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Escrito por Neo Mondo | 9 de setembro de 2025
Apesar de um esvaziamento perceptível em relação a anos anteriores, o Brasil emerge como protagonista em um cenário global desafiador - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
ARTIGO
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Por - Pedro Plastino, articulista de Neo Mondo
Pela terceira vez consecutiva, confirmo minha presença na New York Climate Week (NYCW), em Nova York, um dos fóruns mais importantes do mundo sobre clima e sustentabilidade. E, mais uma vez, levo comigo percepções que considero cruciais sobre o momento que estamos vivendo.
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Nos bastidores, percebe-se um certo esvaziamento em relação a edições anteriores. Ainda não há um diagnóstico fechado, mas a hipótese mais plausível — sobre a qual quase todos concordam — é que as tensões geopolíticas globais, sobretudo as disputas comerciais e tarifárias, e seus impactos na cadeia de suprimentos, estão dominando a primeira e a segunda páginas das corporações. O resultado é que, em muitos casos, a pauta climática e de sustentabilidade tem sido empurrada para planos secundários, quando deveria permanecer no centro das atenções.
Esse cenário, no entanto, abre espaço para um contraponto poderoso: o Brasil. Sempre digo que nosso país é a “Arábia Saudita dos créditos de carbono” quando olhamos pela ótica da oferta, graças aos nossos ativos naturais e ao potencial incomparável de geração de créditos de alta integridade. Mas o movimento mais surpreendente — e impensável há três ou cinco anos — é que o Brasil também começa a se destacar do lado da demanda. Empresas brasileiras estão se aquecendo e se tornando compradoras relevantes de créditos de carbono.
Com isso, as fontes de financiamento locais também se movimentam. O sistema financeiro nacional, capitaneado pelo BNDES e seguido por outros bancos e investidores, está se posicionando como protagonista, criando instrumentos e viabilizando recursos para sustentar essa nova fase. É uma mudança estrutural que coloca o Brasil não apenas como exportador, mas também como um dos polos mais promissores do mercado global de carbono.
Outro ponto essencial: com o setor empresarial internacional demonstrando menor intensidade no tema climático, os governos voltam a ganhar força. Isso se reflete no avanço das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), que dão aos países um papel central na definição de políticas, regulações e alinhamentos internacionais. E, mais uma vez, o Brasil tem a oportunidade de assumir a liderança dessa agenda, usando sua experiência e seus ativos naturais para ancorar compromissos globais mais ambiciosos.
Além disso, é impossível falar em protagonismo climático sem mencionar o carbono azul. O Brasil abriga o maior manguezal contínuo do planeta, localizado na costa amazônica — um ativo natural de valor inestimável. Para destravar essa agenda, será necessário empenho político, técnico e institucional, já que, em muitos casos, são comunidades tradicionais, residentes em Reservas Extrativistas (RESEX), que vivem e dependem diretamente desses ecossistemas. São justamente essas populações que podem liderar o processo de proteção e geração de créditos, transformando o potencial do carbono azul em receitas capazes de financiar a conservação e, ao mesmo tempo, ajudar a quitar o enorme passivo social que o Brasil ainda tem com elas.
Em resumo, ainda que a NYCW deste ano pareça menos intensa e conte com menor engajamento dos países centrais, há um movimento claro: o Brasil nunca esteve tão bem posicionado para liderar a transição climática global — tanto como fornecedor de créditos de carbono, quanto como demandante ativo e hub financeiro em ascensão — e, agora, como protagonista também na agenda do carbono azul.
Pedro Plastino - Especialista em negócios climáticos e crédito de carbono, cofundador da Future Carbon e um dos nomes de referência no setor. Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, construiu carreira nos mercados de carbono e financeiro, tendo liderado a área de créditos de carbono e negociações estratégicas na Future Climate Group, além de atuar em frentes como Equity, DCM e Asset Management. Foi Head de M&A na Potenza Capital, boutique afiliada ao BTG Pactual, e recentemente participou do Leadership Development Program da Harvard Business School, onde foi o único executivo de clima convidado mundialmente.

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