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Escrito por Neo Mondo | 22 de dezembro de 2025
Sem governança, não há transição energética - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Em entrevista ao Neo Mondo, Camila Gualda Araujo, vice-presidente da AXIA Energia, detalha como governança, inovação climática, biodiversidade e segurança hídrica estruturam a estratégia da empresa rumo ao Net Zero e a transição energética até 2030
Em um momento em que o debate sobre transição energética deixa de ser apenas técnico para se tornar ético, territorial e civilizatório, falar de energia é falar de escolhas. Escolhas que moldam paisagens, economias, relações sociais e o próprio futuro climático do país. No Brasil — potência ambiental e, ao mesmo tempo, território de contradições profundas — essas decisões ganham ainda mais peso.
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É nesse contexto que a AXIA Energia vem reposicionando seu papel no setor elétrico, ao integrar governança, riscos, compliance e sustentabilidade como pilares estratégicos do negócio. Da liderança ambiental reconhecida pelo CDP à meta de Net Zero até 2030; do reflorestamento em larga escala à preservação do patrimônio genético da Amazônia; da proteção da biodiversidade à inovação climática com inteligência artificial, a empresa constrói uma narrativa que conecta infraestrutura, ciência e responsabilidade com o território.
Para aprofundar essa visão, o Neo Mondo conversou com Camila Gualda Araujo, Vice-Presidente de Governança, Riscos, Compliance e Sustentabilidade da AXIA Energia. Nesta entrevista, Camila compartilha reflexões sobre os dilemas e oportunidades da transição energética brasileira, o papel das empresas na agenda climática global e os caminhos possíveis para conciliar desenvolvimento, conservação e justiça climática.
Acompanhe a entrevista:
Camila, a AXIA Energia atua em um setor-chave para a transição energética brasileira. Na sua visão, qual é o papel da governança corporativa — integrada a riscos, compliance e sustentabilidade — para garantir que essa transição seja não apenas rápida, mas justa, transparente e duradoura?
Quando falamos de governança integrada à sustentabilidade, é importante voltar um pouco no tempo. Entrei na companhia em 2020, ainda antes da privatização, com a missão de estruturar as áreas de governança, riscos e compliance. Naquele momento, a sustentabilidade ainda aparecia de forma bastante fragmentada, muito associada ao acompanhamento de índices de agências de rating, mas sem uma visão estratégica integrada ao negócio.
A estrutura da empresa à época explicava parte desse desafio. A holding convivia com subsidiárias que não eram integralmente controladas, com acionistas minoritários e práticas muito distintas entre si. Cada empresa conduzia suas próprias iniciativas socioambientais, sem uma diretriz comum, sem uma área dedicada e, principalmente, sem conexão clara com a estratégia corporativa.
Com a privatização, em 2023, veio a oportunidade de uma reorganização profunda. A primeira decisão foi transformar todas as empresas em 100% AXIA, criando uma governança unificada, com hierarquia clara, processos padronizados e uma estratégia comum. Nesse contexto, a sustentabilidade passou a integrar formalmente o meu escopo, ao lado da governança, do compliance, da segurança da informação e da gestão de riscos — o que fez todo sentido, porque fecha o ciclo do que hoje chamamos de ESG.
A partir daí, criamos a diretoria de sustentabilidade, vinculada à vice-presidência de governança, com uma missão muito clara: olhar para o negócio da empresa e entender como ele se traduz em práticas concretas. Foi quando percebemos o quanto ainda faltava coerência. Somos uma empresa que depende diretamente da água, do sol e do vento para gerar energia, mas essas dimensões ainda não estavam plenamente incorporadas à agenda estratégica da companhia — seja na preservação ambiental, na proteção da biodiversidade ou na relação com as comunidades impactadas.
Hoje, nos relacionamos com cerca de 1.500 comunidades em todo o país — praticamente um terço do território nacional. Essas comunidades são fundamentais para a proteção de rios, nascentes e ecossistemas, e também para a viabilidade das nossas operações. Por isso, passamos a investir fortemente em programas sociais, com destaque para educação básica, educação ambiental e formação cidadã, entendendo a sustentabilidade como um conceito amplo, que inclui o social e o ambiental de forma indissociável.
