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Escrito por Neo Mondo | 28 de abril de 2026
Fernanda Alves, durante o curso de formação em auxiliar de guia de observação de aves realizado em 2025 na Grande Reserva Mata Atlântica - Foto: Gabriel Marchi
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Destaque em programa apoiado pelo Global Nature Fund, Fernanda Alves representa nova geração de profissionais impulsionada pela Grande Reserva Mata Atlântica e aponta caminhos para geração de renda, turismo e permanência de jovens no litoral do Paraná
No dia 28 de abril, é celebrado o Dia do Observador de Aves, data que remete ao primeiro registro documentado da avifauna no Brasil. Em carta enviada ao rei de Portugal, em 1500, Pero Vaz de Caminha descreveu as aves encontradas no território recém-avistado, mencionando papagaios "verdes e pardos" e pombas-seixeiras, em um dos primeiros relatos sobre a riqueza natural do país.
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Mais de cinco séculos depois, essa riqueza segue presente e passa a ser reconhecida também como ativo estratégico para o desenvolvimento e a geração de renda.
A trajetória de Fernanda Alves sintetiza, em escala individual, uma transformação mais ampla em curso no litoral do Paraná: a consolidação do turismo de natureza como vetor emergente de desenvolvimento econômico.
Natural de Antonina, litoral do Paraná, e radicada por mais de duas décadas em Curitiba, onde construiu carreira na área do Direito, Fernanda protagoniza hoje um movimento de retorno geográfico, profissional e simbólico. A partir da observação de aves, encontrou um novo caminho de atuação e, ao mesmo tempo, uma leitura clara sobre o potencial ainda subexplorado da região.
Sua virada de carreira não acontece de forma isolada. Ela está conectada a uma agenda estruturada no território da Grande Reserva Mata Atlântica — o maior contínuo de áreas naturais de Mata Atlântica do Brasil, com quase 3 milhões de hectares distribuídos entre Paraná, São Paulo e Santa Catarina — que vem articulando iniciativas como o Festival das Aves e programas de formação em birdwatching para qualificar profissionais, ampliar a oferta turística e transformar biodiversidade em ativo econômico.
Fernanda foi uma das participantes de maior destaque no curso de formação em auxiliar de guia de observação de aves realizado em 2025 na Grande Reserva Mata Atlântica. Foi reconhecida entre os melhores desempenhos e contemplada com um kit completo de observação de aves, viabilizado com apoio do Global Nature Fund. O conjunto inclui binóculos, caixa de som portátil utilizada para reprodução controlada de vocalizações de aves (técnica conhecida como playback), perneiras, guia de aves, cadernetas de campo e mochila — uma estrutura essencial para o início da atuação profissional.
Inserida em um território que reúne mais de 500 espécies de aves registradas e uma combinação rara de ecossistemas — incluindo manguezais, baía, áreas naturais da Mata Atlântica, morros e serras —, Antonina desponta como um dos destinos mais promissores para o birdwatching no Brasil.
Em conversa com Claudia Guadagnin para o Neo Mondo, ela fala sobre luto, reconexão com o território e o que ainda falta para Antonina se firmar como destino de birdwatching no Brasil.
Fernanda, em que momento você percebeu que a observação de aves deixou de ser um hobby e passou a ser um caminho de vida?
Quando percebi a necessidade de mais profissionais atuando na área aqui em Antonina, enxerguei a oportunidade de construir uma carreira no birdwatching, além de ser algo que eu realmente amo fazer.
O que a observação de aves te trouxe que a sua carreira no Direito não trazia?
Paz — e, consequentemente, saúde mental. O silêncio necessário para ouvir as aves estabiliza as emoções, reduz a ansiedade e desacelera o corpo. Em um mundo tão conectado, desconectar por algumas horas faz um bem enorme.

Você chegou a atuar na área jurídica?
Sim. Atuei como defensora dativa no Fórum de Antonina, na área criminal, e também de forma autônoma nas áreas cível e de família.
Você comentou que a perda do seu pai influenciou essa reconexão com Antonina e com a natureza. Como isso aconteceu?
