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O agronegócio que envenena os polinizadores que o sustentam

Escrito por Neo Mondo | 7 de maio de 2026

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Agronegócio brasileiro aprovou mais de 600 agrotóxicos em 2024 — enquanto abelhas nativas perdem habitat e populações entram em colapso silencioso - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - ELENI LOPES*, DIRETORA DE REDAÇÃO

Nas bordas das lavouras de soja no Cerrado, onde o solo ainda guarda memória de vereda, há um tipo de silêncio que os biólogos aprenderam a temer. Não é a ausência de som — é a ausência de zumbido. Abelhas nativas que antes percorriam quilômetros entre fragmentos de Mata Atlântica e áreas cultivadas somem silenciosamente, sem colapso espetacular, sem data marcada. Somem enquanto o Brasil aprova, só em 2024, mais de 600 novos agrotóxicos — um recorde que o próprio Ministério da Agricultura confirmou, 19% acima do ano anterior.

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Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Neotropical Entomology, assinado por pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica, da Embrapa, da Universidade de Brasília e do Ministério do Meio Ambiente, articula com precisão o que esse silêncio significa do ponto de vista institucional: o Brasil acumula décadas de conhecimento científico sobre polinizadores, participa de iniciativas internacionais, produz pesquisa de alto nível — e falha em transformar esse acervo em políticas públicas integradas e legislação específica. O gap não é de ciência. É de governança.

Os números que sustentam essa preocupação têm escala sistêmica. Polinizadores — abelhas, borboletas, morcegos, beija-flores, moscas e vespas — respondem pela reprodução de mais de 95% das plantas silvestres e cultivadas do planeta. No Brasil, entre 16% e 25% da produção agrícola e extrativista dependem diretamente desses serviços, segundo o IBGE. Globalmente, cerca de 17% do valor da produção agrícola mundial está vinculado à polinização animal, e esses cultivos representam 28% do comércio agrícola internacional — proporção que reflete sua alta demanda e maior sensibilidade a qualquer perturbação nas populações polinizadoras. Um modelo econométrico publicado em 2025 na Science of the Total Environment estima que um colapso global de polinizadores elevaria os preços de cultivos dependentes em 30%, gerando uma perda de bem-estar de 729 bilhões de dólares, equivalente a 0,9% do PIB mundial.

O Brasil ocupa, nesse quadro, uma posição de paradoxo estrutural. É o maior país tropical do mundo, detentor de uma das maiores diversidades de abelhas nativas do planeta — mais de 600 espécies apenas de meliponíneos, as abelhas sem ferrão. Ao mesmo tempo, em 2021 aplicou 719,5 mil toneladas de pesticidas em suas lavouras, volume equivalente ao consumo somado de Estados Unidos e China. Sua intensidade de uso, segundo dados da FAO compilados em 2024, chega a 10,9 quilogramas por hectare — contra 2,85 kg/ha nos EUA e 1,9 kg/ha na China. "O Brasil depende dos serviços ecossistêmicos prestados pelos polinizadores, mas figura entre os maiores consumidores globais de pesticidas", afirma Juliana Hipólito, pesquisadora do INMA e primeira autora do estudo publicado na Neotropical Entomology.

A pesquisa detalha um mecanismo de dano que vai além da mortalidade direta. As abelhas nativas sem ferrão — especialmente vulneráveis por seu comportamento de forrageamento e pela exposição prolongada a ambientes contaminados — sofrem alterações subletais que ficam abaixo dos limiares regulatórios. Doses consideradas seguras pela legislação brasileira são suficientes para reduzir o tamanho corporal dos insetos, comprometer o desenvolvimento das larvas e diminuir a massa dos adultos. O organismo sobrevive, mas sua capacidade de polinizar, de percorrer distâncias, de manter a colônia, é silenciosamente erodida. É o tipo de dano que os modelos de segurança construídos para organismos-alvo não capturam.

