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Escrito por Neo Mondo | 14 de agosto de 2025
Dia do Combate à Poluição: tecnologia, metas ousadas e ação imediata - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
No Dia do Combate à Poluição, o diretor de Estratégia e Inovação do Grupo Multilixo revela os bastidores da maior planta de reciclagem da América Latina, analisa gargalos que travam o setor e aponta caminhos para que o Brasil saia dos 8% de reciclagem e assuma um papel de liderança global na economia circular
O Dia do Combate à Poluição, celebrado em 14 de agosto, nunca foi tão urgente. O Brasil, que produz mais de 80 milhões de toneladas de lixo por ano, ainda recicla apenas 8% desse volume. Em um ano em que o planeta inteiro volta os olhos para Belém, sede da COP30, a pauta ganha peso extra — e exige ação imediata.
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Na linha de frente dessa transformação está Lucas Urias, diretor de Estratégia e Inovação do Grupo Multilixo, que comanda a Flacipel, maior planta de reciclagem mecanizada da América Latina. De um lado, tecnologia de ponta para separar toneladas de papel, plástico, vidro e metais com precisão cirúrgica. Do outro, o desafio colossal de mudar a mentalidade de empresas, governos e consumidores para que o lixo deixe de ser problema e passe a ser solução.
Nesta entrevista exclusiva ao Neo Mondo, Lucas fala sobre os gargalos que travam a reciclagem no Brasil, explica como a inovação pode redefinir o setor e apresenta metas ousadas para um futuro mais limpo, justo, sustentável e sem poluição.
Confira entrevista:
Lucas, o Brasil recicla só cerca de 8% de todo o lixo que produz. Na sua visão, qual é o maior “gargalo” que impede a gente de mudar esse cenário de forma mais rápida?
O gargalo não é só infraestrutura, é a forma como encaramos os resíduos. No Brasil, ainda tratamos cada material como problema, quando, na verdade, todo resíduo reflete a sociedade e a nossa evolução, e sua gestão correta transforma o que parecia descartável em recurso estratégico. Enquanto isso, países que lideram a reciclagem enxergam cada material como matéria-prima de alto valor, integrando-os a cadeias produtivas complexas.
Atualmente, no Brasil, medimos eficiência pelo “quanto se coleta”, quando deveríamos medir pelo “quanto volta para a economia”. O dia que passarmos a pensar em lixo como portfólio de recursos, essa taxa muda de patamar.
Para virar o jogo, precisamos acelerar a automação, integrar dados de toda a cadeia, fomentar incentivo regulatório ao setor e transformar a educação ambiental em um movimento contínuo, voltado à circularidade e ao consumo responsável — do momento da compra ao descarte correto — criando ciclos sustentáveis, e não apenas campanhas esporádicas.
A nova Lei 15.088/2024, que proíbe a importação de resíduos sólidos, já está gerando impacto positivo para o setor? Você enxerga isso como uma virada de chave ou como um passo inicial?
A Lei 15.088 atua como catalisador para um setor que o Grupo Multilixo já lidera há três décadas. Ela reforça a importância de enxergar resíduos como ativos estratégicos e transformar materiais antes descartados em recursos competitivos e energia renovável.
Com nossa experiência em integrar processos, tecnologias e economia circular, o mercado brasileiro passa a operar com mais eficiência, qualidade e inteligência, consolidando um modelo de ponta. A lei sinaliza para toda a indústria a necessidade de acelerar tecnologia, automação e integração, estabelecendo um padrão moderno e pronto para liderar a economia circular globalmente.
Esse passo inicial carrega a semente de uma virada de chave; cabe aos players do mercado transformarem essa oportunidade em padrão de excelência, fortalecendo a posição do Brasil como referência internacional em soluções circulares.
A Flacipel é a maior planta de reciclagem da América Latina e usa tecnologia de ponta para separar materiais. Como essa inovação muda o jogo na eficiência e no volume de reaproveitamento?
Na Flacipel, a tecnologia não é coadjuvante, é protagonista. São 300 toneladas processadas por dia com sensores, separadores ópticos e inteligência de dados que nos permitem extrair valor máximo de cada resíduo. O diferencial não é só o tamanho, é a cultura voltada a operar como uma “fábrica de recursos”, não um centro de triagem. Nossos sensores, separadores e sistemas inteligentes trabalham como se estivessem produzindo peças de precisão, porque é assim que tratamos cada material. Isso nos permite não só processar volume, mas entregar insumos com qualidade capaz de competir, guardadas as devidas proporções, com matéria-prima virgem no mercado global.
