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Escrito por Neo Mondo | 26 de maio de 2026
Litoral do Paraná — A pesquisadora Tawane Nunes segura tartaruga-verde juvenil durante expedição de monitoramento na Ilha das Cobras. Cada animal capturado é pesado, medido, examinado e devolvido ao mar — mais uma entrada numa série histórica construída ao longo de onze anos. Foto: Gabriel Marchi
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Como uma rede de cientistas, pescadores, catadores de caranguejo e comunidades costeiras vem construindo, há 17 anos com patrocínio da Petrobras, o mais completo retrato vivo da biodiversidade marinha brasileira
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O barro tem uma consistência particular que só quem já pisou num manguezal conhece. Ele não cede de vez — cede por partes, com uma sucção lenta que prende o pé antes de soltá-lo com um estalo úmido. A maré estava baixa, o sol do início da tarde entrava de lado entre as raízes aéreas dos mangues, e o senhor João caminhava à frente com uma tranquilidade que parecia desafiar a topografia. De tempos em tempos ele parava, olhava para o sedimento escuro, inclinava levemente a cabeça e apontava para uma abertura no solo.
"Tem caranguejo aqui."
Não havia como saber. Ao menos não para mim. A toca era idêntica a dezenas de outras que tínhamos passado nos últimos minutos. Mas o senhor João via alguma coisa — no diâmetro da entrada, na umidade da borda, talvez no padrão de marcas que o animal deixa ao sair e retornar — que tornava aquele buraco específico diferente de todos os outros. Décadas de catação no litoral do Paraná produziram nele um tipo de leitura do território que nenhum manual científico consegue replicar por inteiro.
A poucos metros atrás, a professora Cassiana Metri, da Universidade Estadual do Paraná, anotava coordenadas geográficas e registrava medidas em uma prancheta impermeável. O encontro entre o saber do catador e o método da pesquisadora não era folclórico nem decorativo. Era funcional. O senhor João encontrava os animais. Cassiana os transformava em dados. Juntos, produziam algo que nenhum dos dois conseguiria sozinho: uma leitura sistemática do estado de uma espécie — o caranguejo-uçá — que sustenta economicamente inúmeras famílias ao longo da Grande Reserva Mata Atlântica e que, ao mesmo tempo, integra uma teia ecológica cujos fios se estendem muito além do manguezal visível.

Foi para acompanhar esse trabalho — e tantos outros que compõem o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha, o Rebimar — que a Petrobras me trouxe ao litoral do Paraná por alguns dias. O que encontrei não foi um projeto de conservação no sentido corriqueiro da expressão. Foi uma infraestrutura de inteligência ambiental. Uma tentativa persistente, acumulada ao longo de 17 anos, de compreender o funcionamento de um dos mais ricos sistemas costeiros do Atlântico Sul — e de transformar esse entendimento em conhecimento capaz de orientar políticas públicas, decisões de gestão e o comportamento de gerações que ainda não chegaram à universidade.
A Grande Reserva Mata Atlântica se estende do sul de São Paulo ao norte de Santa Catarina, costurando florestas, estuários, ilhas, restingas e manguezais num corredor ecológico que abriga uma biodiversidade de proporções continentais. É também onde existe um dos maiores complexos portuários da América do Sul, onde comunidades pesqueiras tradicionais mantêm práticas com séculos de história, onde o turismo avança sobre áreas frágeis e onde a pressão sobre os ecossistemas costeiros cresce de forma consistente há décadas. Raramente um território reúne, num espaço tão comprimido, tantas forças que puxam em direções opostas.
O Rebimar nasceu exatamente nessa tensão. Criado em 2009 com apoio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o programa reúne hoje pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, da Universidade Estadual do Paraná, da Universidade de São Paulo, do Instituto Federal do Paraná e de diversas outras instituições em uma rede dedicada a monitorar a saúde ambiental dessa região. A cada fase, o escopo se amplia. O que começou focado no litoral paranaense passou a abranger também o sul de São Paulo e o norte de Santa Catarina. O que começou monitorando espécies emblemáticas passou a investigar ecossistemas inteiros, cadeias alimentares, contaminantes invisíveis, populações humanas e a economia que sustenta suas práticas.

