Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Segurança Sustentabilidade

Rastreabilidade, impacto e responsabilidade: a logística reversa como chave para a economia circular

Escrito por Neo Mondo | 17 de julho de 2025

Compartilhe:

O Instituto Giro é uma entidade gestora, sem fins lucrativos, criada para regularizar  a gestão de resíduos sólidos e logística reversa de embalagens no Brasil - Imagem ilustrativa gerada por IA

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Em um cenário em que a sustentabilidade se impõe não apenas como valor, mas como exigência regulatória e estratégica, a logística reversa deixa de ser uma opção e passa a ocupar o centro das discussões empresariais. Especialmente em estados como São Paulo, onde a legislação ambiental é rigorosa e o prazo para entrega do relatório anual à CETESB se encerra no dia 31 de julho, empresas que colocam produtos no mercado precisam comprovar que estão dando a destinação adequada a seus resíduos — sob pena de sanções e entraves à renovação de licenças.

Leia também: Escassez da reciclagem no país: como a logística reversa pode mudar esse cenário

Leia também: TODDYNHO® e KERO COCO® juntam-se à eureciclo para ampliar reciclagem de caixinhas longa vida

Por trás dessa engrenagem complexa está um ecossistema que conecta marcas, cooperativas, operadores logísticos e certificadoras. E é nesse ponto que atua o Instituto Giro, entidade gestora responsável pela rastreabilidade da logística reversa por meio da eureciclo — um negócio de impacto que já destinou corretamente mais de 1,5 milhão de toneladas de resíduos no Brasil, com R$ 92 milhões repassados à cadeia da reciclagem e mais de 16 mil famílias diretamente beneficiadas.

Nesta entrevista ao Portal Neo Mondo, a diretora-presidente do Instituto Giro, Jessica Doumit, esclarece pontos cruciais sobre o funcionamento da logística reversa, os desafios regulatórios que empresas enfrentam, o papel estratégico da rastreabilidade e os impactos ambientais e sociais que o modelo vem gerando. Um diálogo necessário para compreender como responsabilidade compartilhada e inovação podem transformar resíduos em valor — e o futuro em ação concreta.

Confira a entrevista abaixo:

Com o prazo se encerrando em 31 de julho, o que as empresas que atuam em São Paulo precisam saber sobre a obrigatoriedade do relatório de logística reversa à CETESB? Quais os riscos para quem não cumprir essa exigência?

Mais do que uma obrigação burocrática, as empresas precisam saber que a entrega dos relatórios de logística reversa representa um compromisso concreto com a responsabilidade ambiental e a conformidade regulatória. O não cumprimento dessa exigência pode acarretar sanções como multas, embargos e entraves na renovação da Licença de Operação Ambiental, comprometendo diretamente a continuidade das atividades da empresa em São Paulo. Com a intensificação da fiscalização nos últimos anos, é essencial que as empresas se atentem aos prazos e contem com parceiros confiáveis, que garantam a rastreabilidade e a comprovação efetiva da compensação de suas embalagens pós-consumo.

Na eureciclo, temos como missão apoiar as empresas nesse caminho, oferecendo soluções completas de logística reversa que asseguram o atendimento às exigências legais com transparência, auditoria e eficiência.

O Instituto Giro, por meio da eureciclo, atua na certificação e rastreamento da logística reversa de grandes marcas. Na prática, como funciona esse sistema e quais os principais diferenciais que ele oferece às empresas?

O Instituto Giro é uma entidade gestora, sem fins lucrativos, criada para regularizar  a gestão de resíduos sólidos e logística reversa de embalagens no Brasil de forma estruturada, transparente e com impacto socioambientall. É por meio dele que operamos a certificação da logística reversa, garantindo que todas as etapas do processo estejam em conformidade com a legislação e com critérios técnicos rigorosos. A eureciclo, como parceira do Instituto, é a solução que conecta empresas às cooperativas, operadores e recicladores parceiros em todo o país atuando com uma metodologia inovadora de compensação ambiental para logística reversa.

Funciona assim: as empresas contratam a comprovação da logística reversa  proporcional à massa de embalagens que colocam no mercado. Nós rastreamos e auditamos a destinação adequada dessa mesma quantidade por meio de notas fiscais, georreferenciamento e sistemas digitais próprios. Depois, o Instituto Giro emite o Certificado de Reciclagem, que é o documento aceito pelos órgãos ambientais como comprovação do cumprimento das metas legais.

