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Escrito por Neo Mondo | 20 de janeiro de 2026
A volta às aulas chegou. Mas o clima também - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Riscos climáticos, desigualdades e o silêncio da educação ambiental: por que a volta às aulas expõe um dos maiores desafios do Brasil, em conversa com Ricardo Henriques
Há números que informam. Outros, que incomodam. E há aqueles que obrigam a parar, respirar fundo e repensar prioridades. O dado mais recente do Censo Escolar 2024 pertence a essa última categoria: cerca de um terço das escolas brasileiras simplesmente ignorou a educação ambiental e climática ao longo do último ano letivo. Em um país marcado por enchentes devastadoras, ondas de calor recordes, secas prolongadas e crises hídricas recorrentes, esse silêncio pedagógico não é neutro. É um sinal de alerta.
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A volta às aulas, neste cenário, deixa de ser apenas um ritual do calendário escolar. Ela passa a expor uma pergunta incômoda — e inevitável: as escolas brasileiras estão preparadas para educar em um país que já vive os efeitos concretos da crise climática? Preparadas para proteger seus estudantes, garantir continuidade do aprendizado, cuidar da saúde socioemocional e formar cidadãos capazes de compreender, enfrentar e decidir sobre um mundo em transformação?
Para aprofundar esse debate, o Neo Mondo conversa com Ricardo Henriques, Superintendente Executivo do Instituto Unibanco, professor da Fundação Dom Cabral e uma das vozes mais respeitadas do país quando o tema é educação, equidade e políticas públicas. À frente de iniciativas que conectam infraestrutura escolar, aprendizagem e resiliência climática — como o premiado projeto Escolas Resilientes — Henriques nos ajuda a enxergar além dos números e a compreender o que está, de fato, em jogo.
Nesta entrevista, falamos de riscos climáticos, desigualdades educacionais, analfabetismo climático, reconstrução de escolas, saúde emocional de crianças e jovens e do papel estratégico da educação ambiental como base — não como adereço — do futuro que já começou. Porque, gostemos ou não, o planeta entrou na sala de aula. E alguém precisa explicar o que está acontecendo.
Acompanhe a entrevista:
Ricardo, o Censo Escolar 2024 revela que cerca de um terço das escolas brasileiras não desenvolveu nenhuma atividade de educação ambiental ou climática. Em um país atravessado por enchentes, secas extremas e ondas de calor, o que esse dado nos diz — não apenas sobre a escola, mas sobre o projeto de sociedade que estamos construindo?
Esse dado revela uma desconexão preocupante entre a escola e a realidade vivida pelos estudantes. Em um país marcado por enchentes, secas extremas e ondas de calor, o fato de um terço das escolas não desenvolver atividades de educação ambiental ou climática mostra que a crise climática ainda é tratada como um tema periférico e não como um desafio central do nosso tempo.
Mais do que uma lacuna curricular, isso aponta para um projeto de sociedade que separa educação de território, desenvolvimento de sustentabilidade e conhecimento de vida concreta. A crise climática já afeta o cotidiano, aprofunda desigualdades e impacta as condições de aprendizagem — especialmente nos territórios mais vulneráveis.
Reconhecer o clima como um problema educacional é essencial. A escola precisa formar capacidades para compreender o mundo, agir sobre ele e construir futuros possíveis. Ignorar essa agenda hoje é comprometer a preparação das próximas gerações para desafios que já estão em curso.
A volta às aulas, em 2026, acontece em um contexto de riscos climáticos cada vez mais concretos: alagamentos, interrupções no transporte, falta de energia, calor extremo. Na sua avaliação, as escolas brasileiras estão preparadas — estrutural e pedagogicamente — para funcionar em um país em emergência climática?
De forma geral, não. As escolas brasileiras ainda não estão preparadas, nem do ponto de vista estrutural nem pedagógico, para funcionar em um país atravessado por emergências climáticas recorrentes. O que vemos é um sistema educacional pensado para a normalidade, quando a exceção — alagamentos, ondas de calor, interrupções no transporte e da energia — está se tornando regra.
