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Serra dos Órgãos: proteger a floresta é proteger o futuro

Escrito por Neo Mondo | 3 de fevereiro de 2026

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Serra dos Órgãos: Em menos de 1% do território do Rio de Janeiro, o parque concentra a maior riqueza botânica já registrada em uma área protegida no Brasil - Foto: Dedo de Deus - Divulgação/Guia Melhores Destinos

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO

O parque nacional mais antigo do Brasil revela a maior riqueza botânica já registrada em uma área protegida — e levanta uma pergunta incômoda: quantas farmácias, soluções climáticas e saberes estamos deixando desaparecer sem sequer saber que existiram?

O Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no coração montanhoso do estado do Rio de Janeiro, acaba de ganhar um título que vai muito além do turismo de aventura ou das paisagens icônicas como o Dedo de Deus. Com um novo inventário científico, o parque se tornou a área protegida brasileira com a maior riqueza de plantas já registrada.

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Não é exagero. São 3.026 espécies de plantas catalogadas, um número que impressiona ainda mais quando colocado em perspectiva: 38% de todas as espécies conhecidas do estado do Rio de Janeiro concentradas em apenas 0,5% do território fluminense. É como se uma biblioteca inteira da Mata Atlântica estivesse comprimida em um único vale — e muita gente ainda passa por ali sem perceber.

Mas talvez o dado mais inquietante seja outro: quase 1.200 dessas espécies são raras localmente, com apenas um registro conhecido dentro do parque. E 103 estão em alguma categoria de risco de extinção, segundo a IUCN.

Um cofre biológico vertical

O que explica tamanha diversidade em um território relativamente pequeno?

A resposta está na geografia — e no acaso da preservação. A Serra dos Órgãos funciona como um cofre biológico vertical: sua altitude varia de 80 a 2.275 metros, criando uma sucessão de microclimas, microhabitats e nichos ecológicos. Some-se a isso o fato de o parque ter uma face voltada para o mar e outra para o continente, o que multiplica as combinações de umidade, temperatura e luminosidade.

“Você tem uma variação de espécies muito grande, e algumas dependentes de climas muito específicos. É por isso que surgem tantos endemismos”, explica Marcus Nadruz, primeiro autor do estudo e coordenador de Coleções Vivas do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O resultado? 28 espécies que só existem ali. Em nenhum outro lugar do planeta.

A ironia da proteção: seguras no papel, frágeis na realidade

Criado em 1939, o Parnaso é o terceiro parque nacional mais antigo do Brasil. Seu relevo acidentado, que sempre afastou grandes empreendimentos e ocupações humanas intensivas, foi um aliado silencioso da conservação. Hoje, o parque protege 19.855 hectares de Mata Atlântica, um bioma do qual restam apenas 24% da cobertura original.

Ainda assim, o inventário traz um paradoxo desconfortável:
21 espécies estão criticamente ameaçadas, 40 ameaçadas, 41 vulneráveis — e uma já foi considerada extinta, mesmo estando dentro de uma unidade de conservação.

“Essas espécies estão dentro de uma área protegida. Em tese, não deveriam sofrer pressões a ponto de chegar à extinção”, observa Nadruz. A frase pesa. Porque desmonta a ilusão de que criar um parque, por si só, resolve o problema.

Conhecer para conservar — e para cuidar de gente

O levantamento, publicado em novembro de 2025 pela revista Springer Nature, não é apenas um exercício acadêmico. Ele abre portas para aplicações práticas que ainda mal começaram a ser exploradas.

Segundo Nadruz, inventariar é o primeiro passo para estudos sobre usos medicinais, propriedades bioquímicas, serviços ecossistêmicos e até soluções baseadas na natureza para a crise climática. Em outras palavras: há um futuro inteiro escondido nessas folhas.

A própria ICMBio destaca isso. Para Cecília Cronemberger, coordenadora-geral de Pesquisa e Monitoramento da Biodiversidade do instituto e coautora do estudo, conhecer o que existe nas áreas protegidas é estratégico.

“As áreas protegidas são a principal estratégia de conservação das espécies. Mas a biodiversidade brasileira é tão complexa que ainda estamos longe de conhecê-la por completo”, afirma.

Um alerta que vai além da Serra

Há também um viés importante — e honesto — no estudo: o Parnaso é hoje a área protegida com maior riqueza botânica conhecida porque foi muito estudado. Sua proximidade com o Rio de Janeiro, antiga capital do país, atraiu expedições científicas desde o início do século 19.

Isso levanta uma questão global: quantos outros hotspots de biodiversidade seguem invisíveis simplesmente porque ninguém os estudou a fundo? Especialmente em áreas remotas da Amazônia, do Cerrado e da Caatinga.

Conhecer mais pode mudar rankings. Mas não muda o essencial: sem ciência, não há conservação eficaz.

Turismo, cuidado e mudança de mentalidade

Para quem vive o parque no dia a dia, como a condutora de visitantes e conselheira do Parnaso Monique Zajdenwerg, o estudo chega em boa hora.

Ela vê o inventário como um argumento poderoso contra o turismo predatório e a favor de um novo modelo de visitação, mais consciente e cuidadoso. “A gente vem de um período de turismo muito predatório, especialmente no pós-pandemia. Um estudo como esse ajuda a mudar o olhar — da sociedade e do próprio turismo”, diz.

O ângulo que fica

Talvez o dado mais surpreendente dessa história não esteja nos números, mas no silêncio que eles revelam.

A Serra dos Órgãos não é apenas um santuário de plantas raras. Ela é um lembrete de tudo o que ainda não sabemos — e de tudo o que podemos perder antes mesmo de descobrir. Em tempos de crise climática, colapso da biodiversidade e busca frenética por soluções tecnológicas, a resposta pode estar ali, crescendo devagar, entre a neblina e a rocha.

Proteger a Serra dos Órgãos, no fim das contas, não é só preservar o passado natural do Brasil.
É não fechar as portas de um futuro que ainda está sendo escrito em folhas, raízes e sementes.

*Esta matéria foi elaborada com base em informações apuradas pela jornalista Ramana Rech, publicadas no site ((o))eco, respeitando critérios éticos, jornalísticos e de atribuição de fonte.

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