Lilyane Fontoura, coordenadora geral do programa, explica que essa expansão não é arbitrária. Ela segue o próprio conhecimento acumulado: cada fase revela novas perguntas que a anterior não havia formulado, novas lacunas que só se tornam visíveis quando existe uma série histórica longa o suficiente para fazer comparações. Sem dados de dez anos atrás, não é possível saber se o que se observa hoje representa uma mudança ou uma variação dentro do padrão normal. Sem dados de vinte anos, não é possível distinguir tendências de flutuações. É essa lógica — aparentemente óbvia, mas raramente aplicada na ciência brasileira — que torna o Rebimar uma exceção num país onde projetos científicos costumam durar o tempo de um edital.
Os manguezais são o melhor exemplo do que o tempo faz pelo conhecimento.
Acompanhei a oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo numa trilha que não estava nos mapas — ou melhor, que estava em mapas que ela própria havia ajudado a construir usando drones, imagens de satélite e técnicas de geoprocessamento que, há quinze anos, seriam consideradas sofisticadas demais para uma equipe de campo em litoral brasileiro. Sarah me contou que o mapeamento refinado realizado pelo Rebimar identificou aproximadamente 50 mil hectares de manguezais distribuídos pela Grande Reserva — uma área superior às estimativas anteriores, o que por si só já diz algo sobre como subestimávamos o patrimônio que tínhamos diante dos olhos.

Mas quantificar o território é apenas o começo. O que a equipe passou a fazer depois é mais revelador: medir o vigor vegetativo dessas florestas, sua biomassa, sua capacidade de armazenar carbono, sua resposta às variações de temperatura, salinidade e nível do mar. O resultado é uma linha de base inédita — um retrato detalhado do estado atual desses ecossistemas a partir do qual qualquer alteração futura poderá ser identificada e medida com precisão.
Os manguezais são frequentemente descritos como berçários da vida marinha, e essa descrição é verdadeira, mas insuficiente. Eles também filtram contaminantes, estabilizam sedimentos, reduzem a erosão costeira, amortecem eventos extremos e funcionam como sumidouros de carbono com eficiência superior à da maioria das florestas tropicais terrestres. São, em linguagem econômica, infraestruturas naturais — sistemas que realizam gratuitamente funções cujo custo de substituição artificial seria proibitivo.
Sarah parou em determinado momento da conversa e fez uma observação que ficou comigo durante toda a viagem. Costumamos perguntar como o porto afeta o manguezal, disse ela. Mas raramente invertemos a questão: como o manguezal afeta o porto? A pergunta não é retórica. Sem a proteção costeira fornecida pelos manguezais, processos erosivos se intensificam, dinâmicas sedimentares se alteram e a vulnerabilidade de toda a infraestrutura portuária aumenta. A floresta que muitos enxergam apenas como área a ser protegida é também parte da infraestrutura que torna possível a operação econômica da região.
Os resultados do monitoramento trouxeram surpresas nesse sentido. Em algumas áreas próximas ao Porto de Paranaguá, os manguezais apresentam elevada produtividade biológica e alta capacidade de armazenamento de carbono. A equipe ainda investiga os mecanismos que explicam esse comportamento. As respostas não estão prontas. Essa é, aliás, uma das marcas do Rebimar: ele não entrega certezas embaladas. Entrega perguntas melhores.
Da beira do manguezal até a Ilha das Cobras são poucos quilômetros em linha reta, mas a travessia envolve uma embarcação e uma transição de escala que é também uma transição de perspectiva. A ilha fica no coração do Complexo Estuarino de Paranaguá — recebe influências simultâneas dos rios, do porto, das áreas urbanas e do oceano aberto. Por isso os pesquisadores a descrevem como sentinela ecológica: o que acontece ali reflete processos que afetam toda a costa.
Foi na Ilha das Cobras que encontrei a professora Camila Domit e sua equipe, que há mais de onze anos conduzem uma das mais consistentes séries históricas sobre tartarugas-verdes juvenis já produzidas no país. O trabalho começa com captura por redes especiais que não causam lesões, passa por pesagem, medição, exames clínicos completos, coleta de amostras biológicas e identificação individual por microchip, e termina com a soltura dos animais no mesmo ponto onde foram capturados. Mais de 300 indivíduos já foram monitorados ao longo desses anos. Alguns retornam repetidamente. Quando um animal marcado reaparece meses ou anos depois, ele traz consigo uma nova entrada numa base de dados que vai ficando mais densa e mais reveladora a cada expedição.

