Mulher carregando água no nordeste brasileiro – Foto: Foto: Alan Tiago Alves/G1
POR – REDAÇÃO NEO MONDO, COM INFORMAÇLÕES DO INSTITUTO TRATA BRASIL
As brasileiras mais pobres têm um esforço econômico 16 vezes maior para conseguir comprar produtos de higiene pessoal, comparado com as de maior renda
O acesso pleno ao saneamento básico é um poderoso agente transformador na estrutura de um país, impactando diretamente e positivamente a população em âmbitos econômicos, sociais e ambientais. Por outro lado, a precariedade nos serviços de atendimento de água e esgotamento sanitário afeta diretamente a saúde dos habitantes, prejudica o desenvolvimento humano e até mesmo reforça a desigualdade social e de gênero perante a sociedade.
Na vida da mulher, as desigualdades de gênero ocorrem em todos os estágios de sua vida, da infância à velhice. O Instituto Trata Brasil discorre sobre o impacto negativo da falta de saneamento na vida das mulheres brasileiras, a partir de informações da segunda edição do estudo “Saneamento e a vida mulher brasileira”, lançado em 2022 – realizado pela EX Ante Consultoria Econômica e Instituto Trata Brasil, em parceria com a BRK Ambiental e apoio da Rede Brasil do Pacto Global. Segundo dados do estudo, uma em cada quatro mulheres não são abastecidas com água tratada com regularidade, ademais 41,4 milhões residem em casas sem coleta de esgoto.
No Brasil, o número de mulheres que moram em casas sem coleta de esgoto saltou de 26,9 milhões para 41,4 milhões entre 2016 e 2019, ou seja, uma taxa de crescimento de 15,5% ao ano do número de brasileiras afetadas pelo problema. Nesse mesmo período, a população feminina prejudicada pela falta de água tratada passou de 15,2 milhões para 15,8 milhões e a ausência do serviço regular afetou 24,7 milhões. Já o índice de mulheres sem banheiro em casa cresceu 56,3% no acumulado do período, passando de 1,6 milhão para 2,5 milhões.
É fundamental observar que a desigualdade de gênero no acesso aos serviços de água e de coleta de esgoto afeta também outros direitos humanos, como o direito das mulheres à saúde, segurança, moradia adequada, educação e alimentação. Essa desigualdade está na base do conceito de pobreza menstrual, que é definida como a falta de condições materiais e sanitárias para a realização da higiene pessoal durante o período menstrual.
Sendo assim, a privação do saneamento básico reforça ainda mais a situação preocupante em relação à pobreza menstrual vivida por milhares de meninas e mulheres. Dados da pesquisa mostram que a existência de banheiro de uso exclusivo na residência reduziria em 45,4% a probabilidade de afastamento das atividades cotidianas por doença ginecológica, enquanto o atendimento de coleta de esgoto na moradia diminuiria em 18,1% a chance de uma mulher ter um afastamento por doença ginecológica. Somados, o acesso pleno ao saneamento poderia reduzir em 63,4% a incidência de doenças ginecológicas na população feminina com idade entre 12 e 55 anos.
Além disso, as mulheres mais pobres têm um esforço econômico 16 vezes maior para conseguir comprar produtos de higiene pessoal, comparado com a população feminina de maior renda. Mulheres que não têm acesso à água tratada comprometem uma parcela maior da renda com a compra de absorventes e coletores menstruais, o impacto é 36% superior. Para aquelas que vivem sem banheiro em casa, o esforço econômico é 64% maior.
Outro ponto relevante se refere à educação e formação profissional das mulheres. A universalização do saneamento na vida da mulher brasileira traria uma redução do atraso escolar e uma melhora no desempenho das mulheres nos estudos. Para se ter uma ideia, segundo o estudo, mulheres que residem em uma moradia sem banheiro tiveram uma nota 53,1 pontos inferior no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em comparação com a média do exame, em 2019. As maiores diferenças foram registradas na redação (-73,3 pontos) e em matemática (-64,6 pontos).
Mapa 1 – Número de mulheres que deixariam a pobreza em razão da universalização do saneamento, em mil pessoas, 2019.
O estudo aponta ainda que o acesso pleno aos serviços de água e esgotamento sanitário tirariam mais de 18 milhões de mulheres da condição de pobreza, sendo que 3 em cada 4 mulheres a deixar a condição de pobreza seriam pardas ou negras, o que ressalta o caráter inclusivo da universalização. Em complemento, a renda da mulher poderia ser também ampliada em 1/3 com a garantia dos serviços básicos. O aumento alcançaria R$ 13,5 bilhões por ano e cerca de metade desses ganhos ocorreriam no Norte e Nordeste do país, regiões com os maiores déficits de saneamento.
“Em diversos campos, as mulheres têm as esferas de suas vidas comprometidas pela falta do atendimento de água potável e do esgotamento sanitário. Atingir as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento significa possibilitar que mulheres vivam com dignidade, alcançando seus sonhos e objetivos. A fim de construir um país mais igualitário” — aponta Luana Pretto, primeira mulher a ser Presidente Executiva do Instituto Trata Brasil.
Em especial ao mês da mulher, o Trata Brasil anuncia a nova minissérie no podcast “Falando de Saneamento”, com objetivo de ressaltar importantes figuras femininas a partir do tema de serviços básicos e também ressaltar as suas atuações como referências de liderança, inspiração para outras mulheres, o seu papel como mãe e ainda na busca da universalização do saneamento. Para inaugurar esta minissérie, o ITB convida Silvana Aquino, gerente de RH e ESG na Visteon Brasil, para uma conversa especial com nossa Presidente Executiva, Luana Pretto.
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