Foto – Rodrigo Alva
ARTIGO
POR – MARIANA DE ARAGÃO PEREIRA* e ANDREA MESQUITA*, PARA NEO MONDO
Só produzir carne já não basta. É preciso estabelecer uma comunicação mais transparente e clara com a sociedade em geral, demonstrando, com ciência e sabedoria, o que realmente é a pecuária brasileira e como a inovação tem mudado o campo, a indústria e o varejo Brasil afora
A carne bovina se tornou alvo de alguns grupos da sociedade que, por crença, desinformação ou agendas paralelas, atribuem ao produto malefícios para a saúde do consumidor e do planeta. Porém, é necessário fazer um contraponto e reconhecer o enorme avanço que a pecuária brasileira atingiu nas últimas décadas. No Brasil, a criação de bovinos em pasto, essencialmente, converte capim – em áreas geralmente com solos de baixa fertilidade – em produtos de alto valor biológico. Por serem herbívoros ruminantes, os bovinos desempenham importante papel no ciclo natural da vida – fato, por vezes desconhecido e pouco comentado. Cabe destacar também a crescente incorporação dos princípios da sustentabilidade e do bem estar animal nas fazendas pecuárias, evidenciada pela rápida adesão de produtores a protocolos de boas práticas agropecuárias, entre eles, o Programa BPA da Embrapa, o Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável (GIPS) etc., ou ainda a adesão a políticas públicas de apoio à descarbonização da atividade.
Não obstante à pujança do setor da carne bovina, sua imagem tem sido atacada, com impacto negativo na confiança do consumidor. Estudo realizado pela Universidade Federal da Grande Dourados e Embrapa Gado de Corte concluiu que notícias negativas afetam mais forte e amplamente a confiança dos consumidores na cadeia produtiva do que notícias positivas. Usando a operação Carne Fraca (Exame, 12/05/2017) como foco do estudo, notou-se que o nível de confiança em frigoríficos, governo, produtores, fiscais agropecuários etc, despencou entre participantes que assistiram a um vídeo sobre essa operação (estímulo negativo), em comparação aos que não assistiram (grupo controle). Entre participantes cujo vídeo assistido mostrava a atuação do Serviço de Inspeção Federal do MAPA (estímulo positivo), o nível de confiança aumentou apenas no caso dos fiscais agropecuários (para maiores detalhes, acesse aqui).
Esses resultados confirmam o grau de influência da comunicação na percepção dos consumidores e trazem consigo uma reflexão necessária sobre como nos comunicamos com eles. É crucial a cadeia produtiva da carne se posicionar com clareza e agilidade, sempre que uma nova falácia sobre a pecuária surgir, comentada por aquelas “estrelas de TV”. Mais do que combater as fake news, a comunicação ética e transparente precisa fazer parte da rotina de todos os elos da cadeia produtiva, tornando-se uma prática contínua e proativa, e não apenas reativa. É preciso demonstrar, com ciência e sabedoria, o que realmente é a pecuária brasileira, quem são as pessoas por trás dela e como a inovação tem mudado o campo, a indústria e o varejo, Brasil afora. Temos que mostrar que a realidade da pecuária a pasto praticada no Brasil é muito diferente daquela superintensiva e confinada dos Estados Unidos ou que mantém os animais em galpões durante o inverno para protegê-los do frio europeu.
O dicionário Michaelis define confiança como a “crença que algo é de qualidade superior e não falhará”. É indiscutível a “qualidade superior” da carne bovina, dado alto valor biológico de sua proteína. Nos cabe agora não falhar, e nos comunicar adequadamente com os consumidores, aqui e lá fora. Afinal, como dizem, se leva uma vida para construir a confiança, mas segundos para destruí-la.
Mariana de Aragão Pereira, é Zootecnista e pesquisadora da Embrapa Gado de Corte.
Andrea Mesquita é Zootecnista, fundadora e CEO do Território da Carne.