A quinta fase do Rebimar incorporou uma tecnologia que levou esse monitoramento a outro nível. Treze tartarugas receberam transmissores acústicos fixados às carapaças — dispositivos que emitem sinais captados por receptores espalhados ao longo da costa. Quando o animal passa próximo a um desses equipamentos, sua presença é registrada automaticamente. Os pesquisadores conseguem agora reconstruir deslocamentos, identificar áreas prioritárias de alimentação e compreender padrões comportamentais que antes permaneciam inteiramente invisíveis entre uma expedição e outra. O sistema está integrado a uma rede compartilhada com outros projetos científicos, o que amplia a cobertura do monitoramento para espécies como meros e raias. É, como a equipe descreve com precisão, um mapa vivo do oceano.
O que esse mapa revela não é tranquilizador. Cerca de 80% das tartarugas monitoradas apresentaram resíduos no trato digestório — plásticos, em grande parte. Aproximadamente metade da população estudada exibe sinais de fibropapilomatose, doença associada a um herpesvírus e frequentemente relacionada a ambientes sujeitos a múltiplas formas de estresse ambiental. A taxa é notavelmente elevada para um animal cujo ciclo de vida é longo e cuja sensibilidade ao ambiente se acumula ao longo de anos.
Camila usa a palavra sentinela para descrever esses animais, e a escolha é precisa. As tartarugas acumulam em seus organismos os registros do ambiente que frequentam. Quando adoecem, estão traduzindo em biologia algo que os relatórios oficiais muitas vezes ainda não conseguem capturar. Elas são um instrumento de medição que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, sem bateria e sem manutenção, e que produz informações sobre qualidade de habitat com uma riqueza que equipamentos artificiais raramente igualam.

O que as tartarugas registram nos seus organismos, a oceanógrafa Fernanda Possato registra nos seus dados.
Fernanda coordena a linha de pesquisa sobre resíduos e poluição marinha do Rebimar, e o trabalho dela talvez produza os resultados mais difíceis de ignorar de todo o programa. A equipe coleta amostras em praias, analisa partículas em suspensão na água usando redes de malha fina, e examina o conteúdo gastrointestinal de peixes comerciais capturados na região. Os números que emergem dessa rotina descrevem uma contaminação que já não tem limites geográficos identificáveis: microplásticos foram encontrados em aproximadamente 90% dos peixes analisados. Também aparecem em aves marinhas, em tartarugas, em mamíferos marinhos. Aparecem em ambientes remotos, longe de qualquer centro urbano. Aparecem dentro de unidades de conservação onde a presença humana é mínima.
Fernanda faz questão de um esclarecimento que é epistemologicamente relevante: encontrar microplásticos nos peixes não implica, por si só, risco alimentar comprovado para quem os consome. Os estudos sobre os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda estão em curso e os resultados definitivos levam tempo. O dado aponta outra coisa: que a contaminação plástica já percorre diferentes níveis da cadeia ecológica com uma capilaridade que tornaria qualquer tentativa de contenção localizada fundamentalmente insuficiente.

