Imagem gerada por IA – Foto: Divulgação
POR – OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO PORTAL NEO MONDO
Ignorando décadas de negociações diplomáticas, uma empresa americana se lança à exploração predatória do fundo do mar — e abre um precedente perigoso para o planeta inteiro
Enquanto líderes mundiais ainda debatem o destino das profundezas oceânicas, uma empresa corre para fincar sua bandeira sobre territórios que pertencem a todos — e a ninguém. Em um movimento abrupto e estrategicamente calculado, a multinacional The Metals Company (TMC) anunciou, em 27 de março de 2025, que pretende iniciar a mineração em alto-mar com base em uma lei americana da década de 1980, obsoleta e alheia às convenções internacionais modernas.
Leia também: O que é a mineração em águas profundas?
Leia também: 6 razões para frear a mineração em águas profundas
A decisão surge como um balde de água salgada em meio às negociações do Conselho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), que ainda trabalha na construção de um marco regulatório global para proteger os ecossistemas marinhos das ameaças da mineração. O anúncio da TMC, feito com precisão cirúrgica na véspera do encerramento da reunião, representa mais do que uma manobra jurídica: é uma afronta ao multilateralismo e à governança ambiental do século XXI.
A pressa de explorar e o custo do silêncio
Com base na ultrapassada Deep Seabed Hard Mineral Resources Act (DSHMRA), a TMC pretende contornar o debate internacional e dar início à exploração comercial já no segundo trimestre deste ano. O problema? A legislação em questão foi escrita em plena Guerra Fria e ignora totalmente os avanços jurídicos e ambientais das últimas décadas — incluindo a própria Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), da qual os Estados Unidos sequer são signatários.
“Esta é outra manobra patética da The Metals Company e um insulto ao multilateralismo”, disparou Louisa Casson, porta-voz do Greenpeace Internacional.
Com a justificativa de que o marco legal americano oferece um “caminho previsível”, a empresa se lança sobre um território ainda sem regras claras, desconsiderando anos de debates científicos, jurídicos e éticos sobre os limites da exploração em águas profundas. O gesto é simbólico — e perigoso. Se prosperar, poderá abrir as comportas para uma corrida desenfreada por recursos minerais do leito oceânico, antes mesmo que se compreenda suas reais consequências.
Um ataque ao pacto global pelo oceano
Mais do que uma ação isolada, o movimento da TMC soa como uma tentativa deliberada de desacreditar a diplomacia internacional. A empresa, que mantinha uma parceria com o governo de Nauru, pequeno estado insular do Pacífico, agora se desvincula desse arranjo e busca respaldo direto na legislação dos EUA — manobrando interesses e instrumentalizando países vulneráveis em favor da própria expansão.
“O futuro do mar profundo está sendo capturado por interesses corporativos que ignoram a relação cultural de povos e comunidades com o oceano”, alerta Mariana Andrade, coordenadora de Oceanos do Greenpeace Brasil.
O gesto revela uma visão extrativista, que reduz o oceano a uma reserva de minérios a ser explorada, ignorando seu papel vital como regulador do clima global, reservatório de biodiversidade e elo essencial para culturas ancestrais e comunidades costeiras.
A ciência é clara — o risco é profundo
O fundo marinho é uma das últimas fronteiras inexploradas da Terra. E justamente por isso, é também uma das mais frágeis. A comunidade científica alerta que as atividades de mineração submarina têm potencial para causar impactos irreversíveis, como a destruição de habitats únicos, a emissão de sedimentos tóxicos e o colapso de cadeias ecológicas ainda pouco compreendidas.
Sem uma regulamentação sólida e baseada em evidências, qualquer autorização para exploração em alto-mar é, na prática, um experimento ambiental em escala planetária — sem controle e sem garantia de reversão.
Moratória já: o apelo dos oceanos
O avanço unilateral da TMC ignora um movimento crescente e legítimo: 32 países, incluindo o Brasil, já apoiam uma moratória global sobre mineração marinha até que se estabeleça um marco legal robusto e justo. A pressa em licenciar operações baseadas em legislações nacionais anacrônicas ameaça esvaziar esse esforço coletivo e transforma o diálogo internacional em retórica vazia.
Se a ISA perder o controle sobre os processos de autorização, o mundo poderá testemunhar a fragmentação total da governança dos oceanos — e com ela, a abertura de uma nova era de conflitos diplomáticos, violações de soberania e crimes ecológicos sem precedentes.
A quem pertence o fundo do mar?
Em última instância, a disputa em curso não é apenas sobre minérios, contratos ou tratados. É sobre a própria ética da convivência planetária. Os oceanos profundos não são extensão de territórios nacionais, nem propriedade privada de corporações. Eles são bem comum da humanidade, e sua preservação é vital para o equilíbrio climático, a soberania alimentar, a cultura de povos originários e a saúde do planeta.
A decisão da TMC de ignorar o caminho do diálogo global é mais do que um atalho jurídico. É um sinal alarmante de que, mesmo diante da crise ecológica sem precedentes que enfrentamos, a lógica da exploração continua a sobrepor a lógica da preservação.
Quando a pressa atropela o pacto coletivo, quem afunda não são apenas os tratados — são os próprios oceanos.
*Com informações de Tais Terra, do Greenpeace Brasil.
Precisamos agir agora!
Assine a petição #Parem a Mineração em Águas Profundas e ajude a pressionar pela proteção dos oceanos contra a mineração marinha predatória.
Sua voz é essencial nesta luta.