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Xingu, onde a vida encontra caminho

Escrito por Neo Mondo | 12 de março de 2026

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Xingu: filhote de quelônio inicia sua jornada rumo ao rio - Foto: Divulgação/Norte Energia

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Com 4.229 ninhos monitorados e quase 361 mil filhotes devolvidos ao rio, o Programa de Conservação de Quelônios de Belo Monte escreve, temporada após temporada, uma das histórias mais bonitas da Amazônia

Existe um momento, nas madrugadas quentes das praias do Xingu, que poucos olhos humanos testemunham. Sob uma lua que mal filtra pela copa das árvores, filhotes de tartaruga emergem da areia, orientam-se por instinto e arrastam-se, com uma determinação que parece maior do que seus corpos minúsculos, em direção à água. É um gesto antigo — repetido há milhões de anos — e que, sem a intervenção de quem escolheu protegê-los, correria sério risco de desaparecer.

Em 2025, esse gesto aconteceu 360.927 vezes.

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O Programa de Conservação e Manejo de Quelônios da Usina Hidrelétrica Belo Monte, desenvolvido pela Norte Energia em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), registrou neste ano o maior crescimento de sua trajetória recente: 4.229 ninhos monitorados ao longo da temporada reprodutiva — um salto de 139,2% em relação ao ano anterior. Por trás de cada número, há uma fêmea que voltou. Há ovos que sobreviveram à chuva, aos predadores, ao tempo. Há equipes que passaram noites na beira do rio para que isso fosse possível.

Quem olha para o mapa e vê o nome Tabuleiro do Embaubal, no município de Senador José Porfírio, no Pará, talvez não imagine o que acontece ali. Mas é nesse trecho do Baixo Xingu que fica um dos maiores sítios naturais de reprodução de quelônios de água doce do mundo — um lugar onde a areia ainda guarda segredos, e onde a natureza, quando protegida, responde com generosidade. Em 2025, o Tabuleiro registrou 9.327 ninhos das três espécies acompanhadas pelo programa: o tracajá, o pitiú e a tartaruga-da-Amazônia. A Praia Puruna, no Médio Xingu, foi o epicentro dessa temporada — só nela, estimou-se a presença de 4.699 ninhos e aproximadamente 357 mil filhotes. Uma praia que virou símbolo, não de cartão-postal, mas de resistência.

A natureza não facilita. Em 2025, o regime de chuvas foi mais intenso do que no ano anterior, e cada temporal representava uma ameaça real aos ninhos enterrados na areia úmida. Com estratégias de manejo adaptadas às condições do terreno e à imprevisibilidade do clima, as equipes conseguiram proteger um volume significativo de ovos e garantir que o ciclo reprodutivo das espécies não fosse interrompido. A capacidade de resposta — construída em 15 anos de presença contínua no território — fez a diferença entre uma temporada perdida e uma temporada histórica.

Roberto Silva, gerente de Meios Físico e Biótico da Norte Energia, fala sobre os resultados com a tranquilidade de quem acompanha essa história há tempo — mas não esconde o orgulho. "Envolvendo as pessoas da região na equipe de trabalho e desenvolvendo ações de educação ambiental, chegar a mais de 350 mil filhotes manejados em um único ano mostra a importância desse trabalho, que vem sendo construído ao longo do tempo. O alto número de ninhos protegidos e de filhotes acompanhados é resultado de um esforço diário, feito em parceria, e com impacto direto na conservação dos quelônios do Xingu." É essa dimensão humana — às vezes esquecida nos relatórios técnicos — que dá à iniciativa seu caráter mais singular. Moradores ribeirinhos que conhecem as praias pelo nome, que aprenderam a identificar uma tartaruga pelo comportamento, que escolheram se tornar guardiões de algo que sempre fez parte de sua vida, mas que agora entendem precisar de proteção ativa.

Desde que o programa foi criado, cerca de 6,8 milhões de filhotes já foram devolvidos ao rio Xingu. Seis vírgula oito milhões de começos. De histórias que se desdobram nas profundezas de um rio que ainda pulsa, apesar de tudo. Em uma Amazônia tantas vezes narrada apenas por suas feridas, o Xingu oferece uma outra história — uma em que a ciência de campo, a paciência institucional e o vínculo com o território produzem resultados que os números mal conseguem conter. Cada temporada reprodutiva é um novo capítulo. E os de 2025 dizem, com clareza, que esse foi escrito por muitas mãos — e que ainda há muitos por vir.

Saiba mais sobre as ações socioambientais da Norte Energia em norteenergiasa.com.br.

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