada um de nós, percebermos com convicção que ter populações famintas é uma afronta à nossa própria dignidade e uma marca vergonhosa que não estamos dispostos a tolerar.
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