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Escrito por Neo Mondo | 1 de agosto de 2025
A COP30 na Amazônia corre risco de esvaziar antes mesmo de começar — e o vilão da vez não é o negacionismo climático, mas o precinho da diária - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Quando a floresta vira vitrine e o futuro é cobrado em dólar — sem café incluso
A realidade tem seus momentos de puro deboche. E desta vez, ela escolheu a Conferência do Clima da ONU como palco. A COP30, anunciada com entusiasmo como um marco histórico por ser realizada no coração da Amazônia, corre agora o risco de ser... cancelada. Não por protestos, crises diplomáticas ou falta de alinhamento climático. Mas porque os hotéis de Belém decidiram cobrar o futuro da humanidade como item de luxo.
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É isso mesmo. Segundo o presidente da COP30, o diplomata e negociador veterano André Corrêa do Lago, diversos países — especialmente os do Sul Global — estão pedindo formalmente que o evento seja retirado de Belém do Pará. O motivo? Preços “extorsivos” de hospedagem, com diárias que chegam a R$ 7 mil. Sete mil. Por noite. Com sorte, com ar-condicionado incluso.
“Alguns países disseram que não conseguirão participar. Outros pediram que a sede fosse alterada. A justificativa é clara: não têm como arcar com os custos”, revelou Corrêa do Lago, visivelmente constrangido, em seminário da CNI.
É o cúmulo da ironia: o evento que se propõe a garantir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável pode se tornar excludente, elitista e inacessível — antes mesmo de começar.
A escolha de Belém foi, sem dúvida, um gesto potente. Levar a principal conferência climática do planeta para a Amazônia era mais do que logístico — era simbólico. Afinal, não há lugar mais urgente, nem mais estratégico, para discutir o futuro climático global. Mas a simbologia só se sustenta se houver coerência entre o discurso e a prática.
O que estamos vendo agora é uma cena digna de tragicomédia: a floresta que deveria acolher os debates planetários está sendo usada como vitrine para especulação predatória, em nome de uma suposta “oportunidade de mercado”. Não é exagero dizer que parte do setor hoteleiro da cidade enxergou na COP não um compromisso com o planeta — mas um carnaval monetizado em novembro.
E o mais perverso: os países que mais sofrem com os impactos da crise climática, aqueles que dependem da COP para fazer valer sua voz e garantir financiamento para adaptação e mitigação, podem ser deixados de fora por não conseguirem pagar a conta da salvação.

Esse episódio levanta uma questão incômoda — e necessária: quem pode pagar para falar sobre o clima?
Quando um quarto de hotel se torna mais caro que uma política de reflorestamento, e participar de uma conferência climática passa a ser um privilégio de quem tem orçamento em dólar, é sinal de que algo está profundamente errado. A COP não pode virar um espaço VIP da diplomacia ambiental.
O governo brasileiro, por sua vez, tenta apagar o incêndio (metaforicamente, por enquanto). Negocia com a rede hoteleira, promete alternativas logísticas — de navios a hospedagens flutuantes — e conta com a plataforma oficial da ONU para tabelar os preços. Mas o dano reputacional já se espalhou como fumaça de queimada: o mundo está assistindo, e nem todos estão dispostos a pagar ingresso para esse espetáculo.
A COP30 tinha tudo para ser — e ainda pode ser — um divisor de águas na agenda climática internacional. Mas se não houver humildade, coordenação e firmeza para coibir abusos e garantir acessibilidade, ela corre o risco de se tornar um retrato cruel das contradições do nosso tempo.
Porque, sejamos honestos: não há futuro sustentável quando o acesso ao diálogo global depende do limite do cartão de crédito.
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