A razão é física. As correntes oceânicas não reconhecem limites municipais, fronteiras estaduais ou polígonos de unidades de conservação. Partículas plásticas produzidas em qualquer ponto do sistema costeiro circulam, fragmentam, acumulam-se onde as correntes permitem e chegam a lugares onde nenhuma gestão territorial alcança. O oceano, como sistema, opera em escalas que o pensamento administrativo raramente acompanha. E o resultado é que não existe lado de fora — não existe ponto da costa brasileira, por mais remoto, que esteja imune à contaminação que circula por todos os oceanos do planeta.
A raia-viola é um animal improvável como protagonista de uma história de colaboração.
Com seu corpo achatado, seus filetes laterais e seu hábito de repousar enterrada no fundo arenoso dos estuários, ela não inspira o mesmo fascínio imediato das tartarugas ou das baleias. Mas é uma das espécies mais ameaçadas do Atlântico Sul, e sua vulnerabilidade tem uma causa específica: ela é frequentemente capturada de forma incidental durante a pesca de arrasto do linguado, e uma vez retirada d'água sua sobrevida sem cuidados veterinários é curta.
Foi diante desse problema concreto que pesquisadores e pescadores artesanais do litoral paranaense desenvolveram um dos modelos de cooperação mais funcionais que já vi documentados em jornalismo ambiental brasileiro. A lógica é simples: quando uma raia é capturada acidentalmente, os pescadores acionam imediatamente a equipe do Rebimar. Os animais são transferidos para estruturas de recuperação, permanecem sob observação veterinária durante os dias necessários para estabilização e retornam ao mar quando as condições clínicas permitem. Mais de cinco mil raias já foram devolvidas vivas ao oceano por meio desse protocolo.

O número por si só é expressivo. Mas o que parece mais relevante do que o número é o que o protocolo representa em termos relacionais. Ele exigiu que pescadores passassem a ver numa espécie que historicamente representava apenas perda de tempo e de rede um animal cuja recuperação valia o esforço de uma ligação telefônica. Exigiu que pesquisadores passassem a entender a pesca artesanal não como uma pressão sobre a biodiversidade, mas como um parceiro insubstituível no monitoramento de espécies que nenhuma rede científica conseguiria alcançar sozinha. A conservação, nesse caso, não aconteceu apesar da pesca. Aconteceu através dela.
Esse modelo é raro no Brasil. O debate ambiental costuma operar em binários — conservação versus desenvolvimento, ciência versus tradição, proteção versus uso — que simplificam demais um território onde as relações são necessariamente mais complexas. O litoral do Paraná não é um parque vazio. É um espaço habitado, trabalhado, percorrido há séculos por comunidades cujo conhecimento sobre os ecossistemas é parte constitutiva do patrimônio que se tenta conservar. Ignorar essa dimensão produz conflitos evitáveis. Incorporá-la, como o Rebimar fez, produz resultados que não seriam possíveis de outro modo.
O conceito que amarra todas essas frentes de pesquisa tem um nome que parece simples mas carrega uma reorientação profunda de perspectiva: Saúde Única.
André Catani, diretor executivo da Associação Mar Brasil, a organização que coordena o Rebimar, explicou o princípio com uma clareza que vale a reprodução: não existe separação real entre saúde humana, saúde animal e saúde ambiental. Os três domínios pertencem ao mesmo sistema e as perturbações que afetam um domínio se propagam pelos outros de formas que a medicina, a veterinária e a ecologia raramente conseguem rastrear quando operam de forma isolada. Uma bactéria resistente a antibióticos que aparece num organismo marinho pode ter origem em resíduos farmacêuticos que chegaram ao oceano por canais de esgoto. Um peixe contaminado com metais pesados carrega no seu tecido a história de processos industriais que aconteceram a muitos quilômetros de distância. Uma tartaruga com fibropapilomatose está sinalizando uma qualidade ambiental que afeta igualmente as pessoas que pescam e se alimentam naquele ecossistema.

