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Escrito por Neo Mondo | 25 de setembro de 2025
Lula e Guterres defendem a entrega das NDCs junto a 120 países, na Cúpula do Clima, em Nova York - Foto: Ricardo Stuckert / PR
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
Uma convocação global para ação climática — com a Amazônia no centro da cena
Durante a 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançaram um chamado direto ao mundo: a entrega das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) até setembro é a linha divisória entre o progresso climático e o colapso anunciado. Em um discurso repleto de simbolismo, Lula reforçou que a COP30 será “a COP da verdade” e anunciou um investimento histórico de US$ 1 bilhão no Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) — um marco para financiar a conservação das florestas tropicais e inspirar o planeta a seguir o exemplo.
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António Guterres não poupou palavras: “O Acordo de Paris fez diferença. Nos últimos dez anos, o aumento projetado da temperatura caiu de 4°C para menos de 3°C — se as NDCs forem implementadas”. Mas a mensagem foi clara: ainda não é suficiente.
O mundo precisa de planos mais ousados até 2035, cobrindo todas as emissões, em todos os setores, acelerando uma transição energética justa, que leve em conta países em diferentes estágios de desenvolvimento.
Essa urgência ganha ainda mais peso quando lembramos que 2024 foi o ano mais quente da história. O planeta está pedindo socorro — e, se não houver ação concreta, passaremos da fase de promessas para a era das consequências irreversíveis.
Lula foi direto: “Sem o conjunto das NDCs, o planeta caminha no escuro.” Ao declarar que apresentar as NDCs não é opcional, o presidente reforçou o papel do Brasil como articulador de um novo multilateralismo climático.
O país foi o segundo no mundo a entregar sua nova NDC, comprometendo-se a reduzir entre 59% e 67% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 e zerar o desmatamento no mesmo período. Não é apenas discurso: o Brasil já cortou pela metade o desmatamento na Amazônia nos últimos dois anos, um feito que ressoa globalmente.
Lula também fez um apelo aos países que ainda não apresentaram seus planos: “Vamos juntos fazer da Amazônia o palco de um momento decisivo na história do multilateralismo.”

O anúncio de US$ 1 bilhão no TFFF foi o ponto alto da semana. O fundo cria um modelo inovador de financiamento para conservação, remunerando países que mantêm suas florestas de pé — algo que, historicamente, nunca foi pago de forma justa.
A meta é clara: manter o desmatamento abaixo de 0,5%, com monitoramento via satélite, garantindo transparência e impacto real. Além disso, 20% dos recursos serão destinados a povos indígenas e comunidades tradicionais, reconhecendo o papel fundamental dessas populações na proteção dos biomas.
Lula foi enfático: “Direcionar parte dos recursos aos povos indígenas é garantir meios de vida dignos a quem sempre cuidou das nossas florestas.”
Com esse mecanismo, cada país poderá receber até US$ 4 por hectare conservado, criando um incentivo econômico poderoso para preservar um patrimônio que beneficia toda a humanidade.
Belém, no Pará, será o palco dessa virada de chave em novembro. Lula chamou a COP30 de “COP da verdade” porque será o momento de medir compromissos na prática — e não apenas anunciar metas em discursos.
A presença de mais de 70 países com florestas tropicais, junto ao engajamento de grandes potências como China e União Europeia, que anunciaram novas metas ambiciosas de redução de emissões, torna esta conferência um divisor de águas.
Se as NDCs forem entregues e implementadas, o mundo ainda tem chance de limitar o aquecimento a 1,5°C. Se não, estaremos empurrando o planeta para um futuro de crises cada vez mais graves — de secas prolongadas a migrações forçadas.
Mais do que uma reunião de líderes, a COP30 representa um pacto de civilização. É um convite para que governos, empresas e sociedade civil deixem de lado interesses de curto prazo e assumam um compromisso real com a vida na Terra.
Como bem disse Lula, “muros não vão conter secas, nem tempestades. A natureza não se curva a bombas nem a navios de guerra.” Essa frase ecoa como um lembrete de que o clima é um bem comum e que a ação coletiva é a única saída.
A sensação é de que estamos às portas de uma encruzilhada histórica. A Amazônia — coração pulsante do planeta — será o termômetro que dirá se ainda somos capazes de escolher o caminho da regeneração.
“Em Belém, não será apenas a COP da verdade — será o momento em que decidiremos se o futuro será escrito à luz da ciência ou no escuro da omissão.”
*Com informações
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