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A Amazônia queima mais carbono do que consegue guardar, e a conta chega a 1,17 bilhão de toneladas de CO2 por ano

Escrito por Neo Mondo | 23 de outubro de 2026

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Amazônia queimada vista do alto em Apuí (AM), onde troncos carbonizados cobrem o solo cinzento e uma faixa estreita de vegetação resiste entre as áreas destruídas pelo fogo - Foto: Ilustrativa/Shutterstock

POR - REDAÇÃO NEO MONDO*

Estudo do Inpe publicado na Nature mede 15 anos de ar sobre a floresta e conclui que fogo e desmatamento, e não o clima, inverteram o balanço de carbono do bioma

A Amazônia devolveu à atmosfera, em média, 1,17 bilhão de toneladas de dióxido de carbono a mais do que retirou dela a cada ano entre 2010 e 2024. O cálculo vem de um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) publicado na quarta-feira (21) na revista Nature, liderado pela química Luciana Vanni Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do instituto. A causa tem endereço. Só as queimadas lançaram 1,47 bilhão de toneladas de CO2 por ano, quase cinco vezes os 300 milhões de toneladas que a floresta conseguiu absorver no mesmo período.

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“A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição”, diz Gatti.

O artigo chega no meio de uma temporada de fogo. O bioma soma mais de 41.300 focos em menos de dez meses de 2026, 58% deles em setembro e outubro, contra 43.130 em todo o ano passado, segundo o Inpe. Em Manaus, as aulas da rede municipal estão suspensas desde 9 de outubro por causa da fumaça, e a Universidade do Estado do Amazonas cancelou atividades presenciais até esta sexta-feira (23). A Polícia Federal apura em pelo menos nove inquéritos se há ação criminosa por trás dos incêndios, e o Ibama já aplicou R$ 2 milhões em multas.

Os números do estudo não saem de modelos. Durante 15 anos, aviões de pequeno porte subiram a 4,4 quilômetros de altitude sobre quatro pontos da floresta, no nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste do bioma, e desceram em espiral até cerca de 300 metros do solo, enchendo frascos de ar em 12 alturas, sempre entre o meio-dia e as 13h. Foram 1.017 perfis verticais, analisados para CO2 e monóxido de carbono no laboratório do Inpe em São José dos Campos (SP). As massas de ar entram pelo Atlântico e atravessam a Amazônia rumo aos Andes. A diferença entre o ar que chega do oceano e o ar medido sobre cada ponto revela o que a floresta absorveu ou emitiu pelo caminho. As áreas de influência dos quatro pontos cobrem 95% do bioma.

O achado que reorganiza o debate está num indicador técnico, a troca líquida do bioma, que soma tudo o que a vegetação absorve e libera, exceto o fogo. Nos três grupos de anos analisados, esse saldo ficou perto de zero. A floresta em pé tirou do ar praticamente o mesmo que devolveu por respiração e decomposição. Sobrou pouca ou nenhuma capacidade para compensar o carbono das chamas. O que desequilibra a balança é a queima.

Para separar o peso do clima do peso da ação humana, a equipe de 33 cientistas agrupou os anos por análise estatística. Nos anos chuvosos e de baixa pressão humana (2011 a 2014, 2017 e 2018), o saldo médio foi de cerca de 400 milhões de toneladas de CO2 por ano, perto da neutralidade. Entre 2019 e 2022, o desmatamento anual subiu 97% e a área queimada, 25%. O saldo saltou para 1,58 bilhão de toneladas. Nos anos quentes e secos, sob El Niño ou aquecimento do Atlântico tropical norte (2010, 2015, 2016, 2023 e 2024), a média chegou a 1,8 bilhão de toneladas, com área queimada 92% maior que a dos anos chuvosos.

O período de 2019 a 2022 funcionou como um experimento involuntário. A temperatura média foi igual à dos anos chuvosos e a chuva caiu só 6%. Sem estresse climático relevante, a emissão quase quadruplicou. Os autores registram que os dois grupos de maior emissão não diferem de forma significativa entre si: num, a derrubada da mata puxou o número para cima; no outro, o fogo ampliado pela seca levou ao mesmo patamar.

Restava saber de onde vinha o fogo dos anos secos. Os pesquisadores cruzaram os incêndios com registros de raios que atingem o solo e concluíram que descargas elétricas explicaram 1,6% dos eventos em 2023 e 1,0% em 2024. O restante teve origem humana. Depois que o governo federal retomou em 2023 as políticas contra o desmatamento, o fogo passou a ser ferramenta de derrubada: o Prodes identificou incêndio como causa de 38% da área desmatada em 2024. Naquele ano a Amazônia emitiu cerca de 2,97 bilhões de toneladas de CO2, o maior valor da série. Fez 1,2 °C a mais que nos anos chuvosos, choveu 462 milímetros a menos e a área queimada foi 182% maior.

