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Escrito por Neo Mondo | 20 de julho de 2025
Quando uma árvore esquecida ressurge, é a floresta inteira que fala - Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Redescoberta do pau-cravo emociona cientistas e revela o poder da conservação em resgatar memórias vivas da Amazônia
Por décadas, o pau-cravo viveu como um sussurro entre as copas das árvores e as histórias contadas pelos mais antigos. Uma lenda botânica embebida no aroma da floresta e na saudade de um tempo em que a natureza era presença e não ausência. Dicypellium caryophyllaceum — nome que soa como verso científico — havia desaparecido dos registros oficiais há mais de 40 anos. Agora, renasce na mata, reencontrado em um dos corações pulsantes da Amazônia: a área de influência da Usina Hidrelétrica Belo Monte.
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Com seus 30 metros de altura e perfume inconfundível, o pau-cravo — também conhecido como cravo-do-Maranhão ou canela-cravo — foi, desde o século XVIII, vítima de sua própria exuberância. Desejado por seu valor como especiaria e por sua madeira de lei, era abatido em cortes letais para extração da casca aromática. A exploração insustentável dizimou populações inteiras, empurrando a espécie para o esquecimento, como tantas outras riquezas sacrificadas no altar do progresso colonial.
Mas a floresta, como a memória, resiste. Em 2008, durante os Estudos de Impacto Ambiental para a construção da usina, técnicos da Norte Energia localizaram os primeiros vestígios do pau-cravo. A descoberta deu início a uma jornada silenciosa, paciente e persistente. Trinta árvores matrizes foram identificadas e protegidas. Onze plantas, resgatadas de áreas de supressão vegetal, foram transplantadas para Áreas de Preservação Permanente (APP). E em 2024, mais de 150 novas mudas nasceram em viveiro próprio, como promessas verdes de um novo ciclo.

“Estamos falando de uma espécie com importância ecológica, cultural e histórica”, afirma Roberto Silva, gerente de Meios Físico e Biótico da Norte Energia. “Ao cuidar da flora, reforçamos nosso compromisso com a biodiversidade da Amazônia e com a memória viva da floresta.”
O reconhecimento do valor do pau-cravo vai além dos limites da botânica. A espécie consta na Lista Nacional da Flora Ameaçada de Extinção, publicada pelo Ibama em 2008. E estudos recentes do CNCFlora, coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, reafirmam seu estado crítico. Endêmica do Brasil, só floresce em raros refúgios: nos municípios de Itaituba e Vitória do Xingu, no Pará, e em Buriticupu, no Maranhão.
As ações de conservação seguem. Monitoramento das árvores-mãe, novas coletas de sementes, produção de mudas e plantios em APPs fazem parte de um legado em construção — uma herança verde que também alimenta a ciência e a educação. Os dados gerados já embasaram dissertações, artigos e teses de doutorado. A floresta, aos poucos, volta a falar — e a ensinar.
Lindomar da Silva Lima, identificador botânico que atua na região desde 2011, foi um dos protagonistas dessa história. E emociona ao relembrar:
“Quando a gente encontrou o pau-cravo, foi uma alegria muito grande. Era uma planta que ninguém mais conhecia, só os antigos falavam. Fico muito feliz de ter participado disso. Eu ajudei, apoiei, e vou contar essa história para meus filhos, meus netos, para eles já crescerem sabendo preservar.”
O retorno do pau-cravo à floresta não é apenas um caso técnico de conservação. É um reencontro com o tempo. Um lembrete de que preservar é mais do que proteger a biodiversidade: é honrar a história, dar voz ao silêncio da mata, e cultivar o futuro com as raízes do passado.
Na Amazônia, onde cada árvore carrega uma história e cada semente um destino, o pau-cravo voltou a florescer. E com ele, floresce também a esperança de que a floresta ainda pode ser guardiã de si mesma — se houver mãos dispostas a ouvir, cuidar e aprender com seu perfume antigo e sábio.
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