Você acredita que a automação e a inteligência artificial vão redefinir a reciclagem nos próximos anos? Pode dar um exemplo prático do que já acontece por aí?
Não é mais “vão redefinir”, já redefiniram. O ponto agora é, como vamos aplicar todos esses insights gerados por esta nova ferramenta. Estamos entrando na era do resíduo inteligente, onde cada embalagem pode ser rastreada e separada pelo seu DNA químico. A IA não só identifica o material, mas decide o destino de cada item em tempo real. Em breve, plantas de reciclagem funcionarão como hubs logísticos de dados, conectando fabricantes, recicladores e consumidores numa mesma rede. Reciclar vai ser tão conectado quanto pedir um carro por aplicativo.
O Grupo Multilixo fala muito em “Programa Aterro Zero”. Para quem nunca ouviu falar, como ele funciona e por que ele é importante para reduzir a poluição?
O programa Aterro Zero é uma solução que recicla 100% dos resíduos passíveis de reaproveitamento, dando destino produtivo a tudo que chega até nós. Um lote de papelão que passa pela Flacipel, por exemplo, pode voltar ao mercado como embalagem em menos de 30 dias; um rejeito tratado na MultiUVR pode virar energia para a indústria; e resíduos orgânicos se transformam em composto pela MultiCultivo. Ao fazer isso, prolongamos a vida útil dos aterros, fortalecemos a economia circular e provamos que é possível transformar o “fim de linha” em ponto de partida para novos ciclos. É mais que logística reversa: é manufatura reversa, com velocidade e escala.
Além de reduzir resíduos, como a reciclagem pode ajudar diretamente na agenda climática da COP30 e nas metas brasileiras de descarbonização?
Reciclar é agir na origem das emissões, reduzindo a necessidade de extração, transporte e processamento de matérias-primas virgens — etapas altamente intensivas em carbono. Mas, para nós, isso é só o ponto de partida. Em uma de nossas operações, por exemplo, colocamos em funcionamento a primeira usina 100% off-grid do Brasil dedicada a transformar resíduos em biometano, um combustível renovável que é considerado uma alternativa ao diesel e o gás natural, movimentando indústrias e frotas com energia limpa.
Ao integrar reciclagem e geração de energia no mesmo ecossistema, criamos um modelo que não só reduz emissões, mas acelera, na prática, a transição para uma matriz energética sustentável. Enquanto o mundo ainda projeta metas para 2030, já entregamos hoje o impacto que a COP30 quer ver sair do papel.
Se você pudesse definir uma meta ousada para o Brasil até 2030 em relação à reciclagem e combate à poluição, qual seria?
A meta ousada é transformar o Brasil em um ecossistema ecoeficiente, onde resíduos sejam tratados como recursos estratégicos e reinseridos em cadeias produtivas de alto valor. Para alcançar este objetivo até 2030, é essencial integrar tecnologias avançadas, incluindo inteligência artificial, para otimizar triagem, rastreamento e reaproveitamento de materiais; expandir a geração de energia limpa a partir de resíduos, conectando produção e consumo; criar polos de educação e capacitação que desenvolvam consciência ambiental e habilidades técnicas para sustentar a economia circular; e aprovar um arcabouço regulatório robusto que ofereça segurança jurídica e incentive investimentos, impulsionando o setor de forma consistente. Esses pilares — tecnologia, energia, educação e regulação — juntos permitem construir ciclos produtivos fechados, reduzir a pressão sobre recursos naturais e posicionar o Brasil como referência global em sustentabilidade, que é, de fato, a grande meta ousada para 2030.
Lucas Urias é Diretor de Estratégia e Inovação do Grupo Multilixo, onde lidera iniciativas voltadas à transformação digital, sustentabilidade e crescimento estratégico da empresa. É bacharel em Administração com ênfase em Finanças pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e possui formação executiva pelo Advanced Program do Insper. Ao longo da carreira, tem se dedicado à implementação de soluções inovadoras no setor de gestão de resíduos e economia circular, conectando tecnologia e impacto socioambiental.

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