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Escrito por Neo Mondo | 28 de agosto de 2018
Roraima, fronteira Venezuelana-Divulgação[/caption]
O país vive sob uma inflação, que deve chegar à casa dos 2.350%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), sofre embargo dos EUA e de outros países e apesar de ser rico em combustível fóssil (petróleo), a carestia chegou de forma avassaladora à população. A violência também permeia a população de diferentes formas. O Observatório Venezuelano da Violência (OVV) registrou que 28.479 pessoas foram mortas em 2016 no país, que representa na ampliação da taxa de homicídios de 91,8 por cem mil habitantes. No ano de 2017, houve manifestações contra a crise humanitária. Segundo relatório das ONGs Human Rights Watch (HRW) e Fórum Penal, neste episódio ocorreram violações de direitos humanos cometidas pelas Forças Armadas venezuelanas.
Trata-se, sem dúvida, de uma crise humanitária. Além do Brasil, para onde já vieram mais de 58 mil (registrados), os principais destinos na América do Sul, são a Colômbia, o Equador e o Peru, como também o Chile e a Argentina.
Hoje a pergunta que permanece - O quanto nós e nossas nações estamos preparados para este fluxo de pessoas que estão vindo em diversas situações, desde quadros de miserabilidade aos de capacidade de formação e trabalho oriundas de suas trajetórias? No caso brasileiro, esta complexidade se soma também à situação da crise interna do país, que reflete diversos Brasis, que tem seus próprios “refugiados” internos e uma situação macro de 13 milhões de desempregados.
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VENEZUELANOS/RORAIMA - Centro de acolhimento montado pelo exército em Pacaraima, na fronteira entre Roraima e a Venezuela-Divulgação[/caption]
O Equador e o Peru já começaram a exigir passaportes dos venezuelanos. No caso do Equador, a Justiça do país deu um prazo de 45 dias de suspensão das medidas. O controle das fronteiras começa a ser mais severo. Já o Chile, por exemplo, está pedindo certificado de antecedentes criminais emitido na Venezuela, além de passaporte que não expire nos 18 meses após a entrada do refugiado.
No contexto das negociações regionais, a Organização dos Estados Americanos (OEA) não conseguiu encontrar uma via de solução para esta crise, que extrapola a autonomia governamental venezuelana. É um problema que vai muito além de polarizações entre “Direita” e “Esquerda” e se revela uma agenda de direitos humanos internacional.
No Brasil, as fronteiras ainda estão abertas aos refugiados, mas sob esse contexto de pressão e incertezas do encaminhamento das políticas a respeito, nesta fase de processo eleitoral. Fazendo parênteses, há outros componentes que devem ser observados. O próprio estado de Roraima é refém de uma situação que poucos sabem: 65% de sua energia são provenientes da Venezuela e o Brasil deve cerca de R$ 120 milhões à empresa de energia venezuelana, que estão sendo cobrados, com iminência de corte. A Eletrobras alegou que conseguirá cobrir esse corte caso ocorra, em 15 municípios, e detalhe – com termoelétricas, já que o estado não integra o Sistema Interligado Nacional (SIN) de energia. São panos de fundo a serem considerados nesta complexidade.
Voltando ao processo migratório de venezuelanos, são famílias inteiras, que se veem nos últimos anos, reféns de um sistema político e econômico conturbado, de condições insalubres de vida e tentam encontrar guarida nos “países” hipoteticamente irmãos, no sentido simbólico. É como se houvesse uma mensagem subliminar – ‘somos sul-americanos, ainda há esperança’. Já pararam para pensar como a maioria destas pessoas se sente humilhada e, por muitas vezes, deprimida? Como para qualquer um de nós, passar fome, ser privado de um emprego, de serviços de saúde e estar exposto a violências físicas e psicológicas de todo tipo, é algo que exige extrema resiliência.

Conflito entre brasileiros e venezuelanos em Pacaraima (RR)-Divulgação[/caption]
Enquanto a situação de crise da Venezuela ou de outro país é simplesmente pauta de noticiários, a solidariedade remota funciona, mas quando se faz parte da crise, aí é que o equilíbrio emocional e a racionalidade de se cobrar ações dos governantes, e de exercitar a solidariedade prática, se tornam os desafios presentes. É um esforço que exige a participação multidisciplinar dos governos federal, estadual e municipal, dos poderes judiciário e legislativo, desde o âmbito das relações internacionais à retaguarda de vigilância epidemiológica. Nós, como parte da sociedade civil, somos constituintes desta engrenagem e fazemos a diferença entre a contribuição para a paz ou para o conflito.
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