Agronegócio Amazônia Destaques Meio Ambiente Política Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 7 de janeiro de 2022
Chico Mendes foi assassinado a tiros em 22 de dezembro de 1988 no quintal de sua casa em Xapuri (AC). Pouco mais de um ano depois de sua morte, no começo de 1990, foram criadas as primeiras reservas extrativistas do país, por meio de decreto do governo federal - Foto: © Christian Braga / Elefanti Films / WWF-BrasilA Resex Chico Mendes é atualmente a segunda Unidade de Conservação (UC) com mais queimadas em toda a Amazônia, perdendo apenas para a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma reserva estadual do Pará. Entre as UCs Federais, é a mais desmatada de todas.
Entre 1 de janeiro e 7 de dezembro de 2021, a reserva concentrou 29,2% de todos os incêndios registrados em UCs Federais na Amazônia Legal. Nesse período, foram registrados 1.142 focos de queimadas dentro da reserva.
Entre 2012 e 2018, o número de queimadas no interior da Resex aumentou gradualmente, com uma média de 584 focos por ano. Em 2019, foi registrado o maior valor da série até então, com 861 focos. Em 2020 o aumento foi mais pronunciado: 1.127 focos de queimadas na área protegida. Em 2021, com 1.142 focos até o dia 7 de dezembro, um novo recorde já foi atingido.
O desmatamento também deu um salto nos últimos dois anos na Resex Chico Mendes. Segundo os dados do PRODES, dos 11 anos entre 2008 e 2018, a média anual era de 15,25 km2 de corte raso dentro da reserva. Em 2019 foram desmatados 75,87 km2 e, em 2020, 59,17 km2. Em 2021, foram devastados 83,8 km2 no interior da Resex.
De acordo com os moradores locais, o aumento das queimadas e do desmatamento estão conectados à presença cada vez maior de invasores ligados à atividade pecuária na área da Resex. Se em 2010 havia 2.076 famílias morando ali, hoje a estimativa é que já sejam mais de 3 mil - em grande parte sem nenhuma relação com o extrativismo.
Gráfico de desmatamento na Resex Chico Mendes - Fonte: ProdesA presença de pessoas atraídas pela criação de gado foi estimulada por vários fatores, incluindo o aumento dos preços da carne, a expectativa de aprovação do PL 6024 e o explícito apoio do governo federal a infratores ambientais. Esse fluxo já transformou a região da Resex em um dos principais pólos exportadores de bovinos para os estados vizinhos.
Esses fatores de pressão também levam a um êxodo dos extrativistas: sem estímulo, ameaçados e pressionados, moradores tradicionais abandonam a extração de látex e castanha e transferem suas terras para terceiros.
Nesse contexto, muitos dos moradores mais velhos desistem de seu modo de vida por acreditarem, muitas vezes influenciados por notícias falsas, que não terão mais onde trabalhar. Enquanto isso, muitos jovens não vêem futuro no extrativismo e são atraídos pela vida na cidade.
Além da campanha contra o PL 6024, o grupo está envolvido em projetos que visam o aprimoramento e valorização dos produtos da biodiversidade - a fim de deter o êxodo de extrativistas. Eles também estão criando estratégias para combater as notícias falsas e estão participando de ações voltadas para o ativismo digital, depois que o Comitê Chico Mendes foi selecionado para um projeto do Vozes Pela Ação Climática.
Nesse esforço de defesa da Resex, eles têm feito conexões com parlamentares e personalidades, para angariar apoio e integraram o Painel Científico Sobre a Amazônia, que teve participação na COP26.
Em 2018, boa parte desses jovens participaram de um curso voltado para o estímulo do protagonismo do jovem extrativista em defesa das pautas socioambientais nos estados da Amazônia, oferecido pelo WWF-Brasil, em parceria com o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e o Comitê Chico Mendes.
Brasil. Xapuri, Acre. Rogério Barros, seringueiro filho de Raimundão Barros, na RESEX Chico Mendes - Foto: © Christian Braga / Elefanti Films / WWF-BrasilAgropalma expande manejo sustentável para combater degradação dos solos
Retrocesso calculado: quando gigantes da soja trocam a floresta por incentivo fiscal
Trigo: estudo mostra como o Brasil pode reduzir em até 38% a pegada de carbono na produção