Do ponto de vista da infraestrutura, muitas escolas operam com prédios frágeis, pouco adaptados a eventos extremos e localizados em territórios de alto risco. Pedagogicamente, ainda há pouca integração entre currículo, gestão escolar e estratégias de continuidade da aprendizagem em situações de crise, o que aprofunda desigualdades e compromete o direito à educação.
Encarar a emergência climática como um tema educacional é urgente. Preparar as escolas não é apenas adaptar prédios, mas repensar políticas, formação de professores e formas de organização do tempo e do espaço escolar para garantir aprendizagem, cuidado e proteção em um contexto climático cada vez mais instável.
Quando falamos em educação ambiental, ainda é comum vê-la tratada como atividade pontual ou simbólica. Onde, na sua visão, está o principal gargalo: na formação de professores, na gestão escolar, nas políticas públicas ou na própria compreensão do papel da educação frente à crise climática?
O principal gargalo está menos em um ponto isolado e mais na forma como a educação ambiental ainda é compreendida no Brasil. Enquanto ela for vista como uma atividade complementar — e não como um eixo estruturante da formação — continuará dependente do engajamento individual de professores ou de iniciativas pontuais das escolas.
Isso se expressa na formação docente, que raramente prepara o professor para trabalhar a crise climática de forma transversal; na gestão escolar, pressionada por urgências imediatas; e em políticas públicas que nem sempre integram clima, currículo e território. No fundo, o desafio é de concepção: entender que educar em um país em emergência climática exige repensar o papel da escola na formação para a cidadania, o cuidado coletivo e a sustentabilidade do desenvolvimento.
O Instituto Unibanco foi recentemente reconhecido internacionalmente com o Holcim Awards 2025 pelo projeto Escolas Resilientes, no Rio Grande do Sul. O que essa experiência concreta ensina sobre como transformar a escola em um espaço de proteção, continuidade do aprendizado e reconstrução social após eventos climáticos extremos?
A experiência das Escolas Resilientes no Rio Grande do Sul, parceria com o estado, outras instituições do terceiro setor e também com os escritórios Andrade Morettin e sauermartins, mostra que a escola pode ser muito mais do que um espaço de ensino: ela pode se tornar um polo de proteção, cuidado e reconstrução social em contextos de crise climática. Quando bem planejada, a escola oferece continuidade do aprendizado, apoio às comunidades e articulação com políticas públicas locais nos momentos de maior vulnerabilidade.
O projeto evidencia que resiliência não é apenas uma questão de engenharia, mas de integração entre infraestrutura adequada, gestão escolar preparada e práticas pedagógicas conectadas ao território. Ao pensar a escola como parte da solução — e não apenas como vítima dos eventos extremos — criamos condições para reduzir desigualdades, fortalecer vínculos comunitários e reconstruir com mais equidade.
Essa experiência ensina que enfrentar a emergência climática passa, necessariamente, por investir na escola como um bem público estratégico, capaz de proteger direitos hoje e preparar a sociedade para os desafios do futuro.
Diante das desigualdades regionais reveladas pelo Censo — com estados mais ricos apresentando índices preocupantes — como evitar que a crise climática aprofunde ainda mais as desigualdades educacionais e socioemocionais entre crianças e jovens?
A crise climática tem um potencial enorme de aprofundar desigualdades educacionais e socioemocionais se for tratada apenas como um problema ambiental. Os dados do Censo mostram que o desafio não se restringe às regiões historicamente mais vulneráveis: mesmo estados mais ricos convivem com escolas despreparadas para lidar com eventos extremos e seus impactos sobre a aprendizagem e o bem-estar dos estudantes.
Evitar esse aprofundamento exige políticas diferenciadas e orientadas por evidências, que reconheçam os riscos territoriais e priorizem quem mais precisa. Isso envolve investir em infraestrutura resiliente, garantir continuidade da aprendizagem em contextos de crise e oferecer apoio socioemocional a estudantes e educadores afetados por perdas, deslocamentos e interrupções da rotina escolar.
