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Escrito por Neo Mondo | 19 de março de 2026
Plástico. Tudo começa aqui — no óleo que escorre antes de virar produto, embalagem e, inevitavelmente, resíduo - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Sem consenso entre países, a negociação expõe uma disputa estrutural entre descarbonização, indústria petroquímica e a capacidade do multilateralismo de enfrentar causas, não apenas sintomas
Quando a comunidade internacional aprovou, em 2022, o mandato para construir um tratado juridicamente vinculante contra a poluição plástica, havia algo próximo da euforia nos corredores da diplomacia ambiental. A comparação com o Acordo de Paris veio rápida demais — e talvez por isso tenha pesado tanto quando o processo começou a travar.
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Três anos depois, o que se vê não é exatamente um fracasso, mas algo potencialmente mais revelador: um impasse que expõe, com precisão clínica, as fraturas do modelo de governança global quando ele se aproxima de interesses econômicos estruturais. O problema do plástico sempre foi tratado, no imaginário público, como uma questão de descarte — garrafas no oceano, sacolas em aterros, microplásticos em peixes. O tratado lançou luz sobre outra dimensão, muito menos confortável: a crise começa muito antes do lixo.
O nó central da negociação não é técnico. É político no sentido mais profundo do termo. Uma coalizão expressiva de países, cientistas e organizações de sociedade civil defende que qualquer acordo eficaz precisa incluir limites à produção de plástico virgem — o reconhecimento de que reciclar melhor o que já existe não resolve uma equação em que a oferta cresce sem freio. Do outro lado, países produtores de petróleo e grandes economias petroquímicas rejeitam essa premissa, com a consistência de quem tem muito a perder. Para eles, o tratado deve se concentrar em gestão de resíduos, reciclagem e inovação — medidas que, não por acaso, não ameaçam nenhuma linha de produção.
Essa divisão não seria tão intratável se não houvesse uma razão estrutural por trás dela. À medida que a transição energética avança e comprime a demanda por combustíveis fósseis, a petroquímica vem sendo reposicionada, dentro da própria indústria do petróleo, como vetor estratégico de crescimento. O plástico, nesse contexto, não é apenas um produto — é uma tábua de salvação. Limitar sua produção significa, portanto, muito mais do que uma decisão ambiental: significa intervir diretamente em uma das últimas fronteiras de expansão da economia fóssil. É essa a razão pela qual o tratado incomoda tanto — e pela qual sua negociação é tão assimétrica.
Sobre esse eixo já suficientemente tenso, sobrepõe-se a fratura histórica entre Norte e Sul global. Países em desenvolvimento apontam, com razão, que não são os principais responsáveis pelo acúmulo da crise e que enfrentam déficits estruturais de infraestrutura para gestão de resíduos. Reivindicam financiamento robusto e transferência real de tecnologia como condições para qualquer compromisso mais ambicioso. Países desenvolvidos, por sua vez, pressionam por metas globais mais duras sem, em muitos casos, apresentar a contrapartida financeira que tornaria essas metas minimamente factíveis para economias menores. O resultado é um desalinhamento que não se resolve com boa vontade diplomática: quem tem mais capacidade de agir resiste a pagar; quem mais sofre as consequências não tem como agir sozinho.
O risco que emerge desse cenário não é novo — a história da governança ambiental o conhece bem: um acordo esvaziado, concentrado nas medidas menos controversas — metas voluntárias, estímulo à economia circular, aprimoramento de sistemas de coleta — que são importantes, mas insuficientes para alterar a trajetória de um problema que, sem controle da produção, pode triplicar até 2060. Seria mais um documento de boas intenções do que um instrumento de transformação.
Há, porém, um paradoxo interessante no impasse atual. O tratado ainda não foi aprovado — e seu valor até agora não está no texto que não existe, mas no que a negociação tornou impossível de ignorar. Ela demonstrou, de forma pública e documentada, que a crise do plástico não é uma externalidade ambiental isolada. É uma consequência direta de como a economia global ainda está organizada — de quais setores têm garantia implícita de crescimento e de quais custos seguem sendo externalizados para atmosfera, oceanos e corpos humanos.

Resolver o problema do plástico, portanto, não é uma questão de gestão. É uma questão de arquitetura econômica. E talvez seja exatamente por isso que o acordo emperra: porque, quando a regulação ambiental toca as fundações, o consenso deixa de ser uma possibilidade técnica e se torna uma escolha política que poucos ainda estão dispostos a fazer.
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