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Escrito por Neo Mondo | 18 de março de 2022
Imagem - Divulgação
Por - Marina Amaral, Diretora Executiva e Editora da Agência Pública
Empresto a frase do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no evento de lançamento do livro “Os mil nomes de Gaia: do Antropoceno à Idade da Terra” para resumir a sensação de tantos nós diante dos acontecimentos da semana. Não apenas pela guerra na Ucrânia, que continua a matar mais e mais civis, transmitindo ao mundo o terror da ameaça nuclear, mas também pelos céus europeus tingidos de laranja pelas areias do Saara, que assustam como uma distopia futurista.
Este é um dos “perigos inevitáveis” da emergência climática citados no último relatório do IPCC, como lembrou Viveiros no evento que reuniu os autores da coletânea. Das enchentes devastadoras no Brasil à força da calima - como é chamado esse fenômeno que traz as areias de tempestades no deserto ao continente europeu - os desastres naturais se sucedem em intensidade e proporções raramente vistas.
“Nós precisamos pensar no que serão as tempestades de nossos filhos e netos”, disse o geólogo Alexandre Costa, que apresentou dados assustadores sobre a situação do planeta (vale a pena ouvir a live para perceber o nível de irracionalidade a que chegamos). Para ficar em um deles: 5,7 bilhões de sedimentos são removidos anualmente pela mineração, o triplo do transporte natural de sedimentos feito por todos os rios do planeta somados!
Temos que agir, e agir rápido, concordam cientistas e pesquisadores. Mas, no Brasil, país estratégico para o combate do colapso ecológico, o que se vê é um pacote de destruição a ser votado no Congresso, que combina liberação de mineração em terras indígenas com o envenenamento de rios e comunidades tradicionais, a grilagem de terras públicas com o assassinato sistemático de lideranças comunitárias, os incêndios florestais patrocinados pelo governo com desmatamento recorde na Amazônia: foram 629 km2 de florestas derrubadas nos primeiros dois meses do ano, número 3 vezes maior do que o registrado no mesmo período no ano passado, segundo o Inpe.
“A Amazônia é o centro do mundo, eu disse uma vez. Agora cabe dizer que o centro não sustenta. O centro não aguenta mais. O centro do mundo fica cada vez mais perto do fim e a besta está solta. A besta está solta e não tem vergonha”, disse Viveiros, referindo-se em seguida à portaria do Ministério da Justiça que concedeu a medalha do mérito indigenista para Jair Bolsonaro e seus ministros “em reconhecimento pelos serviços relevantes em caráter altruístico [sic] relacionados com o bem estar, a proteção e a defesa dos povos indígenas”.
É mais do que escárnio, é sadismo. O Brasil precisa ser reinventado a partir das próximas eleições. Sem perder de vista nosso papel decisivo nesse mundo que todos nós temos que recriar com urgência.

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