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Escrito por Neo Mondo | 13 de outubro de 2025
O mundo chega à Pré-COP em Brasília com mais perguntas do que respostas - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Com apenas 59 países apresentando novas metas climáticas até a Assembleia da ONU, a Pré-COP em Brasília começa cercada por desconfiança e expectativa. O Brasil tenta costurar um consenso global num cenário de promessas quebradas, ambições tímidas e uma urgência que já passou do limite
Confesso: cada vez que chega uma nova “Pré-COP”, sinto uma mistura de esperança e cansaço. Esperança, porque o mundo parece finalmente reconhecer que não dá mais pra empurrar a crise climática com o vento das boas intenções. E cansaço, porque as manchetes continuam parecidas demais — metas insuficientes, acordos frágeis, discursos inspiradores que evaporam quando a cúpula termina. Agora, com a Pré-COP em Brasília, o déjà vu ganha endereço brasileiro.
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Com apenas 59 países apresentando novas metas climáticas até a última Assembleia da ONU, o planeta chega a Brasília com mais dúvidas do que direção. E não é exagero. Essa é a última grande parada antes da COP30 em Belém, onde o Brasil promete “fazer história”. O problema é que a história recente das COPs anda mais pra tragicomédia do que pra epopeia: metas frouxas, fundos climáticos que não chegam e líderes que falam bonito — mas voltam pra casa com as mãos vazias.
O encontro em Brasília, realizado no Centro Internacional de Convenções, reúne ministros e chefes de delegações. Não se trata de decidir nada formal ainda — é uma espécie de ensaio geral antes da COP —, mas todo mundo sabe que esse é o momento de colocar as cartas na mesa.
E as cartas, por enquanto, não estão boas. As negociações anteriores em Bonn foram um fiasco, e a atualização das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) ficou aquém do que a ciência exige. O financiamento climático, aquele velho calcanhar de Aquiles, continua emperrado. Promessas de trilhões de dólares feitas pelos países ricos seguem no campo da ficção.
O mundo parece estar num ponto de inflexão: ou Brasília acende um farol de convergência — um sinal de que o multilateralismo ainda respira —, ou chegaremos a Belém com um salão cheio de discursos e pouquíssima substância.
Mas há um contraponto que me impede de cair no puro cinismo. A economia real — aquela que não espera decreto político pra se mover — está, de fato, mudando de rumo. A Agência Internacional de Energia (IEA) divulgou números impressionantes: entre 2011 e 2023, o avanço das renováveis poupou ao mundo US$ 1,3 trilhão em importações de combustíveis fósseis.
Hoje, 107 países já reduziram a dependência de carvão, gás e petróleo pra gerar eletricidade. Isso é gigantesco. A transição energética não é mais “agenda verde”; é estratégia econômica — racional, competitiva e, no longo prazo, mais barata.
Só que ainda falta fôlego. O planeta precisa instalar 400 GW a mais por ano de capacidade renovável pra chegar perto da meta de triplicar até 2030. No ritmo atual, só chegaremos a 2,6 vezes o nível de 2022. E mesmo com todo esse avanço, há um gargalo estrutural: as redes elétricas. São antigas, saturadas e incapazes de armazenar energia limpa em larga escala.
O Brasil, por exemplo, desperdiça cerca de 15% da geração solar e eólica por ano — um prejuízo de mais de R$ 1,6 bilhão em 2024, segundo o ONS. Isso é o tipo de paradoxo que a transição ainda precisa resolver: produzimos energia limpa, mas não conseguimos usá-la plenamente.
E é aqui que o Brasil entra em cena — não só como anfitrião da Pré-COP, mas como ponte entre o Norte e o Sul globais. Temos autoridade moral pra isso: foi aqui, no Rio de Janeiro, há 33 anos, que nasceram as três grandes convenções da ONU — Clima, Biodiversidade e Desertificação.
Agora, o desafio é outro. Precisamos mostrar que a agenda climática pode ser agenda de desenvolvimento. Que dá pra crescer, incluir e descarbonizar ao mesmo tempo. Que é possível fazer política com base na ciência, não em slogans.
Mas o Brasil também precisa entregar coerência. Não dá pra defender uma “transição justa” lá fora e flexibilizar o licenciamento ambiental ou o desmatamento aqui dentro. O mundo está de olho, e a COP30 em Belém será um espelho dessa coerência — ou da falta dela.
Entre Brasília e Belém, temos poucas semanas pra amarrar o “Pacote Climático de Belém” — um conjunto de acordos que precisa unir ambição e viabilidade, adaptação e financiamento, política e ciência. É hora de reconectar o discurso com a realidade.

Não é fácil ser otimista nesse campo. Mas também não dá pra desistir. O que me move é esse “otimismo fundamentado” que a própria IEA reconhece: o avanço das renováveis vem superando suas próprias previsões ano após ano. Isso mostra que há uma força transformadora em curso — mais poderosa que a inércia dos velhos combustíveis.
Se o mundo conseguir manter esse ritmo, a virada energética pode acontecer antes de 2030. Mas não por milagre, e sim por decisão. A Pré-COP em Brasília pode ser esse ponto de virada simbólico — se, em vez de discursos, entregar sinais de coragem política.
No fim das contas, talvez o grande desafio da nossa geração não seja inventar soluções novas, mas ter a coragem de aplicar as que já temos.
E enquanto os líderes discutem o futuro em Brasília, a pergunta que não cala é: quem vai, de fato, apertar o botão da mudança?
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