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Escrito por Neo Mondo | 19 de fevereiro de 2026
Carbono azul em foco: manguezais preservados revelam o poder silencioso dos ecossistemas costeiros na captura de carbono e na proteção do clima global - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Manguezais, marismas e pradarias marinhas emergem como ativos estratégicos da nova economia do clima — mas governança ainda é o divisor de águas
O Brasil está diante de uma oportunidade rara: transformar seus ecossistemas costeiros em protagonistas da nova economia climática. Em um momento em que o mundo corre para remover carbono da atmosfera e proteger infraestruturas naturais, o chamado carbono azul — estocado em manguezais, marismas e pradarias marinhas — começa a sair do campo acadêmico para entrar no radar de investidores, governos e grandes empresas.
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A janela é clara. E, como em toda corrida estratégica, quem estruturar primeiro, lidera.
O termo carbono azul refere-se ao carbono capturado e armazenado por ecossistemas costeiros e marinhos. Diferentemente das florestas terrestres, esses ambientes possuem uma característica poderosa: armazenam carbono por períodos muito mais longos nos sedimentos.
Estudos internacionais apontam que manguezais podem sequestrar carbono até quatro vezes mais rápido que florestas tropicais, além de manter esse carbono enterrado por séculos quando preservados.
Mas o valor do carbono azul vai além da mitigação climática. Ele conecta múltiplas agendas:
É exatamente essa natureza multifuncional que está chamando a atenção do capital global.
O Brasil reúne uma das maiores extensões de manguezais do planeta — estimativas científicas indicam cerca de 1,3 milhão de hectares, distribuídos ao longo de mais de 7 mil quilômetros de costa.
Apesar dessa vantagem comparativa, o país ainda está em fase inicial na estruturação de projetos robustos de carbono azul. Hoje, o cenário é marcado por:
Em outras palavras: o Brasil tem o ativo natural, mas ainda constrói o mercado.
O movimento global é inequívoco. Fundos climáticos, bancos multilaterais e empresas com metas de net zero começam a olhar para soluções baseadas na natureza costeira como parte do portfólio de descarbonização.
Três fatores explicam essa virada:
1. Escassez de créditos de alta integridade
O mercado busca ativos com forte base científica e benefícios adicionais.
2. Pressão por soluções baseadas na natureza (NbS)
Após anos focados apenas em energia, cresce a percepção de que a mitigação exige soluções ecossistêmicas.
3. Risco físico crescente nas zonas costeiras
Eventos extremos elevam o valor de ecossistemas que protegem o litoral.
Nesse contexto, o carbono azul surge como uma das fronteiras mais promissoras — e ainda pouco saturadas.
Apesar do potencial, especialistas alertam que o avanço do carbono azul no Brasil depende de resolver três nós críticos:
Ainda há desafios para medir, reportar e verificar (MRV) o carbono em ambientes costeiros com precisão e escala.
Grande parte dos manguezais está em áreas de uso tradicional, exigindo modelos que garantam repartição justa de benefícios.
Investidores demandam clareza regulatória sobre propriedade do carbono, permanência e riscos.
Sem esses pilares, o risco é o Brasil repetir um padrão já conhecido: liderar em potencial natural e atrasar na captura de valor.

Após a realização da COP30 no Brasil, a agenda de soluções baseadas na natureza entra em uma nova fase: a da implementação e da escala. O que antes era promessa diplomática agora passa a ser cobrado em termos de entrega concreta — especialmente por investidores e pelo setor corporativo.
Nesse novo contexto, o carbono azul ganha relevância ampliada por reunir atributos que dialogam diretamente com as prioridades climáticas globais:
Com a vitrine climática já posicionada após a COP30, o desafio brasileiro deixa de ser apenas de narrativa internacional e passa a ser, sobretudo, de estruturação de mercado, governança e escala operacional.
No pós-COP30, ativos naturais deixaram definitivamente de ser apenas patrimônio ecológico. Tornaram-se infraestrutura climática estratégica. E, nesse novo mapa de poder, quem souber transformar o azul do território em governança e escala sairá na frente.
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