Foi um momento muito intenso. Meu pai faleceu em 2023, e eu voltei para Antonina para acompanhar minha mãe, que ficou sozinha após quase 50 anos de casamento. Nesse processo, acabei me reconectando com minhas origens. Cresci em meio à Mata Atlântica e foi, justamente, durante o período de luto que comecei a fotografar aves. De certa forma, essa prática teve um papel importante na reconstrução emocional que eu ainda estou vivendo.
Quais são as principais habilidades para atuar como guia de observação de aves?
Concentração, paciência, sensibilidade para se conectar com a natureza, escuta atenta às vocalizações, conhecimento técnico para identificar espécies e capacidade de conduzir com segurança e ética.
Existe regulamentação para essa atividade no Brasil?
Não há certificação específica para birdwatching. Para atuar formalmente, o caminho é o registro como Guia de Turismo no Cadastur, com formação reconhecida. Na prática, o mercado valoriza experiência de campo e conhecimento técnico.
Qual é o investimento inicial para começar?
Pode variar bastante, mas é possível iniciar com investimento relativamente baixo, com um bom binóculo, uma câmera fotográfica ou celular e um guia de aves da região.
Existe sazonalidade na observação de aves em Antonina?
Sim, e isso torna a experiência ainda mais rica. Cada estação traz mudanças nas espécies e nos comportamentos. Ainda assim, Antonina oferece observação ao longo de todo o ano.
O que torna Antonina um destino diferenciado para o birdwatching?
Temos um encontro raro de ecossistemas: manguezal, baía, Mata Atlântica, morros e serras — e, em cada um deles, espécies específicas. Essa diversidade, somada às mais de 500 espécies registradas, torna a cidade extremamente atrativa.
Como você enxerga o potencial da Grande Reserva Mata Atlântica?
É um dos territórios mais ricos do mundo para observação de aves. Um hotspot global de biodiversidade, com mais de 800 espécies registradas. Um verdadeiro paraíso para quem busca diversidade e experiências imersivas na natureza.
O que ainda falta para Antonina se consolidar como destino estruturado de birdwatching?
Mais profissionais capacitados, maior divulgação, presença digital mais forte e maior incentivo do poder público.
A observação de aves pode gerar renda real para a população local?
Sem dúvida. O turismo de natureza é um caminho promissor e pode transformar a economia local se bem estruturado.

Isso pode influenciar na permanência dos jovens na cidade?
Com certeza. Quando há geração de renda e oportunidades, os jovens passam a enxergar futuro no próprio território.
14. Como mulher nesse segmento, você percebe desafios?
Sim, mas também vejo uma força feminina crescente. A sensibilidade das mulheres é um diferencial importante nesse tipo de atividade.
Quais são seus próximos passos?
Criei um perfil no Instagram de birdwatching chamado "Caminho das Aves Antonina". Lá vou postando minhas fotos e alguns conteúdos sobre a observação de aves no município. Quero me capacitar cada vez mais, estruturar roteiros, engajar a comunidade e promover a observação de aves como ferramenta de conscientização e geração de renda. Também quero organizar atividades voltadas para mulheres.
Conservação que gera renda
Ricardo Borges, coordenador de comunicação e parcerias estratégicas da Grande Reserva Mata Atlântica, destaca que o apoio do Global Nature Fund à formação de novos profissionais na região integra uma estratégia mais ampla de valorização de áreas naturais como ativos capazes de gerar renda, atrair investimentos e estruturar cadeias econômicas no turismo de natureza.
"Ao viabilizar capacitação técnica e acesso a equipamentos, como no caso dos kits entregues aos participantes de maior desempenho, a iniciativa reduz barreiras de entrada e acelera a inserção de novos profissionais no mercado. Na prática, trata-se de um modelo que conecta biodiversidade, qualificação e geração de renda. Um movimento que, ao ganhar escala, pode reposicionar territórios como Antonina não apenas como destinos turísticos, mas como exemplos concretos de desenvolvimento ancorado na conservação", destaca.
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