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POR – OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
No Brasil, o Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, é tradicionalmente um momento para homenagear a riqueza de nossas florestas e lembrar a importância da preservação ambiental. No entanto, em 2024, um dado vem acompanhado de uma realidade alarmante: desmatamento desenfreado e queimadas devastando todos os biomas brasileiros, da Amazônia à Mata Atlântica, passando pelo Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampas. O cenário pede uma reflexão profunda sobre o impacto das atividades humanas e as urgências de ações concretas para a reversão dessa crise ambiental. Um dado que deveria simbolizar a renovação do compromisso com a preservação ambiental, nos confronta com a dura realidade de que a destruição das florestas está acontecendo em um ritmo alarmante.
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O alerta dos biomas
Os biomas brasileiros – Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa – sofrem pressões crescentes devido à expansão do agronegócio, extração de madeira ilegal, grilagem de terras e mudanças climáticas. Cada bioma carrega uma biodiversidade única, essencial para o equilíbrio ambiental e climático. Entretanto, o desmatamento vem avançando em níveis históricos. Segundo dados recentes do INPE, a Amazônia perdeu 13.235 km² de floresta entre 2022 e 2023, somente entre janeiro e agosto de 2024, foram mais de 3 mil km² de florestas devastadas enquanto o Cerrado, conhecido como “berço das águas” por abrigar as nascentes dos principais rios brasileiros, também enfrenta níveis elevados de desmatamento, com perda de biodiversidade e impactos severos no ciclo hidrológico e sofre com a conversão de áreas naturais em pastagens e agricultura. No Pantanal, as queimadas intensificadas, muitas vezes provocadas por práticas de manejo ecológicas, ameaçam a vida selvagem e as reservas de água doce. A Caatinga, embora menos mencionada, também sofre uma manipulação crescente com o desmatamento e desertificação, resultante de práticas predatórias.
Enquanto isso, a Mata Atlântica, que já perdeu mais de 85% de seu vegetação original, continua a ser destruída para dar lugar a empreendimentos imobiliários e agrícolas. O Pampa, bioma menos conhecido, enfrenta uma intensa conversão de pastagens nativas em monoculturas.
Os impactos devastadores das queimadas
Além do desmatamento, o uso do fogo como prática agrícola continua a ser uma das principais causas de devastação ambiental. O fogo, muitas vezes utilizado para “limpeza” de áreas e expansão agropecuária, tem se espalhado de forma descontrolada, afetando não apenas a flora e a fauna, mas também a saúde pública, com a piora da qualidade do ar das áreas afetadas. A fumaça gerada pelas queimadas já é sentida nas grandes cidades, e os prejuízos econômicos, especialmente nas áreas de agricultura familiar e turismo ecológico, são cada vez mais evidentes. Dados recentes mostram que o Brasil enfrenta um aumento preocupante no número de focos de incêndio, especialmente na Amazônia e no Pantanal. No Pantanal, bioma que ainda se recupera dos incêndios devastadores de 2020, as chamas voltaram a destruir importantes áreas de preservação, afetando a fauna e a flora locais.
Os incêndios florestais não apenas liberam grandes quantidades de CO₂ na atmosfera, contribuindo para o agravamento das mudanças climáticas, como também destroem habitats, ameaçam espécies em extinção e impactam diretamente as comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem das florestas para sua subsistência.
A urgência por soluções sustentáveis
Diante desse cenário, o Dia da Árvore reforça a necessidade urgente de promoção de ações de reflorestamento e restauração ecológica. Iniciativas como o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e projetos de agroflorestas têm ganhado força como respostas sustentáveis à manipulação ambiental, integrando a preservação da biodiversidade com práticas agrícolas regenerativas.
É fundamental fortalecer a necessidade de políticas públicas eficazes para frear o desmatamento e promover o reflorestamento. Programas como o Plano ABC+ e o Código Florestal devem ser fortalecidos, com ações de fiscalização mais rigorosas e incentivos a práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e a restauração ecológica. As iniciativas de preservação também precisam incorporar as populações locais, que desempenham um papel vital na manutenção e recuperação das florestas. O incentivo à economia sustentável são medidas essenciais para a recuperação dos biomas e a proteção dos serviços ecossistêmicos que eles oferecem, como a regulação do clima, a purificação do ar e da água, e a manutenção da fertilidade dos solos .
O papel da sociedade
A conscientização e o engajamento da sociedade civil são igualmente cruciais. O Dia da Árvore deve servir como um marco para refletirmos sobre nosso papel na conservação das florestas. Pequenas ações, como o consumo consciente de produtos que respeitam o meio ambiente, o apoio a iniciativas de reflorestamento e a cobrança por uma maior responsabilidade ambiental de empresas e governos, podem fazer uma diferença significativa.
Em tempos de crise ambiental sem precedentes, o Dia da Árvore de 2024 é um chamado à ação coletiva. Proteger e restaurar nossas florestas não é apenas uma questão de sustentabilidade, mas de sobrevivência. O Brasil, com sua vasta biodiversidade e biomas ricos, tem o potencial de liderar a transição para um futuro verde, mas isso exige comprometimento real e urgente de todos os setores da sociedade.
Compreender e valorizar a árvore como símbolo de vida é essencial, mas, mais importante ainda é agir para proteger o que resta das nossas florestas. A natureza nos oferece recursos indispensáveis, e cada árvore derrubada ou queimada, perdemos um pouco mais da nossa capacidade de coexistir com o planeta de forma equilibrada e saudável. Afinal, sem as árvores, não há ar, não há água, e não há futuro.
Neo Mondo busca não apenas alertar sobre o agravamento das condições ambientais no Brasil, mas também promover uma reflexão crítica sobre o papel de cada um na construção de soluções para o desmatamento e queimadas que assolam nossos biomas.