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O desmatamento moveu o limiar

Escrito por Neo Mondo | 7 de maio de 2026

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Desmatamento na Amazônia: vista aérea mostra o avanço do corte raso sobre a floresta, com a fronteira entre o verde remanescente e o solo exposto marcando, em tempo real, o recuo do bioma - Foto: Nilo D'Avila / Greenpeace

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Novo estudo publicado na Nature mostra que o desmatamento rebaixa o limiar climático da Amazônia para 1,5°C — faixa de aquecimento já quase alcançada

Entre todas as coisas que a Amazônia faz pelo planeta — absorver carbono, regular o clima, abrigar mais de dez por cento da biodiversidade terrestre — há uma que os modelos climáticos levaram décadas para medir com rigor: a floresta fabrica sua própria chuva. Até metade das precipitações na bacia amazônica nasce da evaporação produzida pelas próprias árvores, num ciclo que se autossustenta enquanto houver cobertura vegetal suficiente para alimentá-lo. Quando esse ciclo se rompe, o colapso não respeita fronteiras entre áreas desmatadas e intactas. Ele viaja pelo ar, em forma de seca.

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Um estudo publicado na revista Nature em 6 de maio de 2026 pelo Instituto de Pesquisa de Impacto Climático de Potsdam (PIK), na Alemanha, oferece a quantificação mais detalhada já produzida sobre essa dinâmica — e os números redesenham o mapa de risco do bioma. De acordo com a pesquisa, entre 62% e 77% da área total da Amazônia pode entrar em colapso e se converter em ecossistemas degradados ou semelhantes à savana sob a combinação de aquecimento global entre 1,5°C e 1,9°C e desmatamento entre 22% e 28% do bioma. Sem novas perdas de cobertura vegetal, esse mesmo limiar só seria atingido em cenários de aquecimento entre 3,7°C e 4°C — praticamente o dobro.

O que torna o estudo tecnicamente singular é o método. Nico Wunderling, cientista do PIK e autor principal do trabalho, e seus coautores combinaram projeções climáticas, modelagem hidrológica e o modelo de rastreamento atmosférico UTrack, que acompanha trajetórias individuais de parcelas de vapor d'água pelo espaço tridimensional da atmosfera — algo impossível para modelos convencionais presos a grades fixas. O resultado é uma cartografia de vulnerabilidade em cascata: quando o desmatamento seca a atmosfera local, as regiões vizinhas — e regiões a centenas ou milhares de quilômetros de distância — perdem resiliência pela ausência do vapor que antes as alcançava.

"O desmatamento torna a Amazônia muito menos resiliente do que prevíamos", disse Wunderling na publicação do estudo. "Ele seca a atmosfera e enfraquece a capacidade da floresta de gerar sua própria chuva. Mesmo aumentos moderados de temperatura podem desencadear efeitos em cascata em grandes extensões do bioma." Arie Staal, professor assistente da Universidade de Utrecht e coautor da pesquisa, situou a escala geográfica desse mecanismo: aquecimento global e desmatamento afetam conjuntamente os ciclos de retroalimentação de chuva em todo o sistema amazônico, com perturbações que se propagam a distâncias de centenas ou mesmo milhares de quilômetros.

A aritmética do risco é desconcertante. Entre 17% e 18% da Amazônia já foi destruída, colocando o sistema próximo da faixa crítica identificada pela pesquisa. O planeta, por sua vez, avança em direção à marca de 1,5°C de aquecimento global em relação ao período pré-industrial — limiar estabelecido pelo Acordo de Paris como teto preferencial. A combinação dos dois vetores — desmatamento continuado e aquecimento crescente — torna o cenário descrito pelo estudo não uma projeção de longo prazo, mas uma perspectiva concreta para as próximas décadas.

Para Johan Rockström, diretor do PIK e coautor do trabalho, a floresta amazônica tem funcionado como estabilizador do sistema terrestre por sua tríplice função: sumidouro de carbono, reguladora da reciclagem de umidade e repositório da maior biodiversidade terrestre do planeta. "O desmatamento continuado está solapando essa estabilidade, empurrando a floresta para mais perto de um ponto de não retorno. Isso seria devastador não apenas para a região, mas poderia ter consequências de longo alcance para todo o planeta", afirmou.

Carlos Nobre, professor da Cátedra Clima e Sustentabilidade da Universidade de São Paulo e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, formulou em 1991 a hipótese da savanização do bioma — e dedicou mais de três décadas a refiná-la com acumulação sistemática de evidências. O novo estudo do PIK confirma seus alertas com precisão até então indisponível. Nobre classificou o trabalho como "um estudo muito importante" e indicou que a margem para conter a degradação é estreita e urgente: desmatamento zero, degradação zero e eliminação de incêndios provocados pelo homem até 2030, além de restauração florestal em larga escala — especialmente na região sul, onde a estação seca se estende por 4 a 5 semanas a mais do que há 40 ou 45 anos e registra até 20% menos chuva.

A região sul da Amazônia concentra as pressões mais agudas: é ali que a fronteira agrícola avança com maior velocidade e os índices de desmatamento são mais altos. O estudo do PIK não trata esses processos como ameaças independentes — eles se amplificam mutuamente. Cada hectare de floresta derrubada reduz o vapor d'água disponível para as áreas vizinhas; cada aumento de temperatura torna as árvores remanescentes menos capazes de sustentar o ciclo hidrológico. A degradação silenciosa — florestas que permanecem de pé mas perderam densidade e capacidade de transpiração por incêndios ou extração seletiva — participa da mesma espiral.

O que o estudo agrega à literatura consolidada sobre limiares amazônicos é a quantificação do desmatamento como multiplicador de vulnerabilidade climática. Pesquisas anteriores, como o mapeamento dos riscos de colapso publicado na Nature em 2024, já documentavam a interação entre aquecimento e perda de cobertura. O trabalho do PIK avança ao demonstrar que o desmatamento não apenas retira área florestal — ele rebaixa o limiar de temperatura a partir do qual o sistema inteiro pode entrar em transição. A diferença entre 1,5°C e 4°C como gatilho do colapso não é física do clima. É política de uso da terra.

Os pesquisadores sublinham que o colapso não é inevitável. Parar o desmatamento, restaurar florestas degradadas e cortar emissões de gases de efeito estufa em ritmo compatível com o Acordo de Paris são medidas que, combinadas, reduzem substancialmente os riscos identificados. "Essas mudanças não são inevitáveis", concluiu Rockström. A pesquisa foi publicada num momento em que o Brasil — após os acordos firmados na COP30, realizada em Belém em novembro de 2025 — ainda busca traduzir compromissos em instrumentos concretos de proteção florestal.

A floresta que fabrica sua própria chuva pode, pelo mesmo mecanismo, fabricar sua própria seca. O que o estudo do PIK revela é que esse processo não exige uma catástrofe climática distante: a combinação do desmatamento já existente com o aquecimento já em curso pode ser suficiente. A pergunta que os dados colocam não é se o limiar existe — é se haverá decisão política para não atravessá-lo.

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