Sem essa ação intencional, a emergência climática tende a ampliar as distâncias já existentes. Com ela, a escola pode se tornar um fator de proteção e redução de desigualdades, em vez de mais um vetor de exclusão.
O debate educacional costuma separar currículo, infraestrutura e bem-estar emocional. Mas os eventos climáticos parecem exigir uma abordagem integrada. Como pensar protocolos de emergência, recomposição das aprendizagens e cuidado socioemocional como parte de um mesmo projeto educacional?
Os eventos climáticos escancaram os limites de um modelo educacional fragmentado. Não faz sentido tratar currículo, infraestrutura e bem-estar socioemocional como dimensões separadas quando uma enchente, uma onda de calor ou a interrupção prolongada das aulas afetam, ao mesmo tempo, o prédio da escola, o processo de aprendizagem e a saúde emocional de estudantes e educadores.
Pensar esses temas de forma integrada exige reconhecer a emergência climática como um problema educacional. Protocolos de emergência precisam estar articulados a estratégias de continuidade e recomposição das aprendizagens, assim como ações de acolhimento e cuidado socioemocional. Não se trata de respostas improvisadas, mas de planejamento institucional, formação das equipes escolares e coordenação entre educação, assistência social e saúde.
Quando essa integração acontece, a escola deixa de apenas reagir às crises e passa a atuar como um espaço estruturante de proteção, aprendizagem e reconstrução social em contextos de instabilidade climática.
Olhando para o novo Plano Nacional de Educação (PNE), que legado o Brasil corre o risco de deixar se não tratar a sustentabilidade socioambiental como eixo estruturante da educação básica — e não como tema transversal secundário?
Se a sustentabilidade socioambiental não for tratada como eixo estruturante do novo Plano Nacional de Educação, o Brasil corre o risco de deixar um legado de desconexão entre a escola e os grandes desafios do seu tempo. Em um país já atravessado por eventos climáticos extremos, tratar esse tema como secundário significa formar gerações pouco preparadas para lidar com riscos reais que afetam a aprendizagem, a vida em comunidade e o próprio desenvolvimento.
Esse caminho tende a perpetuar desigualdades, porque os impactos da crise climática recaem de forma mais intensa sobre os territórios e populações mais vulneráveis. Sem uma orientação clara no PNE, a sustentabilidade fica dependente de iniciativas pontuais e não se consolida como política pública capaz de articular currículo, infraestrutura, formação docente e cuidado socioemocional.
O legado, nesse caso, seria o de uma educação que olha para trás enquanto o país enfrenta desafios inéditos. Tratar a sustentabilidade socioambiental como eixo central é uma escolha estratégica para garantir o direito à educação, fortalecer a democracia e preparar o Brasil para um futuro que já começou.
Ao longo desta conversa, uma constatação se impõe com clareza desconfortável: a crise climática não é um tema do futuro, nem um capítulo opcional do currículo. Ela já atravessa o cotidiano escolar, interfere no direito de aprender, amplia desigualdades e testa, todos os dias, a capacidade do país de proteger suas crianças e jovens.
Ignorar a educação ambiental não é apenas perder uma oportunidade pedagógica. É abdicar da responsabilidade de formar cidadãos capazes de compreender o mundo que habitam — e de transformá-lo. Em um país marcado por eventos extremos, a escola deixa de ser apenas espaço de ensino e passa a ser território de cuidado, resiliência e reconstrução social.
As reflexões de Ricardo Henriques revelam que o debate não se resume a infraestrutura, protocolos ou projetos isolados. Ele exige visão sistêmica, políticas públicas consistentes e a coragem de colocar a sustentabilidade socioambiental no centro do projeto educacional brasileiro.
Porque, no fim, a pergunta que permanece não é se a educação ambiental cabe na escola. É se o Brasil pode se dar ao luxo de seguir formando gerações para um mundo que já não existe mais. O planeta entrou na sala de aula. A decisão agora é coletiva: vamos fingir que não vimos — ou aprender a escutar?

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