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Escrito por Neo Mondo | 24 de julho de 2025
"O dilema entre guerra e paz precisa voltar a ser apenas um símbolo do passado, um passado que não queremos de volta" - Imagem dos painéis “Guerra e Paz” do pintor brasileiro Candido Portinari - Foto: © Lois Conner/ONU
ARTIGO
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Por – Gustavo Porpino*, especial para Neo Mondo
Portinari, gênio brasileiro, talvez tenha sido visionário ao pintar, nos anos 1950, os murais Guerra e Paz, que já tive o prazer de contemplar nas Nações Unidas, em Nova York. A paz de Portinari tem crianças brincando, e também o ofício de semear e colher. A guerra é representada pela angústia, privação de liberdade e morte. A arte magistral de Portinari, concluída há quase 70 anos, permanece atual. O mundo vive diversas ameaças à paz em muitas regiões, e as bombas atômicas — verdadeiros fantasmas do passado — voltam ao noticiário com o transporte do arsenal americano para uma base no Reino Unido.
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A crescente militarização global põe em risco vidas humanas e reduz a capacidade dos países de investirem em políticas alimentares abrangentes. O investimento estimado para viabilizar a produção sustentável de alimentos diversos no continente africano — região com 64% das terras agricultáveis do mundo, rica cultura alimentar e biodiversidade com potencial de uso para nutrição — é de 100 bilhões de dólares por ano, conforme projeção do Agricultural Transitions Lab for African Solutions (ATLAS), iniciativa do Fórum da Paz de Paris. Os valores podem impressionar à primeira vista, mas representam apenas 3,7% do gasto militar mundial em 2024. Neste ano, com a continuidade dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, atritos entre Índia e Paquistão e instabilidade no Oriente Médio, a indústria das guerras deve consumir mais de US$ 2,7 trilhões, como em 2023.
Os conflitos armados desafiam a circulação de alimentos e ampliam a fome global. O tabuleiro alimentar global é permeado por conexões e consequentes trade-offs. Quando uma região entra em conflito, as rupturas nos fluxos de grãos, fibras, proteína animal e energia impactam diversos países não participantes das guerras — e a conta final é sempre paga pelos cidadãos mais humildes, que destinam a maior parte da renda à alimentação. Além dos conflitos armados, ampliam-se no mundo as guerras tarifárias e os conflitos ideológicos.
A polarização política — fenômeno também global — dificulta ainda mais os consensos necessários para que se invista no que realmente importa. O Brasil é pouco afeito a guerras, mas temos nossas batalhas internas. O orçamento para as emendas parlamentares, que este ano deve ultrapassar R$ 50 bilhões, é tão expressivo que representa quase dez vezes o montante destinado ao Programa Nacional de Alimentação Escolar — a política pública mais relevante para a garantia do direito humano à alimentação adequada de 40 milhões de estudantes.
Atenuar os impactos da geopolítica dos alimentos nos mercados internos envolve transformar verdadeiramente os sistemas alimentares. O primeiro passo é a vontade política dos parlamentares em valorizar o bem comum — algo raro na história do Congresso Nacional, sempre afeito ao “toma lá, dá cá” que caracteriza a política brasileira. A transformação necessária passa por valorizar a agricultura regenerativa, com foco na produção de alimentos alinhados à nossa cultura de consumo.
Em regiões semiáridas do Egito, a agricultura biodinâmica gera renda, incrementa a resiliência às mudanças climáticas e produz alimentos saudáveis. Esses modelos precisam ser replicados em outras regiões mais afetadas pela crise climática. O foco precisa estar na produção do que as pessoas locais tradicionalmente consomem. No Brasil, temos exemplos positivos como os sistemas agroflorestais em diversos biomas e o programa Sisteminhas Comunidades — uma tecnologia social que diversifica a produção de alimentos com a criação de peixes, galinhas e hortas.
Os caminhos a percorrer são conhecidos. A recente Conferência Global da One Planet Network (ONU) sobre sistemas alimentares sustentáveis, realizada em Brasília (DF), evidencia que a transformação dos sistemas alimentares oferece soluções para grandes desafios interligados: mudanças climáticas, perda de biodiversidade, degradação da terra, insegurança alimentar, todas as formas de má nutrição, doenças relacionadas à alimentação, desigualdade e pobreza.
A sensatez clama por abaixar as armas e priorizar sistemas alimentares sustentáveis. A fome, em pleno século XXI, não pode mais ser aceita como arma de guerra. O dilema entre guerra e paz precisa voltar a ser apenas um símbolo do passado — um passado que não queremos de volta.
*Gustavo Porpino é pesquisador, PhD em administração pela FGV e atua na Embrapa Alimentos e Territórios (Maceió – AL).

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