O grande diferencial desse modelo é justamente essa governança robusta, aliando tecnologia, auditoria independente e impacto socioambiental positivo. As empresas ganham segurança jurídica, transparência e facilidade para atender à legislação — enquanto fortalecemos a cadeia da reciclagem, gerando renda e inclusão para catadores e operadores em diversas regiões do Brasil, e posicionando suas marcas práticas sustentáveis.

Em 2024, vocês viabilizaram a destinação correta de 140 mil toneladas de resíduos em SP. Quais setores ou tipos de embalagens representam os maiores avanços — e os maiores desafios — para o cumprimento da meta de logística reversa?

Os maiores avanços foram observados nas embalagens de papel e plástico, que juntos representam mais de 89% do total compensado, sendo aproximadamente 74 mil toneladas de papel e 51 mil toneladas de plástico. Isso se deve tanto à ampla utilização desses materiais em diversos setores, como alimentos, cosméticos e higiene, quanto à estrutura mais consolidada de coleta e reciclagem disponível para esses tipos de resíduos no estado.

Por outro lado, ainda enfrentamos desafios importantes quando falamos de embalagens de vidro e metal. Embora representem volumes menores — cerca de 9,7 mil toneladas de vidro e 5,6 mil de metal — esses materiais exigem maior esforço logístico e operacional. No caso do vidro, por exemplo, o peso e a fragilidade dificultam a coleta e o transporte, especialmente em regiões com menor infraestrutura. Já o metal, apesar de ter alto valor agregado, muitas vezes não retorna ao sistema formal de reciclagem, pois é desviado para fluxos informais que não geram documentação ou rastreabilidade.

Esses desafios nos fazem olhar com ainda mais atenção e importância para projetos especiais e parceiros que nos ajudem a investir na estruturação dessas cadeias, com projetos junto a catadores e operadores, e ainda, a conscientização do consumidor sobre a reciclagem desses materiais.. Também é importante reforçar a necessidade de políticas públicas que incentivem a formalização da cadeia e criem mecanismos para atrair esses materiais para o sistema de logística reversa certificada.

foto mostra homem segurando pranchete em meio a materias reciclados, remete a matéria sobre logística reversa.
Imagem ilustrativa gerada por IA

Além do impacto ambiental, quais os benefícios sociais e econômicos gerados pelo modelo de logística reversa adotado pela eureciclo? Como o sistema contribui para a profissionalização e renda das cooperativas e operadores?

O modelo de logística reversa que adotamos na eureciclo vai muito além da compensação ambiental,  ele é também uma poderosa ferramenta de transformação social e geração de renda. Junto a metodologia da eureciclo Impacta, pensado para apoiar a regularização da Logística Reversa no Brasil em 2016 e existente até hoje, trabalhamos com fases de amadurecimento, investimento e transformação junto a cooperativas e operadores de reciclagem. Essas fases passam por regularização de documentações necessárias, capacitação e treinamento e o investimento no crédito de reciclagem, que incentiva a coleta de materiais e contribui com o desenvolvimento socioeconômico e valorização do trabalho  dos catadores individuais e recicladores.

Em São Paulo, o Rede Transforma é um projeto modelo criado pela Rede Sul e aportado pela eureciclo desde 2022, que tem como objetivo promover a inclusão e valorização dos catadores, com mais de 220 catadores apoiados e 1.842 toneladas recuperadas com esse trabalho. Além disso, os mais de 130 catadores cadastrados no programa recebem apoio e capacitação para ampliação das oportunidades de geração de renda e desenvolvimento social.

Ou seja, nosso modelo contribui não só para que as empresas estejam em conformidade com a lei, mas também para que a cadeia de reciclagem se desenvolva, transformando a relação dos brasileiros com os resíduos. 

A logística reversa ainda é um desafio para muitas empresas, especialmente de médio porte. Que soluções ou caminhos acessíveis existem para que elas se adequem à legislação sem comprometer sua operação?

