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ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Passado mais um ciclo eleitoral , quase um terço dos eleitores brasileiros não escolheu ninguém, seja por não terem sequer ido aos locais de votação, seja por terem ido mas recusado seu voto a qualquer um dos candidatos. Considerando que o vencedor tenha obtido pouco mais de 50% dos votos, governará com o aval de menos de 40% dos eleitores. Isto é, boa parte dos prefeitos não representará a vontade da maioria dos cidadãos de suas cidades.
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Essa apatia política não é um fato isolado, embora seja relativamente recente. Nas primeiras eleições para presidente, em 1989, a abstenção foi de pouco mais de 11%. Na eleição de 2018, ultrapassou os 21%, ou seja, mais de 30 milhões de eleitores simplesmente não quiseram saber quem comandaria os destinos do país, se Bolsonaro ou Haddad.
Quando analisamos quem mais se abstém, verificamos que a desigualdade é um fator que afeta também a higidez da Democracia, pois a escolarização e a renda são os fatores que mais incidem na hora de votar: mais da metade dos eleitores que deixaram de votar nas eleições de 2022 tinham até o Ensino Fundamental. A dificuldade de acesso aos locais de votação é outro fator que dificulta os mais pobres de votar. Por isso, liberar o transporte coletivo no dia da votação é uma medida importante, mesmo que ainda não suficiente. Muitos eleitores não sabem que essa medida é tomada em muitos municípios e, quando isso ocorre, a disponibilidade de ônibus é reduzida.
Outro grupo que vota menos do que a média é a juventude. Esse é um sinal importante sobre a saúde da Democracia, pois indica uma falta de interesse e compromisso com o futuro da administração das Cidades, Estados, País, por parte de quem vai ficar mais tempo por aqui usufruindo ou sofrendo as consequências de sua escolhas. Ou falta de escolhas.
Isso tudo ocorre em um país onde o voto é obrigatório. A ideia da obrigação está associada ao Dever Moral de compartilhar um destino comum e dele participar ativamente. Se somos uma Nação, se nos reconhecemos como cidadãos de um mesmo país, se aceitamos a ideia de sermos brasileiros, identificados pelo mesmo hino e a mesma bandeira, como não aceitaríamos a ideia de que temos o compromisso comum de escolher quem vai gerir nossos recursos e elaborar as leis as quais deveremos obedecer? Como, por exemplo, faz sentido, sentir-se brasileiro, vestir a camisa amarela e gritar “Pátria Amada, Brasil”, e depois ignorar a obrigação de votar naqueles que vão sustentar nossa estabilidade política, econômica e social por 4 anos?
É fato, como lembrou o professor Michael Sandel, da Universidade de Harvard, que “a não ser que os cidadãos possam ter confiança de que os políticos eleitos buscam fazer o melhor para suas vidas, ainda que de forma imperfeita, a democracia não pode funcionar”. E talvez por isso haja, ultimamente, um entusiasmo maior nas candidaturas “anti-sistema”, de pessoas que defendem ocupar cargos públicos para acabar com os cargos públicos, como, por exemplo, candidatos a deputados ou senadores que defendem fechar o Congresso ou candidatos a governador ou presidente que defendem ditaduras. A falta de reconhecimento da capacidade dos políticos em nos representar aumenta o desinteresse ou o desejo de demolir tudo. É preciso destacar, porém, que nenhuma das duas apostas, ao longo da História, trouxe qualquer melhoria geral pros cidadãos. Como lembrou o pensador Norberto Bobbio, o exercício da Democracia é como estar em um labirinto tentando escapar. Não sabemos exatamente qual é a saída, mas sabemos que certos caminhos definitivamente não levam a lugar nenhum. Muitos cidadãos brasileiros, no entanto, não sabem ou esqueceram dessa lição. Em ambientes coletivos, o único caminho para uma sobrevivência suportável é o acordo. A Democracia é como um condomínio de um edifício com muitos apartamentos. Ninguém precisa gostar de todo mundo, ninguém precisa sequer conhecer todo mundo, mas todo mundo precisa compreender que todos têm direitos e que é preciso estabelecer regras para que esses direitos comuns possam ser exercidos. E isso implica sempre em restrições aos nossos desejos pessoais. Esse desconforto é o preço que se paga para viver em ambientes coletivos. Por isso o sonho de consumo de muitas pessoas, retratado em filmes sobre riqueza e sucesso, é uma praia deserta, mas com todo o conforto e serviçais atendendo todos os nossos pedidos. Pois é. A vida não é assim, mesmo para quem tem dinheiro. Imagina para todo o resto.
Passado mais um ciclo eleitoral, os vencedores assumindo seus cargos, reinicia-se o ciclo de reclamações e protestos, onde é comum ouvir de quem não votou críticas sobre os eleitos, e de quem votou nulo, discursos de como os eleitores são “burros” e “não sabem votar”.
A comemorar, o fato de que passamos mais um ciclo eleitoral, ininterrupto desde o fim da ditadura militar, de nefasta memória. E que, enquanto houver liberdade de escolha, mantemos a esperança de aprendizado e melhoria. Um, dia, oxalá, sairemos do jardim de infância da Política e quem sabe ainda ganhamos o diploma de país Digno e Democrático.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
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