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Escrito por Neo Mondo | 14 de julho de 2025
As sementes do fruto passam pelo tubo digestório do animal dispersor, onde recebem um tratamento que as deixam prontas para germinarem quando depositadas - Foto: Mauro Galetti/CBioClima
Por - Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP / Neo Mondo
Equipe internacional de pesquisadores faz alerta global para necessidade de incluir frugívoros nas estratégias de conservação, recuperação florestal e mitigação das alterações do clima
Grande parte das árvores da Amazônia (90%), da Mata Atlântica (90%) e do Cerrado (60%) depende dos animais para espalhar suas sementes, garantir sua reprodução e manter a floresta em pé. São aves, mamíferos, peixes e até uma espécie de anfíbio que desempenham um papel crucial para a diversidade das florestas em todo o mundo. No entanto, esse processo tem se desintegrado à medida que populações de animais dispersores de sementes vêm diminuindo drasticamente.
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A perda de animais frugívoros (cuja dieta é composta principalmente de frutos) provoca outro efeito: altera a composição das florestas, enfraquecendo sua capacidade de absorver dióxido de carbono e, assim, reduzindo seu papel no enfrentamento das mudanças climáticas.
Mas grandes esforços globais para proteger e recuperar ecossistemas continuam subestimando os animais dispersores de sementes nas estratégias de conservação da biodiversidade e recuperação florestal.
“Muito se comenta hoje sobre créditos de carbono e restauração da floresta, mas quem ‘planta’ o carbono? É o tucano, a cutia, a anta, a jacutinga. Para se ter uma copaíba, por exemplo, a floresta precisa ter tucanos e macacos para dispersarem suas sementes. Portanto, precisamos incluir os animais frugívoros na equação da restauração, pois já há ciência suficiente para quantificar quanto do carbono florestal é plantado pelos animais”, diz Mauro Galetti, um dos diretores do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro.
Galetti e pesquisadores dos Estados Unidos, Suíça, Panamá, Alemanha, Espanha e Portugal publicaram um artigo na Nature Reviews Biodiversity alertando sobre as consequências da perda de dispersores de sementes para as mudanças climáticas. O papel dos animais frugívoros é tão central na manutenção da biodiversidade das plantas que, segundo os pesquisadores, os esforços de restauração e proteção de ecossistemas correm o risco de não atingir as metas se o declínio dos dispersores de sementes não for mitigado.
Um estudo recente, publicado na revista Science por alguns dos pesquisadores que assinam o alerta, mostrou que a perda de aves e mamíferos em todo o mundo resulta na redução de 60% da propagação de sementes.
“Avançamos muito para resolver esses problemas da perda de dispersores de sementes e, apesar de o Brasil ser o país com mais estudos científicos sobre dispersão, é preciso se aprofundar no problema e entender, por exemplo, que plantas e ecossistemas estão mais vulneráveis a essa perda. Além disso, é claro, precisamos identificar quais estratégias restauram melhor a dispersão de sementes", diz o pesquisador.
Ao comer um fruto, o animal dispersor é “contaminado” pela semente, que passa pelo tubo digestório e recebe um tratamento químico (pela ação do suco gástrico) ou mecânico — no caso das aves, por exemplo, a moela amassa a semente —, o que permite a entrada de água e a deixa pronta para germinar onde quer que o animal a deposite posteriormente, ao defecar.

“Portanto, as sementes consumidas por animais vão germinar mais, mais rápido e vão se estabelecer em lugares mais seguros para crescer. E, se não houver um animal para ‘machucar’ a semente e levá-la para longe da planta-mãe, ela não vai germinar e, mesmo que germine perto da planta-mãe, provavelmente vai morrer, porque haverá competição entre elas", conta Galetti.
Mas é importante ressaltar que não há um padrão: em cada lugar do mundo, e para cada espécie de árvore e de animal vertebrado, essa interação é diferente.
“A castanha-do-pará, por exemplo, só tem um dispersor: a cutia. Se a cutia for extinta localmente, o serviço de dispersão da castanha-do-pará sucumbe. Dependemos, então, de um serviço ecológico fundamental da cutia", afirma Galetti.
Enquanto na Mata Atlântica aves, morcegos, macacos e antas são os principais dispersores de sementes, na Amazônia e no Pantanal os peixes desempenham um papel crucial.
“Os pacus e tambaquis, por exemplo, percorrem grandes distâncias e consomem grandes quantidades de frutos, o que os torna superdispersores de diferentes espécies nas matas ciliares", conta o pesquisador.
Assim como as abelhas e outros polinizadores, o papel dos animais frugívoros é essencial para a reprodução das plantas. Mas, embora ambos os serviços estejam ameaçados por fatores como mudanças no uso da terra e exploração direta, cada grupo responde de forma diferente aos impactos. Enquanto os polinizadores sofrem mais com pesticidas, os dispersores de sementes são mais afetados pela perda de habitat e pela caça.

Outra diferença é que o declínio dos polinizadores tem recebido mais atenção pública e política, já que sua ausência afeta diretamente a produção de alimentos. Já os impactos da perda dos dispersores de sementes são mais difíceis de medir, influenciando a biodiversidade e o armazenamento de carbono ao longo do tempo.
“Ambos são importantes e devem ser levados em conta nos projetos de restauração e conservação. Porém, o declínio dos polinizadores é mais facilmente medido no curto prazo: ele gera impactos econômicos imediatos, como a perda de produtividade das lavouras. Já os efeitos da perda dos dispersores de sementes ocorrem de forma lenta e ampla, comprometendo a funcionalidade e a resiliência dos ecossistemas", explica Galetti à Agência FAPESP.
O cientista afirma que os custos econômicos do declínio dos dispersores de sementes — como a perda de armazenamento de carbono, a redução do fornecimento de produtos florestais e o declínio da resiliência natural a eventos ambientais extremos — ainda não foram quantificados globalmente.
“A restauração não consiste apenas em plantar árvores; é preciso considerar quem vai garantir o futuro dessa floresta, que são os animais dispersores. Há alguns anos, acreditava-se que, ao plantar a floresta, esses animais iriam até ela. Mas não é assim que acontece. É muito mais complexo ter uma floresta restaurada em pleno funcionamento", conta.
No artigo, os pesquisadores destacam que novas sínteses e modelos de dados estão captando mudanças funcionais em grande escala e ajudando a revelar impactos de longo prazo, como a recuperação prejudicada após incêndios florestais e a degradação de hábitats para animais.
“Enfrentar o declínio dos dispersores de sementes é fundamental para preservar a biodiversidade animal, garantir a conectividade das florestas e o equilíbrio das comunidades vegetais”, afirma Galetti.
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