A Saúde Única não é uma metáfora. É uma abordagem metodológica que exige colaboração entre disciplinas que têm culturas científicas diferentes, linguagens diferentes e métricas de sucesso diferentes. Fazer isso funcionar numa escala que abranja três estados e dezenas de espécies ao longo de quase duas décadas é uma conquista organizacional e científica que raramente aparece nos relatórios de resultados.
Em Pontal do Paraná, uma iniciativa paralela revela outra dimensão do que o Rebimar construiu ao longo do tempo: hoje, todas as escolas municipais possuem certificação como Escolas Azuis. O conceito, alinhado ao movimento internacional de cultura oceânica, não se traduz em visitas ocasionais ou palestras sobre tartarugas. Traduz-se na incorporação permanente do conhecimento oceânico ao currículo escolar — uma geração inteira de estudantes que cresce entendendo que o mar não é um cenário de fundo, mas um sistema vivo do qual sua vida depende diretamente.
Para André Catani, a educação ambiental não é acessório do programa. É sua sustentação de longo prazo. Espécies se conservam quando as pessoas que habitam o território reconhecem nelas um valor que justifica o esforço da proteção. Esse reconhecimento não nasce espontaneamente. Precisa ser cultivado ao longo de gerações, com paciência e com uma consistência que supera ciclos eleitorais e mudanças de agenda.
A pergunta inevitável, em algum momento da viagem, foi esta: de onde vem essa consistência?
Michele Cardoso, gerente setorial de Integração de Projetos Socioambientais da Petrobras, que também participou da press trip, foi direta sobre o que a empresa observa nos projetos que apoia. Além dos resultados científicos, a Petrobras acompanha a capacidade de articulação institucional construída pelos programas ao longo do tempo. O Rebimar reúne hoje universidades federais e estaduais, institutos federais, prefeituras, escolas, organizações da sociedade civil e parceiros internacionais numa rede que amplia simultaneamente a produção e a circulação do conhecimento. Essa rede tem valor que vai além de qualquer resultado científico específico — ela representa uma infraestrutura de governança ambiental que o Brasil construiu com muito custo e que seria difícil de recriar se desmantelada.
A companhia acompanha o crescimento do projeto ao longo das suas fases e busca preservar a continuidade dos monitoramentos, ampliando escopo territorial e temático de acordo com o que as próprias equipes científicas identificam como necessário. Essa postura — que escuta o que a ciência aponta em vez de definir previamente onde quer chegar — é menos comum do que deveria ser no financiamento privado de pesquisa ambiental no Brasil.

Há uma dimensão menos visível nessa continuidade que merece atenção. As séries históricas produzidas pelo Rebimar — os dados sobre tartarugas coletados desde 2009, os registros de manguezais anteriores ao mapeamento refinado, os inventários de espécies e de contaminantes acumulados ao longo de mais de uma década — não têm preço de mercado calculável, mas têm um valor científico que cresce exponencialmente com o tempo. Dados de um ano não revelam tendências. Dados de cinco anos revelam padrões. Dados de quinze anos revelam processos. É a diferença entre uma fotografia e um filme — e a diferença entre saber que algo existe e conseguir prever o que vai acontecer com ele.
Na última tarde da press trip, ainda com o barro do manguezal nos sapatos, pensei em qual seria a maneira mais precisa de descrever o que havia acompanhado durante aqueles dias.
Não era conservação no sentido de preservar algo intacto. O litoral do Paraná não é intacto. Nunca foi, pelo menos não nas últimas décadas. É um território que trabalha — que produz, que pesca, que exporta, que recebe navios e turistas, que abriga comunidades com histórias longas e necessidades imediatas. A questão não é como mantê-lo fora do tempo, mas como torná-lo capaz de continuar funcionando — ecologicamente, economicamente, socialmente — apesar das pressões que crescem sobre ele.
O que o Rebimar faz, com uma perseverança que beira o obstinado, é produzir o conhecimento necessário para que essa equação tenha chance de ser resolvida. Não com certezas. Com dados suficientemente consistentes para que as pessoas que precisam tomar decisões — gestores públicos, operadores portuários, pescadores, educadores, formuladores de políticas — tomem decisões melhores do que tomariam sem eles.
As tartarugas da Ilha das Cobras continuam enviando seus sinais. Os manguezais continuam acumulando carbono e protegendo sedimentos. As raias continuam percorrendo o estuário. Os caranguejos continuam fazendo sua cirurgia discreta no barro. Os microplásticos continuam circulando, indiferentes a qualquer fronteira que tentemos impor ao oceano.
E existe, no litoral do Paraná, uma rede de pessoas que há quase duas décadas se recusa a parar de escutar o que tudo isso está dizendo.
Às vezes é assim que o futuro começa: não com uma grande declaração, mas com alguém ajoelhado no barro, anotando o diâmetro de uma toca de caranguejo, convicto de que esse dado vai importar — mesmo que ainda não saiba exatamente para quê.
A biodiversidade é o maior ativo estratégico nacional