Outro avanço decisivo foi a chegada de um conselho de administração altamente conectado às melhores práticas globais. Conselheiros com visão internacional, muito provocadores, que rapidamente entenderam que sustentabilidade não é um tema periférico, mas um eixo estratégico. Criamos, então, o Comitê de Sustentabilidade, formado por cinco membros do conselho, que acompanha mensalmente os avanços, cobra resultados e impulsiona o amadurecimento das agendas.
Um exemplo claro dessa mudança é a Ilha de Germoplasma. O que antes era uma iniciativa local, pouco visível, passou a ser reconhecido como um ativo estratégico para o reflorestamento e diretamente conectado à nossa meta Net Zero até 2030. Esse tipo de integração só acontece quando a sustentabilidade entra definitivamente no radar da governança.
Com a privatização, também triplicamos nossa capacidade de investimento, o que significa mais obras, mais projetos e maior presença em territórios. Isso trouxe um desafio adicional: como garantir o respeito aos direitos humanos em uma operação cada vez mais ampla? Para isso, fortalecemos nossos mecanismos de controle — capacitação contínua, canais de denúncia acessíveis às comunidades, auditorias surpresa em obras e acompanhamento rigoroso das condições de trabalho, segurança e conformidade com o código de conduta.
Em 2025, demos mais um passo importante ao estruturar o Roadmap ESG da companhia: um programa com 25 projetos, distribuídos entre os pilares ambiental, social e de governança, com execução monitorada mensalmente pelo Comitê de Sustentabilidade e pelo Conselho de Administração. Nada fica fora do radar — prazos, metas, indicadores e responsabilidades estão todos no painel de gestão.
O mais interessante é perceber que essa agenda não está restrita à alta liderança ou aos investidores. Ela passou a fazer parte da cultura interna. Hoje, quando falamos de transição energética, todos compreendem seus pilares: descarbonização, reflorestamento e certificação de energia renovável. Os resultados começaram a aparecer, e a forma como o mercado, as agências de rating e os investidores enxergam a empresa também mudou.
A governança, hoje, garante que a sustentabilidade seja meta do CEO, dos vice-presidentes, acompanhada pelo conselho e incorporada às decisões estratégicas. Não fazemos isso por discurso ou reputação. Fazemos porque dependemos da natureza para existir. Coexistir com responsabilidade, respeitando os territórios e a sociedade, é condição para a continuidade do negócio — e é exatamente isso que orienta a nossa atuação.
O que representa para a AXIA a conquista da posição “A” no CDP e como isso se traduz em decisões de negócio?
A posição “A” no CDP teve um significado muito especial para nós. Ela não veio por discurso, veio por consistência. O CDP olha para dados, processos e resultados, e isso exigiu escolhas difíceis ao longo do caminho.
Essas escolhas incluíram sair definitivamente das térmicas, investir pesado em transmissão e estruturar uma agenda climática sólida, com reflorestamento e apoio à descarbonização da indústria. No fim do dia, esse reconhecimento não é só reputacional — ele influencia diretamente onde investimos e como dialogamos com investidores.
Quais foram as principais escolhas estratégicas e dilemas para viabilizar a meta Net Zero até 2030?
Mesmo já sendo uma empresa majoritariamente limpa, eu sempre tive muito claro que não dava para parar ali. Chegar perto não é chegar. O desafio foi enorme, e não apenas técnico. Tivemos que olhar para fornecedores, ativos antigos, gases poluentes, certificações e para toda a cadeia.
A meta Net Zero virou quase uma missão pessoal e corporativa. Preferimos construir uma trajetória sólida, com investimento aprovado pelo conselho e execução possível, do que prometer atalhos. Credibilidade, para mim, é parte essencial dessa agenda.
Como a AXIA enxerga o reflorestamento: compensação, regeneração ou parte do modelo de negócios?
Eu diria que é tudo isso ao mesmo tempo. Para a natureza, pouco importa se a ação é obrigatória ou voluntária — o que importa é o impacto. Reflorestar, para nós, é regenerar ecossistemas, mitigar impactos e proteger territórios.
Além disso, o reflorestamento traz um ganho social importante. Ele ajuda a organizar o território, evita ocupações irregulares e fortalece a relação da empresa com as comunidades onde atuamos.
Por que a preservação do DNA genético, por meio da Ilha de Germoplasma, é estratégica para a conservação da biodiversidade?
