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Sem renda previsível, não há conservação na Amazônia

Escrito por Neo Mondo | 24 de fevereiro de 2026

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Renda digna começa quando produção, território e mercado finalmente se conectam na Amazônia - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

ARTIGO

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Por - Marcelo Cwerner, especial para Neo Mondo

Na Amazônia, abundância natural ainda convive com insegurança alimentar. Em Tomé-Açu, onde a terra é fértil e os saberes são ancestrais, muitas famílias seguem sem garantia de renda. O problema não é falta de produção, é falta de organização territorial.

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O Projeto Amana nasceu dessa constatação. A partir de escutas com lideranças e agricultores, ficou claro que o território era potente, mas fragmentado: produção sem mercado, políticas públicas sem agricultores, escolas sem alimentos locais, cooperativas sem logística, agricultores sem documentação. Não faltavam soluções, faltava - e ainda falta - articulação.

Organizar o território passou a ser a nossa estratégia central: fortalecer cooperativas, ajudar a destravar a emissão de documentos, ativar compras públicas, conectar produção local às escolas, estruturar logística e governança. O objetivo não é produzir mais, mas estruturar melhor. Porque as economias não falham por falta de esforço; falham por falta de operação de um sistema.

Quando uma agricultora sabe para quem vai vender, quanto vai receber e quando o dinheiro chega, tudo muda. Ela investe no solo, diversifica cultivos, cuida melhor da terra, mantém os filhos na escola, permanece no território. A renda digna reorganiza não só a economia, mas o tempo, o planejamento e o futuro dessas famílias.

É assim que a insegurança alimentar começa a ser enfrentada de forma estrutural, não como emergência. A articulação com mercados institucionais, como a alimentação escolar, cria circuitos econômicos locais em que produção, consumo público e renda familiar se reforçam mutuamente.

A floresta só permanece viva se quem vive dela prosperar. Sem renda digna, não há conservação possível. Sem previsibilidade, não há investimento em sistemas agroflorestais. Sem organização territorial, não há escala sustentável.

A Amazônia não precisa de mais diagnósticos. Precisa de articulação. Porque não faltam recursos. Não faltam soluções. Falta estrutura para que aquilo que já existe funcione. E isso muda tudo.

*Marcelo Cwerner é economista e foi cofundador do Instituto Aquífero, em Alter do Chão (PA). Atuou por 12 anos no mercado financeiro, tornando-se sócio da KPMG Corporate Finance. Na Amazônia, fundou negócios de ecoturismo e iniciativas socioambientais ligadas a resíduos e conservação. Com passagens pela NESsT Brasil, Conexsus e Amazon Investor Coalition, atualmente, é Coordenador-líder do Projeto Amana.

foto de marcelo cwerner, autor do artigo Sem renda previsível, não há conservação na Amazônia
Marcelo Cwerner - Foto: Divulgação

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