Amazônia CLIMA Cultura Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 15 de setembro de 2025
Terra Indígena Capoto-Jarina, localizada na região do Alto Xingu, no Mato Grosso. Além da gravidade da situação, existe a falta de políticas públicas eficazes para mitigar e responder a esses fenômenos, deixando as populações vulneráveis ainda mais expostas aos efeitos da crise climática.
Foto - © Marizilda Cruppe / Greenpeace
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
Um alerta para o ponto de não retorno da maior floresta tropical do planeta
É quase impossível imaginar o Brasil sem a Amazônia. O bioma ocupa metade do nosso território e é o coração climático do planeta, regulando chuvas, estocando carbono e abrigando uma biodiversidade única. Mas novos dados do MapBiomas jogam luz sobre uma realidade dolorosa: em 40 anos, a Amazônia perdeu quase 50 milhões de hectares de florestas nativas. Estamos falando de uma área equivalente a duas vezes o estado de São Paulo que simplesmente desapareceu.
Leia também: 10 motivos para agir pela Amazônia
Leia também: Amazônia: pulmão do tempo, coração do planeta
E essa perda não é apenas um número em um relatório. Ela é sentida na pele — no clima mais seco, nas cheias e secas extremas dos rios, no sumiço de espécies que só existiam ali. É o tipo de dado que faz a gente parar e pensar: será que estamos empurrando a floresta para um ponto de colapso do qual ela não consegue mais voltar?

Os cientistas vêm alertando há anos que, se perdermos entre 20% e 25% da cobertura florestal da Amazônia, o bioma pode entrar em um processo irreversível de savanização. Hoje, segundo o MapBiomas, já perdemos 13%. Parece pouco? Não é. É o tipo de número que acende luz vermelha.
Bruno Ferreira, pesquisador do MapBiomas, explica que “a Amazônia brasileira está se aproximando da faixa crítica de 20% a 25% prevista pela ciência como o ponto de não retorno”. E já dá para ver sinais concretos disso: áreas que antes eram úmidas estão secando, rios que eram perenes ficam temporários, e a floresta começa a liberar mais carbono do que absorve em algumas regiões.
É como se estivéssemos assistindo, em câmera lenta, ao pulmão do mundo perdendo a capacidade de respirar.
Quando se fala em desmatamento, muita gente pensa em soja como a grande vilã. Mas os números mostram uma história mais complexa. Nas últimas quatro décadas, a expansão de pastagens foi o maior motor da perda de floresta, com um avanço de 43,8 milhões de hectares. A pecuária é de longe a atividade que mais ocupa espaço na Amazônia.

Depois de 2008, com a assinatura da Moratória da Soja, a conversão direta de florestas para plantações caiu 68%. Hoje, 74% da soja plantada na Amazônia ocupa áreas que antes eram pastagens ou agricultura, e não floresta.
Mas outros vetores vêm crescendo silenciosamente. A área de mineração, por exemplo, passou de 26 mil hectares em 1985 para 444 mil hectares em 2024. É um aumento de quase 17 vezes — e a pressão do garimpo ilegal sobre terras indígenas e unidades de conservação é cada vez maior.
Quando olhamos para o mapa, Rondônia se destaca como um dos epicentros dessa transformação. Em 1985, apenas 7% do território do estado era ocupado por pastagens. Hoje, esse número chega a 37%. Rondônia tem hoje a menor proporção de vegetação nativa da Amazônia: apenas 60%.
E não é só Rondônia. A região conhecida como AMACRO (Acre, Amazonas e Rondônia) concentrou 14% da perda líquida de vegetação nativa nos últimos 40 anos. Só na última década, foram 2,7 milhões de hectares convertidos.
Esses números revelam que o desmatamento não está apenas no passado — ele continua vivo, empurrando a floresta para a beira do abismo.

Nem tudo é perda. Há também sinais de regeneração. Cerca de 2% da vegetação da Amazônia já é considerada secundária, ou seja, áreas que foram desmatadas e estão se recuperando. São 6,9 milhões de hectares de floresta que voltaram a crescer.
Mas é preciso lembrar: regenerar leva tempo — décadas, às vezes séculos. E se o desmatamento continuar avançando mais rápido do que a capacidade da floresta de se recuperar, esse saldo nunca será positivo.
O dado mais preocupante é que 88% do desmatamento em 2024 aconteceu em vegetação primária — florestas intactas, que nunca tinham sido derrubadas antes. Ou seja, ainda estamos atacando o coração do bioma.
Não dá para olhar esses números e achar que é um problema distante. O que acontece na Amazônia afeta a agricultura no Centro-Oeste, a produção de energia nas hidrelétricas, o regime de chuvas do Sudeste e até o clima global.
Precisamos de:
A boa notícia é que sabemos o caminho. O Brasil já reduziu o desmatamento em mais de 80% no passado (entre 2004 e 2012). Podemos fazer de novo — mas é preciso vontade política, pressão social e colaboração entre governos, empresas e comunidades locais.
Clique aqui para acessar os destaques do Mapeamento Anual
de Cobertura e Uso da Terra BIOMA AMAZÔNIA (Coleção 10).
*Com informações do MAPBIOMAS e Aviv Comunicação.
O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é
O Brasil aprovou a sua própria bomba-relógio ambiental
Terras raras: entre Washington, Pequim e Brasília, quem controla o futuro