POR – AVIV COMUNICAÇÃO / NEO MONDO
e convidam o setor de transporte marítimo a compartilhar de sua ambição em reduzir os combustíveis fósseis na Cúpula Climática da ONU
Contra o pano de fundo de uma cúpula da ONU para a redução da emissão de CO2 pelo setor de transporte marítimo, instituições católicas que atuam em áreas relacionadas ao mar anunciam seu desinvestimento em combustíveis fósseis. Entre elas, incluem-se instituições no Panamá, a maior repartição de transporte marítimo do mundo, Filipinas, lar do maior grupo de marinheiros do planeta, Grécia, a nação que mais detém navios no mundo, e cidades portuárias por toda a Europa.
O anúncio foi feito numa conferência promovida pelo Vaticano, intitulada O Bem Comum e Nossos Mares Comuns, que abordou a doutrina católica acerca do ambiente marinho. A conferência coincide com a muito esperada reunião da Organização Marítima Internacional, ou OMI, uma agência da ONU incumbida de promover a segurança e proteção ambiental para a indústria marítima mundial.
As discussões da OMI terão como enfoque ações urgentes de curto-prazo para redução das emissões de CO2, tais como limites globais de velocidade ou padrões de eficiência mais estritos para todos os navios. As delegações também começarão a elaborar medidas para realizar a transição completa do setor para o fim do uso de combustíveis fósseis a médio e longo prazo, contribuindo para a estabilização do aquecimento global. O desinvestimento das instituições católicas sinaliza um alto padrão de ambição para a reunião da OMI, que se inicia em 13 de maio.
As instituições católicas que anunciam hoje seu desinvestimento em combustíveis fósseis incluem:
- A arquidiocese do Panamá, lar da maior repartição de transporte marítimo do mundo, cujo desinvestimento sinaliza uma importante liderança da Igreja, representando 70-80% da população. Mais de 40% de toda a carga anual do setor de transporte marítimo consiste em combustíveis fósseis, e o Panamá detém sozinho um quarto dos navios graneleiros do mundo – responsáveis pelo transporte de carvão. Apesar de o Canal do Panamá enfrentar crescentes despesas provocadas pelas mudanças climáticas, a delegação do Panamá na OMI resistiu às metas para o transporte marítimo e tentou bloquear as reformas destinadas a levar mais transparência à organização.
- A Cáritas Filipinas, divisão da Igreja Católica para proteção e desenvolvimento nas Filipinas, onde o desinvestimento em combustíveis fósseis ajudará a proteger milhões de filipinos que são vulneráveis ao aumento do nível do mar. Os filipinos contabilizam aproximadamente 24% do 1,5 milhão de marinheiros existentes no mundo. Os navios utilizam um dos piores derivados do petróleo, o óleo combustível residual, que contém até 3.500 vezes mais enxofre do que o óleo diesel. Embora os impactos da fumaça para a saúde dos passageiros de cruzeiros estejam chamando um pouco de atenção, pouca preocupação foi demonstrada à saúde dos marinheiros que ficam expostos por períodos muito mais prolongados, especialmente quando não têm folga em terra. Já existem tecnologias com emissão zero, mas estas precisam ser adotadas em larga escala pelo setor.
- As dioceses de Nápoles, Civitavecchia-Tarquina e Siracusa, Itália, importantes portos de carga e transporte, onde o desinvestimento ajudará a proteger seus habitantes, que se mostram vulneráveis ao excesso de mortalidade devido à poluição do ar. Os navios de cruzeiro aportam diariamente em Nápoles. Civitavecchia é o principal ponto de entrada em Roma para os turistas em cruzeiros, e residir próximo ao porto já foi associado a altas taxas de câncer de pulmão e doenças neurológicas. Siracusa é um importante porto para navios petroleiros da refinaria de Exxon-Mobil.
- A Igreja Católica da Grécia e a Arquidiocese de Malta, pontos de entrada importantes para os migrantes da África, onde o desinvestimento ajudará a proteger aqueles que fazem um perigosa jornada em meio a tempestades cada vez mais intensas. A Grécia é a nação que mais detém navios no mundo. O governo e muitas empresas de transporte marítimo agora defendem limites de velocidade no mar para restringir o consumo de combustíveis fósseis.
As instituições católicas veem no desinvestimento uma forma de tratar a crise climática, que contribui para o aumento do nível do mar, tempestades cada vez mais violentas e o aumento de desertos, os quais atingem desproporcionalmente os mais vulneráveis.
A conferência “O Bem Comum e Nossos Mares Comuns” foi promovida pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, ministério social e ambiental do Vaticano, com participação de uma coalizão de importantes grupos católicos. Seus palestrantes incluem representantes do Vaticano e Simon C. Bergulf, diretor de assuntos regulatórios da A.P. Møller–Maersk, a maior empresa de transporte marítimo em containers do mundo.
A declaração do Papa Francisco à conferência está aqui (em inglês).
Mons. José Domingo Ulloa Mendieta, Arcebispo Metropolitano do Panamá, disse: “A Arquidiocese do Panamá – a primeira arquidiocese das Américas a desinvestir e a primeira da casa do maior canal de navegação do mundo – anuncia sua vontade de iniciar um trabalho pastoral em favor de uma ecologia integral.”
O Cardeal Crescenzio Sepe, Arcebispo Metropolitano de Nápoles, disse: “Tenho o prazer de comunicar o compromisso convicto da Arquidiocese de Nápoles com a campanha de desinvestimento em combustíveis fósseis… Está na hora de nos conscientizarmos da gravidade da crise climática e de trabalharmos por uma mudança respeitosa no comportamento e estilo de vida de cada pessoa. Acho que essa responsabilidade civil deve ser um dever moral e um compromisso concreto para todo bom cristão”.
Simon Bergulf, Diretor de Assuntos Regulatórios, A.P Moller-Maersk, disse: “Em dezembro de 2018, decidimos nossas metas: alcançar 60% de redução de GEE até 2030 e ser “net zero” em 2050. Por quê? O transporte marítimo representa 2-3% das emissões globais. Estamos contentes por estarmos recebendo pressão de investidores e consumidores que estão cientes de que algo deve mudar. Estaremos presentes na IMO em Londres e estamos confiantes de que as coisas vão mudar ”.
Tomás Insua, Diretor Executivo do Movimento Católico Global pelo Clima, disse: “A crise climática é real, e não temos tempo a perder para solucioná-la. Abrir mão dos combustíveis fósseis é enviar uma forte mensagem ao mundo: a Igreja Católica não vai esperar pela justiça climática”.
No total, 12 instituições anunciam seu desinvestimento hoje, a lista completa encontra-se aqui. Elas estão se unindo a um total global de +120 instituições católicas que já desinvestiram até hoje.
O Movimento Católico Global pelo Clima é uma rede internacional composta por mais 800 instituições católicas e milhares de indivíduos que trabalham juntos para colocar em prática a visão da Laudato Si’ e solucionar a crise climática.