O ano anterior mostra o outro lado da moeda. Em 2023, depois de três anos seguidos de La Niña, a estação chuvosa produziu o maior sumidouro de carbono dos 15 anos, e o balanço anual ficou próximo ao dos anos úmidos, apesar de desmatamento 38% e área queimada 52% acima daquele grupo. O de 2024 já começou sob El Niño forte e Atlântico aquecido. “Não fosse a La Niña, as emissões nos anos do grupo 2 poderiam ter sido ainda piores. Com o fenômeno, a absorção de carbono da Amazônia na estação chuvosa compensou 75% das emissões no período da seca”, explica Gatti.

O estudo também mede o que a perda de floresta fez com o clima da própria região. Entre 1979 e 2018, a variação da chuva anual não era estatisticamente significativa. Com seis anos a mais de dados, até 2024, a queda passou a 174 milímetros, ou 8%. No pico da estação seca, entre agosto e outubro, a redução chegou a 20%. A temperatura média anual subiu 1,13 °C no período, e a da estação seca, 1,81 °C. Só nos últimos seis anos foram 0,20 °C a mais na média anual e 0,30 °C na seca. Entre 2018 e 2024, o bioma perdeu outros 60.964 km² de floresta primária.

O sudeste da Amazônia, medido a partir de Alta Floresta (MT), concentra o pior quadro. Ali a estação seca esquentou 2,19 °C desde 1979, e a região respondeu por 62% do desmatamento da Amazônia brasileira entre 2018 e 2024. No nordeste do bioma, a chuva do pico seco caiu 37%. Gatti descreve um ciclo que se retroalimenta: menos floresta, menos chuva, mais calor, mais fogo, mais degradação da mata que sobra. “É um estresse muito grande sobre a floresta que fica”, afirma.

A ocupação do solo acompanha a curva. Em 2024, o desmatamento acumulado na Amazônia brasileira chegou a 807.301 km², 21,3% da cobertura original. De 2010 a 2024, a área de pastagem cresceu 19%, a de soja, 193%, e a de mineração, 272%.

O dado mais recente de desmatamento expõe a dissociação entre derrubada e fogo. O Prodes estimou em 3.335 km² a área desmatada na Amazônia no ciclo encerrado em julho de 2026, o menor valor desde o início da série, em 1988, e 41,8% abaixo dos 5.731 km² de 2025. Os focos, no entanto, voltaram a subir. Para Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), boa parte dos focos no Amazonas se concentra em municípios ao longo da BR-319, no trecho que leva a Manaus, o que ela classifica como “claramente um processo de ocupação”. A pesquisadora pondera que, mesmo com alta de 58% sobre 2025, o total de focos no bioma até 12 de outubro estava 53% abaixo da média histórica.

O próximo ano preocupa mais. Projeções reunidas pelo Painel El Niño 2026-2027 apontam 69% de probabilidade de o fenômeno superar em intensidade todos os eventos registrados desde 1950 e probabilidade de 100% de que ele persista até o início de 2027. É exatamente a combinação que o estudo associa às maiores emissões da série.

Outro trabalho recente descreve um efeito do fogo que não aparece na fumaça. Publicado na Communications Earth & Environment em 7 de outubro, o estudo calcula que o ozônio formado a partir dos incêndios reduz a absorção de carbono da Amazônia num volume equivalente a cerca de 24% do carbono emitido pelas próprias chamas. O poluente danifica as folhas das árvores que sobrevivem ao fogo e diminui sua capacidade de fazer fotossíntese nos meses seguintes.

O artigo desta semana é o quarto de Gatti na Nature com a mesma metodologia, depois de 2014, 2021 e 2023. Os dois anteriores já indicavam que a floresta se tornava fonte de carbono nas regiões mais desmatadas. O de agora estende a conclusão ao bioma inteiro, na média de 15 anos. A pesquisa teve financiamento da FAPESP, pelo Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, e de instituições nacionais e internacionais. Desde 2022, o grupo mede também o sulfeto de carbonila, molécula que funciona como marcador da fotossíntese e deve indicar se as árvores estão crescendo menos ou morrendo mais.

“Vemos a floresta absorvendo cada vez menos carbono. Mas a pergunta é: isso está acontecendo porque a vegetação está fazendo menos fotossíntese ou sofrendo mais decomposição?”, diz Gatti.

*Com informações da Agência FAPESP.

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