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Escrito por Neo Mondo | 6 de março de 2026
Economia circular começa quando mais mulheres participam das decisões que redesenham produção, inovação e futuro - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
ARTIGO
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Por - Ana Paula Bernardes*, especial para Neo Mondo
No Dia Internacional da Mulher, é fundamental reconhecer que a transição de uma economia linear para uma economia circular exige mais do que inovação tecnológica. Exige ruptura de paradigmas. E essa ruptura passa, inevitavelmente, pela questão de gênero.
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O modelo econômico linear foi historicamente estruturado sobre lógicas de concentração de poder, decisões homogêneas e separação entre produção e cuidado. A economia circular, por sua vez, propõe interdependência, colaboração, visão sistêmica e responsabilidade compartilhada ao longo de toda a cadeia. Essa mudança de mentalidade dialoga diretamente com a necessidade de ampliar vozes, incluir perspectivas diversas e questionar estruturas tradicionais de poder — inclusive as marcadas por desigualdades de gênero.
Os números mostram o tamanho do desafio. O Circularity Gap Report 2025 aponta que apenas 6,9% dos materiais utilizados globalmente retornam como recursos secundários. No Brasil, o índice é de 1,3%. A transição, portanto, é estrutural e requer decisões estratégicas profundas. Ao mesmo tempo, embora as mulheres influenciem fortemente mercados — segundo a NielsenIQ, controlando cerca de US$ 31,8 trilhões em gastos globais — ainda enfrentam sub-representação nos espaços formais de decisão econômica. No Brasil, apesar de ocuparem 37% dos cargos de liderança segundo a Grant Thornton, dados da B3 indicam que mais da metade das companhias listadas não possuem nenhuma mulher na diretoria estatutária, e 37% não têm presença feminina no conselho.
Essa assimetria revela um paradoxo: mulheres influenciam consumo, comportamento e tendências, mas ainda têm acesso limitado às instâncias onde se definem estratégias de investimento, inovação e governança. A economia circular, ao propor novos modelos de negócio, — baseados em compartilhamento, serviço, reparo, reúso e regeneração — exige justamente a quebra de padrões hierárquicos rígidos e decisões concentradas. Exige liderança distribuída, pensamento sistêmico e capacidade de integrar dimensões econômicas, sociais e ambientais.
A própria ciência e a inovação refletem esse desafio. A UNESCO indica que mulheres representam cerca de um terço dos pesquisadores no mundo. Se circularidade começa no design — no desenvolvimento de materiais seguros, engenharia reversa, cadeias rastreáveis e tecnologias de reúso — a ausência feminina em áreas de P&D limita a pluralidade de soluções concebidas. Incluir mais mulheres na pesquisa e na engenharia não é apenas promover equidade; é ampliar a inteligência coletiva necessária para reinventar sistemas produtivos.
Falar de gênero na economia circular não é adicionar uma questão “identitária” a uma agenda ambiental. É reconhecer que estruturas desiguais produzem decisões limitadas. A economia linear se sustentou por décadas em uma lógica de crescimento dissociada do cuidado com recursos e pessoas. A circularidade rompe essa lógica ao integrar regeneração ambiental, viabilidade econômica e justiça social. E essa integração demanda diversidade real nos espaços de poder.
Quebrar paradigmas significa questionar quem define o que é valor, quem decide o que é inovação e quem assume os custos ambientais e sociais da produção. Ao ampliar a presença feminina em conselhos, diretorias, centros de pesquisa e políticas públicas, não estamos apenas corrigindo uma distorção histórica; estamos fortalecendo a capacidade de transição para um modelo econômico mais resiliente.
Neste 8 de março, reconhecer o papel das mulheres na economia circular é reconhecer que sustentabilidade também é uma agenda de poder. A transição para sistemas regenerativos será mais rápida, mais inteligente e mais justa quanto maior for a participação feminina na definição de estratégias, investimentos e soluções. A economia circular não é apenas uma mudança de processo produtivo; é uma mudança de mentalidade. E toda mudança de mentalidade começa a romper estruturas que já não servem ao futuro que queremos construir.

*Ana Paula Bernardes
É Relações Institucionais Governamentais do Instituto Tran$forma , professora da pós graduação em “Geopolítica da Transição Energética” na FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política e membro do Grupo “Elas na Economia Circular”, criado para acompanhar o Fórum Nacional de Economia Circular pela perspectiva de gênero.
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