A Ilha de Germoplasma representa muito mais do que um projeto ambiental — ela gera benefícios ecológicos, sociais e territoriais de forma integrada. Quando desenvolvemos esse trabalho, não estamos apenas cuidando da floresta: estamos envolvendo famílias, comunidades e pessoas que passam a enxergar valor nessa relação entre empresa, sociedade e natureza.
É interessante observar a própria trajetória da Ilha. Até 2020, o avanço era lento, incremental, quase silencioso. A partir de 2022, houve uma verdadeira virada. O que mudou? Foco estratégico. A iniciativa, que estava ali “escondida”, fazendo um trabalho técnico excepcional, passou a ser reconhecida internamente como um ativo essencial para a agenda de sustentabilidade e reflorestamento da companhia.
Preservar o DNA genético de espécies ameaçadas é estratégico porque reflorestar não é simplesmente plantar árvores — é recompor ecossistemas. Para que o reflorestamento seja efetivo, ele precisa respeitar as condições originais do território. Isso significa trabalhar com espécies nativas, adaptadas ao solo, ao clima e à dinâmica ecológica local. E, para isso, é indispensável preservar, multiplicar e desenvolver essas matrizes genéticas.
Existe uma relação direta de causa e consequência: se queremos reflorestar corretamente, precisamos preservar; se precisamos preservar, temos que investir no crescimento e no desenvolvimento dessas mudas; e se fazemos isso de forma estruturada, conseguimos escalar o impacto ambiental positivo. A Ilha de Germoplasma cumpre exatamente esse papel — ela viabiliza o reflorestamento com qualidade ecológica.
Hoje, esse trabalho não está restrito a Tucuruí. Temos iniciativas semelhantes associadas a diferentes usinas e regiões do país — como Santo Antônio, o complexo do Funil, no Rio de Janeiro, e unidades no Sul — respeitando sempre as características nativas de cada bioma. A Ilha de Germoplasma da Amazônia, em especial, tem uma capacidade produtiva robusta e consolidada, o que nos permite pensar em expansão nos próximos anos, à medida que avançamos também na agenda Net Zero.
Somente neste ano, foram doadas cerca de 7,5 milhões de sementes e 90 mil mudas para projetos de reflorestamento. Parte desse material é direcionada a iniciativas externas, e parte é utilizada nos próprios projetos da AXIA, criando um ciclo virtuoso entre conservação, regeneração e operação.
Esse tipo de iniciativa reposiciona o papel das empresas na conservação da biodiversidade. Não se trata apenas de mitigar impactos, mas de assumir responsabilidade ativa pela regeneração dos ecossistemas dos quais dependemos. Quando a empresa investe em preservar o patrimônio genético da floresta, ela deixa de ser apenas usuária do território e passa a ser guardiã de um futuro ambiental possível.
Como a AXIA equilibra grandes obras de infraestrutura com a proteção da fauna e dos ecossistemas locais?
Esse equilíbrio começa muito antes da obra. Nenhum projeto nasce sem estudos ambientais profundos, mapeamento da biodiversidade e diálogo com as comunidades. A gente precisa conhecer o território antes de intervir nele.
Claro que imprevistos acontecem, mas começar do jeito certo faz toda a diferença. Isso melhora o diálogo com órgãos ambientais, reduz riscos e torna a execução mais responsável.
O que a descarbonização de sistemas isolados revela sobre desigualdade energética no Brasil?
Ela escancara uma desigualdade histórica. Sempre digo que transição energética só é justa quando chega a quem nunca teve acesso pleno à energia. Em alguns lugares, a solução é uma linha de transmissão; em outros, energia solar distribuída.
Levar energia limpa para esses territórios é falar de clima, mas também de dignidade, inclusão e desenvolvimento.
Qual é o impacto real do Linhão Manaus–Boa Vista para o país?
O impacto do Linhão Manaus–Boa Vista é direto, mensurável e estrutural. Apenas com a sua energização, foi possível viabilizar o descomissionamento de cinco termelétricas movidas a diesel e carvão, eliminando emissões de carbono na origem. Estamos falando de uma redução de cerca de 300 mil toneladas de CO₂ por ano, ao longo de uma concessão de 30 anos — um volume expressivo de emissões retiradas da atmosfera de forma permanente.
