Cultura Destaques Educação Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 28 de abril de 2026
Educação que começa no silêncio da leitura e redefine o futuro de milhões - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - ELENI LOPES, DIRETORA DE REDAÇÃO
Com R$ 116 milhões investidos em 2025, Instituto Natura consolida o modelo que financia políticas públicas de educação e direitos das mulheres em seis países da América Latina
Há um artefato doméstico — caderno, estojo, bolsa escolar — que não figura nas prateleiras de farmácia por acidente. A linha Natura Crer Para Ver existe há trinta anos com uma arquitetura deliberada: as consultoras abrem mão do lucro sobre esses produtos, e o valor integral migra para o Instituto Natura, que o converte em políticas públicas de alfabetização, formação docente e enfrentamento da violência de gênero. Em 2025, esse fluxo gerou R$ 108,7 milhões só de repasse das marcas Natura e Avon — e o orçamento total da organização chegou a R$ 116 milhões, crescimento de 34% sobre os R$ 86,9 milhões registrados no ano anterior.
Leia também: Livro traz panorama sobre mudanças climáticas e aponta caminhos para mitigação e redução de impactos
Leia também: Universidade sem emprego é promessa vazia
O Instituto Natura, que completa 16 anos neste 28 de abril, opera hoje em Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. Não é presença decorativa: a organização atua em parceria direta com governos estaduais e nacionais, alcançando 57 estados e províncias nos seis países. Em 2025, 4,8 milhões de estudantes foram beneficiados por políticas de alfabetização na idade certa — a faixa etária dos sete anos, que a literatura educacional reconhece como determinante para as trajetórias escolares futuras — e outros 1,4 milhão por iniciativas voltadas ao Ensino Médio. O total chega a 6,3 milhões de estudantes em um único ano.
A escala não é acidental. O modelo de financiamento via produto social cria um ciclo em que a rede de consultoras — hoje com mais de 231 mil alcançadas por iniciativas de educação formal — é simultaneamente financiadora e beneficiária das políticas que apoia. Mais de 8,2 mil consultoras participaram de ações de conscientização sobre direitos e saúde da mulher. Em setembro de 2025, o Programa Líderes Bolsistas superou a marca de mil mulheres beneficiadas com bolsas integrais para ensino superior desde sua criação em 2021, financiadas integralmente pela linha Crer Para Ver.
No Brasil, os efeitos desta arquitetura já se manifestam nos dados nacionais. Em março de 2026, o Ministério da Educação e o Inep divulgaram o Indicador Criança Alfabetizada referente ao ano letivo de 2025: 66% das crianças concluíram o 2º ano do Ensino Fundamental com proficiência em leitura e escrita, avanço de quase sete pontos percentuais sobre os 59,2% de 2024 e de mais de dez pontos em relação aos 55,9% de 2023. O Instituto Natura integra, ao lado da Fundação Lemann e da Associação Bem Comum, a Aliança pela Alfabetização, presente em 18 estados brasileiros e mais de 3.900 municípios em regime de colaboração.
A expansão para os direitos e saúde das mulheres marca a segunda grande inflexão da organização. Em 2024, o Instituto Avon foi formalmente integrado ao Instituto Natura, ampliando décadas de atuação da Avon nesse campo para dentro de uma estrutura operacional unificada. Em 2025, 596 mil mulheres foram alcançadas por políticas públicas apoiadas diretamente pela organização: 447 mil por iniciativas de enfrentamento à violência de gênero e 149 mil por ações de cuidado com a saúde das mamas. As campanhas de conscientização, conduzidas em parceria com a Avon nos seis países, acumularam alcance de 571 milhões de contatos em diferentes canais.
"Nossa tese de impacto evolui ano a ano, pois estamos convictos de que não há desenvolvimento econômico sustentável na América Latina sem passar por educação básica de qualidade e garantia dos direitos e da saúde das mulheres", afirmou David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura para a América Latina, ao divulgar os resultados. A lógica que ele descreve não é filantrópica no sentido clássico — não há projeto isolado sendo financiado, mas desenho e sustentação de política pública com capacidade de escalar para além dos recursos privados que a iniciam.
Esta distinção tem peso analítico. O investimento social privado que opera pela lógica da influência sobre o Estado — e não pela substituição dele — produz resultados estruturalmente distintos daquele que constrói escolas ou distribui kits escolares. O Instituto Natura posiciona-se explicitamente nessa segunda categoria: trabalha com secretarias de educação, forma gestores públicos, participa de coalizões de monitoramento de resultados. Quando o ICA sobe sete pontos em um ano, parte desse movimento carrega a impressão digital de redes como essa, ainda que nenhuma organização possa reivindicá-lo isoladamente.
Para Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, a presença em seis países reforça precisamente esse argumento: "A transformação da realidade social exige consistência, articulação e compromisso de longo prazo." A América Latina é um laboratório de políticas educacionais com resultados heterogêneos — Chile e Peru avançaram em métricas de aprendizagem nos últimos anos enquanto outros países sustentam déficits persistentes. A aposta de uma organização que atua simultaneamente em todos esses contextos é que os modelos podem migrar, as experiências podem ser comparadas, e o espaço para inovação institucional é maior do que cada governo enxerga sozinho.
O que os R$ 116 milhões de 2025 revelam não é apenas crescimento orçamentário. É a consolidação de uma arquitetura de financiamento que converte consumo de massa em política pública — e que faz isso há três décadas sem que a maioria dos compradores de um caderno saiba exatamente o que está sustentando.
A Caatinga que aprende a resistir