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ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Vivemos em um tempo de afirmativas, de positividade. O que vale é performar, apresentar resultados. A coisa em si nem é o mais importante, mas o que ela vendeu ou quantos likes rendeu. Um artista não é mais conhecido por sua obra, mas pelo número de pessoas que atingiu. No mundo digital, o termo “viralizou” ganhou status de palavra desejada. A vida humana finalmente equiparou-se à Natureza crua e brutal, sem disfarces ou matizes. Não há mais espaço para sutilezas e hesitações, para preciosismos e idiossincrasias. O que conta é seguir o algoritmo e faze-lo funcionar em seu favor. Contraria-lo é o exílio nas trevas. Quem não viraliza não se estabelece. Por isso, sorria e faça o que o especialista em mídias digitais determina. Sua obra não tem importância. Seu resultado é o que conta. Afinal, quando você se tornar “famoso”, ninguém vai querer saber o que você fez para chegar nessa posição. Mas, paradoxalmente, todos vão querer imita-lo, num looping de vacuidades que se multiplica e preenchem os espaços digitais, em uma miríade de “não existências artísticas” , reluzindo diante dos holofotes dos “seguidores”.
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Há, porém, uma alternativa, uma possibilidade. Dizer “não”. No entanto, é fundamental entender que essa atitude vai exclui-lo imediatamente desse processo contemporâneo de produção de sucessos e de dinheiro. Por outro lado, é a única forma de possibilitar um investimento na criação de algo que se sustente em pé e se justifique como contribuição duradoura, aquilo que Italo Calvino denominou certa vez de “clássico”: Clássico é aquilo que se lê contra o fundo ruidoso do mundo. Ou: Um clássico é o que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
Dizer não ao ruído do mundo e sua parafernália de repetições ad nauseam, com sua pletora de influencers informando e afirmando coisas -sobre as quais não sobreviveriam a um questionamento de três perguntas básicas – e concentrar-se na produção de algo que traduza o mundo invisível por trás desse cromaqui digital é uma tarefa que exige reafirmar a esperança de humanidade que ainda nos resta, na capacidade que ainda possuímos, em algum lugar, de vivermos e dividirmos experiências transformadoras. Como lembrou Walter Benjamin, o narrador não é apenas um contador de histórias, mas também um conselheiro. Suas narrativas, muitas vezes, carregam ensinamentos morais e práticos, ajudando os ouvintes a navegar pela vida. Porém, a modernidade, com sua valorização da individualidade e da experiência pessoal, tem levado à morte da narrativa . A figura do narrador viajante, que percorria diferentes lugares e coletava histórias, está em declínio, substituída por formas de comunicação mais fragmentadas e individualizadas.
E o que há para dividir em uma experiência fragmentada? Qual o seu conteúdo de vida e de inspiração? Como podemos nos identificar e , ao faze-lo, reafirmar nosso destino comum de comunidade, em torno de algo coletivo? Tudo isso está se desfazendo, e uma das consequências é a perda de referências que nos sustentaram até aqui, como as nossas instituições políticas e nossa esfera social. Tornamo-nos máquinas de ressentimento e de ódio, ao mesmo tempo em que também nos reconfiguramos em zumbis digitais e amantes dos fantasmas que, todos os dias, despontam em milhões de visualizações e curtidas, até que se esfumam no fundo da tela, para serem imediatamente substituídos pela nova “viralização.”
Dizer não , nesse contexto, é um ato de rebeldia , em nome da herança que precisamos defender e preservar, da cultura de Humanidade que nos trouxe até aqui. Sem ela, no que nos tornaremos?
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros