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Escrito por Neo Mondo | 1 de agosto de 2017
Afirmar que o preconceito se forma no cérebro se opõe ao conceito de que o mesmo advém de uma questão cultural, status quo da sociedade?
Ines Cozzo: Não, porque tudo que se forma no cérebro vem de um estímulo que vem também da sociedade. Nós não nascemos preconceituosos. Nós nascemos com a capacidade de classificar, por isso, de criar estereótipos. Mas estereotipar é só isso, classificar por semelhanças. O preconceito se refere aos juízos de valor que colocamos nestes estereótipos. Então, por exemplo, temos um estereótipo de cabelos muito secos, crespos, pele escura, lábios carnudos… e o chamamos de raça negra. Atribuir características, principalmente de caráter e de (falta de) competência, de quaisquer tipos à todas as pessoas com este estereótipo é que é preconceito. Em última instância, preconceitos são crenças profundamente arraigadas em nosso cérebro e em nossa mente. Vem da sociedade sim, mas não “se instala” em nós se não for alimentado.
Há como combater o viés inconsciente a fim de eliminar o preconceito racial? Ines Cozzo: Não devemos, nem podemos, combater uma condição estrutural e vieses inconscientes são condições estruturais. Eles não são necessariamente “do mal”. Alguns são recursos que nos auxiliam em nosso desenvolvimento. A saúde está em tornar conscientes aqueles que prejudicam as relações e impedem a justiça de prevalecer. Uma definição bastante abrangente e fácil de compreender sobre isso é “O viés inconsciente é um conjunto de estereótipos sociais, sutis e acidentais que todas as pessoas mantêm sobre diferentes grupos de pessoas. É o olhar automático para responder a situações e contextos para os quais você é treinado culturalmente, como uma programação do cérebro”. Nós precisamos dessa capacidade para aprender mais, melhor e de forma rápida. Daí não ser o caso de combater, mas sim de administrar.“… preconceitos são crenças profundamente arraigadas em nosso cérebro e em nossa mente. Vem da sociedade sim, mas não “se instala” em nós se não for alimentado”.
Como os processos neurais e cognitivos atuam de forma a tirar conclusões por si próprios baseados em estereótipos?
Ines Cozzo: Esse processo ocorre em 1/20 de segundos! Não há como impedir que este processo aconteça e realize julgamentos. O que podemos é coibir as palavras e ações baseadas nesse julgamento. Basta que eu me pergunte que fatos corroboram com minha percepção. Sem fatos não há motivos para agir de forma preconceituosa. O primeiro passo para conseguir isso é admitir que o preconceito existe e que todo mundo tem, além de falar muito a respeito. O segundo passo é buscar semelhanças o tempo todo. Nosso sistema nervoso se sente seguro em se aproximar de pessoas com as quais reconhece semelhanças. O que nos leva ao próximo passo da solução que é reescrever histórias contadas para crianças onde o diferente é sempre mau, feio, desengonçado, estranho, assustador e por aí vai. Outra forma de solucionar o problema é multiplicar o conceito de que não existem raças, mas apenas uma raça: a raça humana. Retirada a pele, fica impossível discernir essa suposta raça de que tanto se fala.
A primeira regra para as empresas empreenderem em diversidade é a autoavaliação do cenário interno?
Ines Cozzo: Perfeito! A empresa precisa se assumir como não diversa, para a partir de então buscar ferramentas para reverter a situação.
O Instituto Ethos dispõe dos Indicadores Ethos-CEERT para Promoção de Equidade Racial que auxilia as empresas a identificarem o patamar no qual se encontram. Após esta identificação qual seria o próximo passo para as empresas que pretendem fomentar a diversidade no quadro de funcionários?
Ines Cozzo: Divulgar amplamente e realizar workshops de conscientização. Ninguém consegue levantar-se da cadeira na qual está sentado. Ou seja, eu não consigo enxergar minhas imperfeições. Apenas na relação o outro pode me contar que isso está acontecendo. Daí a necessidade de ações como oficinas, palestras, workshops, seminários e práticas em grupos de diálogo. Sempre que possível, realizar atividades que diagnostiquem quanto do preconceito já foi eliminado. Existem técnicas bem lúdicas e efetivas que ajudam nisso, sem expor as pessoas a quaisquer tipos de desconfortos. De fato, a maioria, se bem aplicada, é até divertida e aumenta a imunidade do sistema nervoso.
Existem técnicas que podem auxiliar na reversão de conceitos e valores?
Ines Cozzo: Sim. As técnicas que eu conheço e aplico vêm da Filosofia, da Psicologia, da Antropologia, da Sociologia e da Ludicidade.
No caso do Brasil, com uma sociedade hierarquizada e baseada em privilégios, a quebra deste paradigma requer ainda outras estratégias? Inclusive quanto a mulher negra que teria ainda mais enfrentamentos na busca por igualdade?
Ines Cozzo: Até onde eu sei, a boa notícia é que quando mudamos nossa mindset (mentalidade) no sentido de compreender que um estereótipo não implica necessariamente em um conjunto de fatos – que são apenas as crenças de cada indivíduo – mudamos com facilidade nossas concepções. Isso é realmente possível, baseado no que sabemos hoje sobre cérebro, comportamento e aprendizagem. Consequentemente, não importa qual seja o preconceito. Não existem os mais fáceis e os mais difíceis. Existem apenas preconceitos que podem ser mudados com a mesma técnica, com a mesma rapidez e efetividade que quaisquer outros. Que bom que seja assim!
“Até onde eu sei, a boa notícia é que quando mudamos nossa mindset (mentalidade) no sentido de compreender que um estereótipo não implica necessariamente em um conjunto de fatos – que são apenas as crenças de cada indivíduo – mudamos com facilidade nossas concepções”.
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