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Ouro negro, floresta verde: a contradição perfurada na Foz do Amazonas

Escrito por Neo Mondo | 21 de outubro de 2025

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O país que sonha em liderar a transição climática acaba de cravar mais fundo o símbolo de sua contradição - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP30 na Amazônia e discursar sobre descarbonização, a Petrobras recebe do Ibama a licença para perfurar um poço de petróleo no coração da mesma região. É o país do futuro — cavando o passado

Confesso: quando li a manchete “Petrobras obtém licença do Ibama para perfurar na Foz do Amazonas”, senti uma mistura de incredulidade e déjà-vu. É como se o Brasil tivesse decidido rodar, de novo, aquele velho filme em que o vilão veste terno verde, fala em transição energética — e, ao fim, abre mais um poço de petróleo.
E o roteiro, claro, continua sendo vendido como “desenvolvimento”.

Leia também: A farsa da “liderança verde”: quando o petróleo veste roupagem de bambu

Leia também: Petróleo na Foz do Amazonas: contradição climática às vésperas da COP30

Mas o timing, ah, o timing! Às vésperas da COP30, a primeira conferência do clima realizada na Amazônia, o governo autoriza a exploração de combustíveis fósseis justamente lá — na beira do maior bioma do planeta. É quase poético, se não fosse trágico.

Um poço de contradições

A Bacia da Foz do Amazonas, ou a chamada margem equatorial, é uma das áreas mais sensíveis do Atlântico. Manguezais, recifes, peixes-boi, comunidades indígenas e quilombolas convivem num ecossistema que mais parece uma aula viva de equilíbrio natural.
E é ali que a Petrobras quer perfurar — “só pra ver se tem óleo”, dizem. Como quem acende um fósforo pra entender se o barril de pólvora realmente explode.

O Ibama, que antes havia negado a licença por falhas no plano e riscos elevados, agora mudou de ideia. Em uma única reunião, as pendências sumiram, os simulados de vazamento foram aceitos e a autorização saiu.
A nota oficial fala em “exigências adicionais”. Eu chamaria de “exigências convenientemente resolvidas”.

O país que fala verde, mas age preto

É difícil não ver ironia aqui. Um governo que quer liderar a transição climática global decide abrir poço de petróleo na Amazônia.
Enquanto o mundo cobra redução dos combustíveis fósseis, nós respondemos com um sonoro “vamos extrair só mais um pouquinho”.

O Observatório do Clima chamou o episódio de “dupla sabotagem”: contra a humanidade e contra a própria COP. E eu não poderia definir melhor. Porque, de um lado, o Brasil aposta em mais emissões — e, de outro, queima sua credibilidade internacional, logo antes de sediar o evento que deveria simbolizar o oposto.

Técnicos do próprio Ibama — quase trinta deles — recomendaram negar a licença. Mas a presidência do órgão seguiu adiante. Parece que, no Brasil, ciência ainda é opcional quando o petróleo entra na conversa.

Os riscos que (quase) ninguém quer ver

Vamos listar o que está em jogo:

  • Risco ambiental: um vazamento na região seria um desastre sem manual. Correntes fortes, acesso difícil, fauna única.
  • Risco climático: o mundo pede menos carbono, o Brasil responde com mais perfuração.
  • Risco político: o discurso de “liderança climática” pode afundar junto com o poço.
  • Risco social: povos indígenas e quilombolas relatam não terem sido consultados, como exige a Convenção 169 da OIT.
  • Risco econômico: o preço do barril despenca pós-2030 — e o país insiste em investir num recurso que o mundo inteiro tenta abandonar.

É o tipo de aposta que cheira mais a desespero político do que a visão estratégica.
E no meio de tudo isso, o peixe-boi marinho, ameaçado de extinção, nada silenciosamente, sem saber que sua casa agora virou fronteira de risco.

foto de 3 peixes-boi, remete a matéria Ouro negro, floresta verde: a contradição perfurada na Foz do Amazonas
A situação do peixe-boi marinho, ameaçado de extinção, piorou com a licença do Ibama para a Petrobras perfurar na Foz do Amazonas - Foto: Divulgação
O país do futuro cavando o passado

Eu, pessoalmente, fico com a sensação de estar vendo o Brasil tropeçar na própria contradição. Queremos ser o farol verde da transição, mas seguimos com os pés atolados no piche.
É como dizer: “Sim, o planeta está pegando fogo — mas calma, vamos buscar mais combustível pra pensar no assunto.”

Há algo de profundamente simbólico — e cínico — nessa coincidência. A COP30, que prometia ser a “COP da Implementação”, pode começar já manchada de petróleo.
E a liderança climática que o país tanto almejava talvez precise de um bom banho de óleo desengordurante antes de subir ao palco.

E agora, Brasil?

O fato é que essa licença abre um precedente perigoso.
Hoje é a Foz do Amazonas. Amanhã, quem sabe, o Tapajós, o Xingu, o litoral do Pará.
A linha entre “exploração pontual” e “liberação geral” é mais fina do que uma película de óleo sobre a água.

Enquanto isso, organizações ambientais já anunciam ações judiciais.
A comunidade científica reage.
E a opinião pública, cansada de contradições, começa a perguntar: afinal, de que lado o Brasil está?
Do lado do futuro — ou do lado do barril?

O poço não é no mar — é dentro de nós

No fim das contas, o problema não é só o petróleo. É a insistência em achar que progresso é sinônimo de perfuração.
É acreditar que dá pra discursar sobre sustentabilidade com as mãos sujas de óleo.

A Amazônia, mais do que um bioma, é um espelho.
E o que o Brasil escolhe refletir agora será lembrado na COP30 — e na história.

O futuro está batendo à porta, mas a gente parece ocupado demais… perfurando o chão.

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