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Desmatamento explica 75% da perda de chuvas na Amazônia, diz estudo

Escrito por Neo Mondo | 22 de setembro de 2025

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A estação seca na Amazônia ocorre entre julho e novembro, mas pode variar de região para região – Foto: Greenpeace/Brasil de Fato/Flickr

Por - Amanda Nascimento, do Jornal da USP / Neo Mondo

Pela primeira vez, pesquisadores quantificam papel do desflorestamento na transformação climática que ocorre no bioma durante a estação seca

A maior floresta tropical do mundo está mais quente e menos chuvosa.
De acordo com um estudo publicado na Nature Communications, o principal agente por trás dessas transformações é o desmatamento. Os resultados indicam que aproximadamente 75% da redução das chuvas e 16,5% do aumento da temperatura do ar próximo à superfície da Floresta Amazônica estão ligados à perda de cobertura florestal.

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Entre 1985 e 2020, o bioma deixou de receber 21 milímetros de chuva por estação seca — valor que representa uma redução de cerca de 8% do volume do período. Caso as taxas persistam, a previsão é que, em 2035, a região amazônica apresente um aumento total de 2,64 °C na temperatura e uma redução de precipitação de 28,3 milímetros por estação seca em comparação a 1985.

“Esses valores começam a se aproximar do ponto de não retorno”, alerta Luiz Machado, pesquisador visitante do Instituto de Física (IF) da USP e coordenador do estudo. “Esse ponto é complexo de definir, porque ele não depende apenas do clima, mas também da vegetação. E a vegetação mais sensível à falta d’água pode, sim, desaparecer.”

“O que observamos é que os efeitos de redução de precipitação e aumento de temperatura são muito evidentes na estação seca”, diz Marco Franco, um dos autores da pesquisa e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Ele explica: “Sempre choveu na Amazônia. Mas, ao longo dos últimos anos, têm ocorrido secas muito intensas, o que desencadeia uma série de impactos no bioma, como as queimadas”.

Franco lembra que esses efeitos não se restringem à Amazônia. A redução de chuvas na estação seca também compromete o Cerrado e o Pantanal, que dependem da umidade transportada pelos “rios voadores” — responsáveis por parte significativa das chuvas nessas regiões. Segundo ele, a diminuição desse fluxo pode comprometer a agricultura, inclusive a produção da safrinha, que ocorre após a colheita da safra principal.

A pesquisa ainda aponta que o clima amazônico responde ao desmatamento de forma não linear, já que o impacto é mais intenso nos primeiros 10% a 40% de área desmatada. Para Franco, o cenário reforça a urgência da preservação do bioma: “Isso significa que é fundamental preservar o bioma, porque, se você não preserva, ele sentirá o desequilíbrio”.

Nas últimas décadas, a combinação do aumento da temperatura global devido às emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento alterou os ciclos hídricos, de carbono e de energia da Amazônia. Até então, pesquisas não haviam quantificado esses fatores e seus papéis relativos na transformação da floresta.

Chegando aos resultados

Os autores recorreram a 35 anos de dados do MapBiomas, entre 1985 e 2020, para identificar as transformações no uso da terra na Amazônia Legal. A área em análise foi dividida em 29 blocos de 300 por 300 quilômetros, e os pesquisadores cruzaram informações de cobertura florestal com dados de temperatura, precipitação e gases de efeito estufa obtidos por satélites e reanálises.

“Através do sensoriamento remoto, pegamos dados de precipitação, metano, dióxido de carbono e temperatura máxima próxima à superfície, porque, caso contrário, seria impossível observar a Amazônia de forma integrada”, explica Franco. Ele destaca que a temperatura máxima foi escolhida por ser o parâmetro em que os efeitos da perda de vegetação são mais intensos.

Com essas informações, os pesquisadores desenvolveram uma equação paramétrica que relaciona os efeitos das emissões de gases ao desmatamento. Assim, quantificaram quanto do aquecimento e da seca se deve às emissões globais e quanto é resultado direto do desflorestamento: 75% da redução das chuvas está diretamente ligada ao desmatamento, enquanto o restante é atribuído às emissões de gases. No aumento de 2 °C na temperatura, 0,4 °C são resultado da perda de cobertura vegetal.

foto mostra gráfico do desmatamento na amazônia
Contribuição das mudanças climáticas globais e do desmatamento para as variações de metano, dióxido de carbono, temperatura máxima da superfície e precipitação durante a estação seca – Imagem: Reprodução/Nature Communications
Futuro da Amazônia

Embora o aquecimento global explique a maior parte da elevação das temperaturas na região, os 0,4 °C adicionados pelo desmatamento são significativos. “Parece pouco, mas não é”, aponta Franco. O professor enfatiza que os extremos de calor e a redução das chuvas se acentuam nas áreas mais desmatadas, amplificando eventos climáticos extremos em escala local e regional.

Caso o desmatamento continue avançando, a Amazônia pode migrar para um regime climático semelhante ao do Cerrado, com estações secas mais longas e maior contraste com o período chuvoso.

“Essas tendências de desflorestamento e aumento da temperatura estão levando a Amazônia a ter um ciclo sazonal cada vez mais marcado. Mas a resposta da vegetação pode ser diferente, não se sabe como ela vai reagir a isso. Em regiões onde a vegetação é mais resiliente, pode haver uma redução da altura das árvores”, acrescenta Luiz Machado.

Para Franco, esses dados são cruciais, agora que a Amazônia está no centro do debate internacional: “Este é o ano da COP30, em Belém”, ressalta. “Os números que apresentamos precisam servir de guia para os tomadores de decisão. É fundamental proteger e reflorestar o bioma, porque os efeitos são muito drásticos quando se remove a cobertura vegetal. E, quando cada país sentar à mesa de negociação, todos terão de saber a conta que lhes cabe pagar.”

O artigo How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest pode ser acessado [neste link].

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