A perda de habitat amplifica esse efeito. O uso intensivo de fertilizantes químicos, a destruição de áreas florestais e o agravamento das mudanças climáticas figuram entre as causas centrais do declínio de polinizadores ao redor do mundo, segundo revisão publicada na Nature por grupo internacional que incluiu a bióloga Vera Lúcia Imperatriz-Fonseca, do Instituto de Biociências da USP. No Brasil, a equação se agrava pela velocidade do desmatamento nos biomas que concentram maior diversidade de espécies nativas: Cerrado e Amazônia. A fragmentação não apenas remove habitat — ela isola populações, reduz fluxo gênico e torna as espécies mais vulneráveis a eventos climáticos extremos.

O que o estudo da Neotropical Entomology acrescenta a esse quadro é uma análise histórica e prospectiva das políticas brasileiras: a origem da Iniciativa Brasileira de Polinizadores, em 2000, ligada à Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU; o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Insetos Polinizadores; a conexão com as avaliações da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos — o IPBES — e de seu correspondente nacional, a BPBES. O país não está ausente do debate global. O problema é a arquitetura institucional interna: as iniciativas existem em paralelo, sem integração regulatória, sem monitoramento nacional sistemático e sem a legislação específica que daria força vinculante às recomendações científicas acumuladas.

"Fomentar a criação de políticas públicas para a proteção dos polinizadores e do serviço de polinização é estratégico, sob várias perspectivas", afirma Jeferson Coutinho, pesquisador da Embrapa e coautor do estudo. Entre as recomendações do grupo estão a eliminação gradual de subsídios a agrotóxicos de maior toxicidade, o estabelecimento de um programa nacional de monitoramento de populações polinizadoras e a expansão de práticas agrícolas que preservem ou restaurem vegetação nativa próxima às áreas produtivas. Essa última medida opera em duas direções simultaneamente: protege as espécies e mantém os serviços que o próprio agronegócio precisa para sustentar produtividade.

Mais de 87% das espécies vegetais com flores e 87 das principais culturas alimentares globais dependem de polinizadores para a produção de sementes, segundo revisão publicada em 2024 no CABI Reviews. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana, produção animal e biocombustíveis, aproximadamente 60% dependem de polinização animal. A cadeia que conecta um beija-flor no Cerrado a uma prateleira de supermercado em São Paulo é longa, invisível e extraordinariamente frágil.

O estudo também aponta a lacuna de dados que compromete tanto a pesquisa quanto a formulação de políticas. A falta de informações básicas sobre distribuição, ecologia e interações das espécies polinizadoras é ainda mais crítica em regiões tropicais, que devem ser fortemente afetadas pelas mudanças climáticas nos próximos anos, segundo artigo publicado em 2025 na Sociobiology liderado por Luísa Carvalheiro, da Universidade Federal de Goiás. Sem monitoramento de linha de base, o Brasil não consegue mensurar a velocidade do declínio que já documenta em laboratório.

A ausência de uma lei específica não é detalhe burocrático. É a diferença entre uma recomendação técnica e uma obrigação legal; entre um programa que pode ser descontinuado na próxima troca de governo e uma política de Estado. A Europa, que enfrenta pressões equivalentes de seu agronegócio, construiu marcos regulatórios vinculantes para a proteção de polinizadores. O Brasil, que abriga a maior diversidade do mundo nesse grupo funcional, ainda não. Em 2024, o país bateu seu próprio recorde de autorizações de agrotóxicos, com mais de 600 produtos aprovados — enquanto o zumbido continua rareando nas bordas das lavouras e nos interstícios cada vez menores das matas que restam.

foto de abelha sem ferrão, remete a matéria O agronegócio que envenena os polinizadores que o sustentam
Fungicidas podem afetar microrganismos vitais às abelhas. Na foto, exemplar da abelha sem ferrão Scaptotrigona depilis, objeto do estudo - Foto: Cristiano Menezes

O que os pesquisadores do INMA, Embrapa e UnB documentam não é uma crise futura. É uma erosão em andamento, silenciosa e geometricamente crescente. As flores estão abertas. As visitas, cada vez menos frequentes.

*Com informações da Agência Bori.

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