Destaques Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 6 de setembro de 2025
Morte evitável é uma falha do sistema - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Na véspera do Dia Mundial da Segurança do Paciente, o Brasil encara um retrato doloroso de sua realidade hospitalar. O Relatório Isabel, que será lançado em 16 de setembro, denuncia mortes evitáveis em instituições de saúde e escancara a fragilidade de um sistema que deveria proteger, mas, em muitos casos, ceifa vidas inocentes. O documento é fruto de sete meses de investigação conduzida pelo Instituto Brasileiro de Direito do Paciente (IBDPAC) e pela associação Dando Voz ao Coração, com apoio de familiares de vítimas.
Leia também: Quando a cor da pele define o tratamento: um retrato urgente da discriminação no Brasil
Leia também: Belém ergue um farol de dignidade: Hub de Segurança Alimentar propõe um novo pacto civilizatório na Amazônia
Batizado em memória de Isabel — bebê que morreu aos 1 ano e 13 dias devido a falhas hospitalares — o relatório não é apenas estatística: é luto transformado em luta, dor convertida em resistência. São 24 recomendações para evitar que tragédias como a de Isabel se repitam, incluindo equipes multidisciplinares 24h, protocolos obrigatórios de segurança e comunicação eficaz entre profissionais de saúde e famílias.
A história de Isabel se tornou símbolo de um país inteiro. O que deveria ter sido cuidado virou negligência; o que poderia ter sido prevenção virou tragédia. Sua mãe, Roberta Lopes Guizzo, encontrou forças para transformar a perda em mobilização nacional.
“A morte da minha filha Isabel não pode ser em vão. Cada página deste relatório é um grito de alerta para que outras famílias não precisem enterrar seus filhos por falhas que poderiam ser evitadas.”
Essa denúncia pessoal ganhou fôlego institucional. Em 2025, no Paraná, foi aprovada a Lei Isabel, que garante prioridade de atendimento a gestantes em situação de risco. O relatório agora busca inspirar mudanças nacionais, reforçando a urgência de aprovação do Estatuto dos Direitos do Paciente (PL 2242/22), que tramita no Senado. O documento é, portanto, um marco: a memória de uma vida interrompida pode redefinir os caminhos da saúde no Brasil.
O Relatório Isabel mostra com detalhes as falhas sistêmicas que atravessam hospitais públicos e privados. Casos de demora em diagnósticos, ausência de equipes preparadas para emergências neonatais e falhas de comunicação hospitalar estão entre os exemplos mais gritantes. A cada atraso, a cada exame postergado, uma vida infantil é colocada em risco.
Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que cerca de 134 milhões de eventos adversos graves ocorrem anualmente em serviços de saúde, resultando em mais de 2,6 milhões de mortes evitáveis no mundo. No Brasil, a taxa de mortalidade infantil em 2022 foi de 12,4 por mil nascidos vivos, número que carrega fortes desigualdades regionais: no Norte e no Nordeste, os índices são ainda mais elevados.
“Este documento é mais do que denúncia: é um manifesto pela vida, uma convocação para que hospitais, gestores e autoridades assumam responsabilidade e transformem a cultura de segurança do paciente no Brasil.”
— Fernanda Góss Braga, presidente da Dando Voz ao Coração.
O que esses números escondem são histórias interrompidas. Bebês que não tiveram tempo de aprender a falar, mães que voltam para casa com o colo vazio, pais que encontram na justiça e na militância uma forma de sobreviver à dor. É um retrato cruel de um sistema que falha exatamente onde não pode falhar: no direito à vida.

O Relatório Isabel não se limita a denunciar; ele propõe caminhos. São 24 recomendações práticas, entre elas:
Essas medidas têm como objetivo estruturar um novo pacto pela vida, onde falhas não sejam justificadas pela falta de recursos ou pela inércia burocrática.
“Não podemos mais aceitar que a falta de protocolos ou equipes reduzidas continuem ceifando vidas. O Relatório Isabel mostra o caminho: precisamos de lei, fiscalização e compromisso real com os direitos do paciente.”
— Kalline Eler, diretora de projetos do IBDPAC.
A luta pela aprovação do Estatuto dos Direitos do Paciente é o próximo passo. Inspirado em legislações internacionais, o PL busca garantir que todo cidadão brasileiro tenha assegurado o direito a um atendimento digno, transparente e seguro. No fundo, trata-se de reafirmar que saúde é, antes de tudo, justiça social.
Cada morte evitável representa mais do que uma tragédia familiar: é uma violação de direitos humanos. O artigo 6º da Constituição brasileira garante a saúde como direito social, mas a realidade mostra um abismo entre lei e prática. Falhas institucionais, quando resultam em mortes, colocam em xeque não apenas o sistema de saúde, mas a própria noção de cidadania.
O silêncio diante dos erros médicos custa caro. Não só pela dor que gera, mas pelo impacto financeiro e social. Estudos internacionais apontam que investir em protocolos de segurança gera economia ao evitar internações prolongadas, processos judiciais e sequelas permanentes em pacientes sobreviventes. O preço da omissão, portanto, não é apenas humano, é também econômico.
O lançamento do Relatório Isabel, no dia 16 de setembro, com transmissão ao vivo pelo canal do IBDPAC no YouTube e apoio do Hospital Pequeno Príncipe, é mais do que um evento: é um marco histórico. Ele dá voz a famílias que por muito tempo foram silenciadas, exige responsabilidade institucional e pressiona o poder público a agir.
Frases como “nenhuma mãe deveria transformar o luto em bandeira de luta” sintetizam o espírito do movimento. São palavras duras, mas necessárias, porque vidas estão em jogo. Não se trata de estatísticas frias ou de protocolos burocráticos; trata-se de dignidade, de direitos humanos e de justiça social.
Enquanto a saúde brasileira seguir permitindo mortes evitáveis, falar em progresso será uma farsa. A memória de Isabel exige mais. Exige coragem. Exige mudança.
Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável
O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é
Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado