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Escrito por Neo Mondo | 5 de novembro de 2025
Liderança climática verdadeira não se mede apenas por discursos em plenárias internacionais, mas pela capacidade de implementar políticas concretas em casa - Foto: Ilustrativa/Freepik
Por - Pedro Plastino, articulista de Neo Mondo, direto da COP30
A COP30, que será realizada em Belém, marca um momento histórico para o Brasil e para o próprio sistema multilateral do clima. Pela primeira vez, o país sediará a conferência com uma legislação que estabelece as bases do seu mercado regulado de carbono. É a oportunidade de mostrar ao mundo que o Brasil não apenas lidera o discurso global sobre a transição climática, mas também faz o dever de casa, construindo um mercado doméstico sólido, transparente e alinhado aos mais altos padrões internacionais.
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Nos últimos anos, as COPs se tornaram palcos de negociações complexas sobre fundos climáticos globais, metas de mitigação e responsabilidades compartilhadas. Mas a verdadeira liderança se demonstra na prática dentro de casa. O Brasil tem agora a chance de dar o exemplo ao mundo mostrando como um país em desenvolvimento pode estruturar um sistema nacional de precificação de carbono com regras claras, cronograma definido e governança robusta.
Enquanto muitos países ainda discutem frameworks, o Brasil pode mostrar execução. A nova lei que regulamenta o mercado brasileiro de carbono representa o passo mais concreto rumo a uma economia de baixo carbono. Ela cria as condições para precificar emissões, dar previsibilidade a investimentos e integrar o mercado regulado ao voluntário, conectando compromissos empresariais domésticos com o fluxo global de capital climático.
O desafio, agora, está em detalhar as regras infralegais, definir a governança do sistema e garantir a integridade ambiental, social e financeira dos créditos emitidos. Essa é a base para que o mercado funcione com credibilidade e confiança — tanto para investidores locais quanto para players internacionais.
Empresas de todos os setores precisarão se adaptar rapidamente. Aquelas que já possuem inventários de emissões robustos, planos de descarbonização e governança climática sólida sairão na frente. O preço do carbono deixará de ser um tema restrito à sustentabilidade e passará a influenciar decisões financeiras, contratos, margens e competitividade internacional.
A COP30 deve funcionar como vitrine e catalisador desse processo. É o momento de o Brasil demonstrar coerência entre discurso e prática, mostrando ao mundo que está fazendo internamente aquilo que cobra nas negociações globais. Detalhar como funcionará o sistema de comércio de emissões (ETS), quais setores serão incluídos e como se dará a transição para uma economia de baixo carbono sem comprometer o crescimento será essencial.
A integração com o mercado voluntário, a interoperabilidade entre registros nacionais e internacionais e o uso de metodologias reconhecidas globalmente serão pontos-chave para atrair investimentos e consolidar a credibilidade do sistema.
A regulamentação também abre um campo fértil para inovação financeira e tecnológica. Fundos, bancos e plataformas já se movimentam para estruturar produtos atrelados a créditos de carbono com rastreabilidade digital, métricas de integridade e liquidez. Trata-se do início de um novo ciclo econômico, que une sustentabilidade, transparência e retorno financeiro.
A COP30 de Belém tem tudo para ser lembrada como a conferência da implementação. Mais do que novas promessas, o que o mundo espera do Brasil é clareza regulatória, segurança jurídica e compromisso com resultados. Se conseguir entregar um modelo de mercado de carbono sólido, transparente e previsível, o país pode consolidar-se como referência global e transformar seu ativo ambiental em uma nova fronteira de desenvolvimento econômico e social.
Pedro Plastino - Especialista em negócios climáticos e crédito de carbono, cofundador da Future Carbon e um dos nomes de referência no setor. Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, construiu carreira nos mercados de carbono e financeiro, tendo liderado a área de créditos de carbono e negociações estratégicas na Future Climate Group, além de atuar em frentes como Equity, DCM e Asset Management. Foi Head de M&A na Potenza Capital, boutique afiliada ao BTG Pactual, e recentemente participou do Leadership Development Program da Harvard Business School, onde foi o único executivo de clima convidado mundialmente.

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