De fato, para muitas empresas de médio porte, a logística reversa ainda parece algo complexo ou distante da realidade do dia a dia. Mas a boa notícia é que existem soluções acessíveis e descomplicadas que permitem a adequação à legislação e o compromisso com a destinação correta de resíduos, sem comprometer os recursos ou a operação da empresa. O modelo créditos de reciclagem  que adotamos na eureciclo é justamente pensado para isso.

A empresa não precisa, necessariamente, estruturar uma cadeia própria de coleta. A solução eureciclo garante a compensação das embalagens equivalente às que a empresa coloca no mercado, com rastreabilidade, transparência e criando impacto socioambiental positivo na cadeia de reciclagem. Todo o processo é digital, simplificado e adaptável ao porte da empresa, com planos escalonáveis e atendimento especializado. Hoje, na nossa base de parceiros, temos clientes que geram a partir de 4.000 embalagens por mês.

Além disso, oferecemos suporte técnico e acompanhamento próximo para orientar cada etapa do processo, da definição das metas ao envio dos relatórios exigidos pelos órgãos reguladores, assim como a utilização do selo eureciclo e a comunicação da parceria para posicionar e reforçar a empresa quanto ao seu compromisso com a sustentabilidade e a logística reversa.

São Paulo lidera o ranking nacional de reciclagem. Que fatores contribuem para esse desempenho? O modelo do estado pode servir de inspiração para outros entes federativos?

Essa liderança acontece graças a uma combinação de fatores estruturais, sociais e políticos que tornam o estado uma referência nacional em logística reversa e economia circular. Um dos principais elementos desse desempenho é a infraestrutura avançada de triagem, com centrais mecanizadas que aumentam a eficiência da separação dos resíduos e reduzem perdas, algo ainda raro em outras regiões do país. Além disso, o estado tem uma forte integração com cooperativas de catadores, garantindo remuneração adequada, inclusão social e apoio à profissionalização desses trabalhadores, o que fortalece toda a cadeia da reciclagem.

Outro diferencial é a atuação estratégica do poder público, que criou políticas consistentes como o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS) e iniciativas que estabelecem metas claras, fomentam parcerias entre setor público e privado e incentivam a adoção de práticas sustentáveis.

Esse modelo, que alia tecnologia, inclusão social, governança pública e conscientização, pode e deve servir de inspiração para outros estados e municípios brasileiros. Embora cada local tenha suas particularidades, os pilares implementados em São Paulo são replicáveis e mostram que, com planejamento, colaboração e investimento, é possível estruturar sistemas de reciclagem mais eficientes, sustentáveis e socialmente justos em todo o país.

Olhando para o futuro, quais as tendências em logística reversa no Brasil e qual o papel da tecnologia e da rastreabilidade na consolidação de uma economia circular efetiva?

A logística reversa no Brasil está passando por uma fase de amadurecimento e sofisticação. Se no passado o foco estava apenas no cumprimento das exigências legais, hoje observamos uma evolução para modelos mais inteligentes, integrados e comprometidos com resultados socioambientais reais. Entre as principais tendências, destacam-se a digitalização dos processos, a rastreabilidade em tempo real, a mensuração de impacto ambiental com dados confiáveis e a ampliação da transparência em toda a cadeia.

A rastreabilidade, em especial, é um diferencial que ganha força. Empresas, consumidores e órgãos reguladores estão cada vez mais atentos à origem e ao destino dos materiais. Saber exatamente onde, como e por quem os resíduos foram coletados e reciclados é essencial para consolidar uma economia circular efetiva, que seja baseada na confiança, na governança e na geração de valor para toda a cadeia.

Na eureciclo, acreditamos que o futuro da logística reversa está na integração entre tecnologia, impacto social e transparência, junto a conscientização e educação do consumidor que começa a buscar marcas com impacto positivo, gerando maior valor agregado para os negócios a partir de práticas de sustentabilidade. É isso que permitirá que o Brasil avance rumo a uma economia circular robusta, inclusiva e alinhada com as metas de desenvolvimento sustentável.

foto de jéssica doumit, remete a entrevista sobre a logística reversa
Jessica Doumit, Diretora de Relações Institucionais na eureciclo e Diretora-Presidente no Instituto Giro - Foto: Divulgação

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável

O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é

Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado


Artigos relacionados