Além do efeito climático, o Linhão tem um papel histórico: ele conectou o último estado brasileiro que ainda operava de forma isolada e majoritariamente dependente de geração fóssil. Roraima, que antes era abastecida por fontes altamente poluentes, passou a ter acesso à energia limpa do Sistema Interligado Nacional. Isso é integração energética na prática.
O projeto envolveu um investimento de aproximadamente R$ 3,3 bilhões e representa, na nossa visão, o caminho mais rápido e eficaz para conduzir a transição energética e a descarbonização da Amazônia. Especialmente porque o Norte do país concentra grande parte da geração de energia limpa, enquanto o consumo está majoritariamente no Sudeste. A transmissão é o elo que permite que essa energia chegue onde é necessária.
Mais do que um projeto isolado, o Linhão expressa uma estratégia. Ele foi o primeiro grande empreendimento de transmissão concluído após a privatização da companhia e abriu caminho para um novo ciclo de expansão. Hoje, a AXIA tem 11 projetos de transmissão em andamento, todos com esse mesmo foco: ampliar a capacidade do sistema, reduzir gargalos e garantir que a energia limpa possa circular pelo país inteiro.
Do ponto de vista da segurança energética, isso significa mais estabilidade, mais resiliência e menos dependência de fontes fósseis emergenciais. Do ponto de vista climático, é uma das formas mais eficientes de reduzir emissões em larga escala. E, do ponto de vista territorial, é um passo fundamental para integrar a Amazônia ao sistema nacional sem reproduzir modelos poluentes do passado.
Onde a inteligência artificial já faz diferença concreta na estratégia da AXIA?
A tecnologia tem sido fundamental para antecipar riscos climáticos. Usamos dados de satélite e modelos preditivos para agir antes que eventos extremos causem impactos maiores.
Isso nos dá tempo de resposta, aumenta a resiliência do sistema e traz mais segurança para um cenário climático cada vez mais imprevisível.
Como a AXIA integra a segurança hídrica à sua estratégia, especialmente em projetos como Belo Monte?
Belo Monte é um tema central para a AXIA — e não por acaso. Somos acionistas de quase 50% da Norte Energia e entendemos que a usina ocupa um papel absolutamente estratégico no sistema elétrico brasileiro. Belo Monte é, na prática, um dos grandes “backups” do país. Em momentos de estresse do sistema — seja por problemas no Sul, no Norte ou por curtailment de eólicas e solares no Nordeste — é Belo Monte que garante segurança energética.
Trata-se de uma usina que enfrentou inúmeros desafios ao longo de sua construção, e isso faz parte da sua história. Mas hoje existe ali uma gestão sólida, responsável e comprometida com as melhores práticas socioambientais. A AXIA atua como acionista presente, tanto no Conselho de Administração quanto no apoio direto às equipes socioambientais da Norte Energia, justamente porque sabemos que o passado ainda pesa na percepção pública — muitas vezes de forma desatualizada e injusta.
A segurança hídrica, nesse contexto, é tratada como eixo estratégico. Belo Monte não é apenas geração de energia: é gestão de água, de território e de relações sociais. A usina opera no coração da Amazônia e tem responsabilidades que vão muito além da produção elétrica — envolvendo comunidades, biodiversidade e equilíbrio ecológico. Por isso, trabalhamos de forma integrada para promover segurança hídrica, ambiental e social de forma contínua.
Nos últimos anos, fizemos um esforço deliberado de transparência e diálogo. Passamos a convidar jornalistas, investidores e formadores de opinião para conhecerem Belo Monte in loco, porque a realidade no território fala mais alto do que narrativas cristalizadas. É comum que pessoas cheguem com uma visão pré-concebida e saiam profundamente impactadas ao ver a dimensão e a seriedade das ações implementadas.
Esse trabalho de reposicionamento também envolve o diálogo internacional. Um caso emblemático foi o do Norges Bank, que deixou de investir na antiga Eletrobras em 2020 com base em críticas relacionadas a Belo Monte. Quando assumi a agenda de sustentabilidade, fiz questão de revisitar ponto a ponto os argumentos apresentados. Reconhecemos onde era possível melhorar, esclarecemos percepções equivocadas e apresentamos, com dados e evidências, tudo o que vinha sendo feito. Estive pessoalmente na Noruega mais de uma vez e entregamos relatórios detalhados. Esperamos avanços nesse diálogo, porque sabemos o peso que esses investidores têm na formação de opinião global.
É fundamental dizer com clareza: hoje não é correto afirmar que Belo Monte viola direitos humanos, desrespeita comunidades indígenas ou negligencia o meio ambiente. Houve aprendizado, houve correções de rota e houve evolução. A AXIA e a Norte Energia operam hoje com um nível muito mais elevado de diligência, responsabilidade e compromisso socioambiental.
Belo Monte é uma usina indispensável para o Brasil. O desafio agora é fazer as pazes com essa realidade e, a partir dela, seguir aprimorando tudo o que pode — e deve — ser melhorado. É isso que estamos fazendo. Com transparência, governança e foco em segurança hídrica como base da segurança energética nacional.

O que a mudança de marca da AXIA busca comunicar ao mercado e à sociedade?
A mudança de marca é, para mim, um dos temas mais simbólicos dessa nova fase — e falo isso com envolvimento pessoal. A AXIA nasce como uma forma de nos reposicionarmos diante do mercado, dos clientes, das comunidades e da sociedade com um novo perfil: mais engajado, mais profissional, mais contemporâneo e mais alinhado ao mundo em que vivemos hoje.
O setor elétrico está em transformação profunda. Em breve, o consumidor poderá escolher de quem comprar energia, como faz hoje em outros mercados. Isso exige que a empresa seja reconhecida não apenas como uma grande operadora de infraestrutura, mas como uma geradora de valor, com produto de qualidade, energia limpa, resiliente e confiável — e com uma linguagem moderna, capaz de dialogar com diferentes públicos.
A nova identidade reflete exatamente isso. Era um “shift” necessário. As pessoas hoje nos veem pela tela do computador, pelas redes, pelos canais digitais. Precisávamos falar essa língua. Mostrar que somos uma empresa preparada para esse novo mercado, com visão de futuro e capacidade de entrega.
O mais bonito desse processo, porém, foi perceber que a transformação não ficou na superfície. Ela foi rapidamente incorporada pelas pessoas. Em nossas visitas de segurança — os safety walks que realizamos em unidades por todo o Brasil — vimos algo muito simbólico: os próprios colaboradores passaram a cobrar a nova marca na ponta. Perguntam quando chega a nova placa, o uniforme, o crachá, a mochila, a garrafa d’água. Ninguém mais fala do passado — o nome que circula naturalmente é AXIA.
Isso mostra que a mudança de marca tocou a cultura interna. Claro que respeitamos profundamente a história da Eletrobras, que construiu um patrimônio energético extraordinário no país. Quem visita as usinas entende a grandeza desse legado. Mas vivemos um mundo novo, um mercado novo, e a AXIA representa essa transição energética: sem negar o passado, mas olhando decididamente para o futuro.
A receptividade foi muito positiva. No início, como é natural, houve estranhamento com o nome, mas o logo foi amplamente bem recebido. Com o tempo, o nome também ganhou força e identidade própria. Hoje, sentimos que a marca flui — internamente e externamente.
Para mim, o mais importante é que essa nova identidade não é apenas estética. Ela reflete transformações internas profundas: na forma de trabalhar, de se comunicar, de se relacionar com clientes, investidores e comunidades. A AXIA é a expressão visível de uma empresa que mudou por dentro — e que está pronta para atuar em um setor elétrico mais aberto, mais competitivo e mais conectado com as demandas da sociedade.
Ao longo desta entrevista, fica evidente que a transição energética não se resume à troca de fontes ou à redução de emissões. Ela exige visão de longo prazo, coragem institucional e, sobretudo, uma leitura sensível dos territórios onde a energia é produzida. Governança, biodiversidade, inovação e impacto social aparecem, aqui, não como áreas isoladas, mas como partes de um mesmo sistema interdependente.
A trajetória apresentada pela AXIA Energia revela um movimento que vai além da conformidade regulatória ou do discurso ambiental: trata-se de assumir protagonismo em um país que carrega, simultaneamente, a responsabilidade de proteger a maior floresta tropical do planeta e a urgência de garantir segurança energética e desenvolvimento.
Em tempos de emergência climática e transição energética, entrevistas como esta ajudam a iluminar caminhos possíveis — e necessários — para um setor elétrico mais transparente, regenerativo e alinhado ao futuro. Porque, no fim das contas, a energia que escolhemos produzir diz muito sobre o mundo que decidimos sustentar.

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