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Escrito por Neo Mondo | 3 de fevereiro de 2026
Antália, cede da COP31, escancara uma pergunta incômoda para o nosso tempo: quando o clima vira palco, quem realmente conduz o roteiro? - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DE NEO MONDO
O teatro político turco da COP31 — quando o clima vira encenação de poder
Há cidades que nascem para o descanso. Outras, para a história. Antália, joia do Mediterrâneo turco, costuma ser sinônimo de resorts, ruínas clássicas e mar azul. Em novembro de 2026, porém, ela muda de figurino. Entre os dias 9 e 20, Antália se transforma no palco central de uma das mais complexas encenações geopolíticas da década: a COP31.
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Mas quem espera apenas debates técnicos sobre carbono, financiamento climático ou transição energética corre o risco de perder o enredo principal. A COP31, na Turquia, não é só uma conferência do clima. É um ato político cuidadosamente coreografado.
E o diretor dessa peça tem nome, sobrenome e ambição histórica: Recep Tayyip Erdoğan.
Na narrativa construída por Erdoğan, a COP31 pouco tem a ver com partes por milhão de CO₂. Tem a ver com imagem, legitimidade e sobrevivência política.
O presidente turco cultiva há anos uma autoimagem neo-otomana — a do líder forte, soberano, capaz de desafiar o Ocidente sem romper com ele; dialogar com o Sul Global sem abandonar alianças estratégicas. Para seus apoiadores, ele é o “Homem Alto”, uma espécie de herdeiro simbólico de Süleyman, o Magnífico. Para seus críticos, um exemplo acabado do autoritarismo competitivo do século XXI.
A COP surge, então, como cenário perfeito. Enquanto líderes globais desfilam por Antália, Erdoğan projeta para dentro do país a imagem de árbitro indispensável do mundo — num momento em que a democracia local encolhe, prefeitos da oposição são afastados e a crise do custo de vida corrói o cotidiano.
O clima vira cenografia.
O erro mais comum — e preguiçoso — é ler a Turquia como uma simples ponte entre Oriente e Ocidente. Essa lente orientalista empobrece a análise e mascara o essencial.
A Turquia é hoje uma potência média hipertransacional. Um país que negocia com todos, muda de posição quando convém e opera numa lógica de sobrevivência política permanente.
• Media conflitos como a guerra Rússia–Ucrânia
• Compra sistemas russos S-400 e segue na OTAN
• Expande influência na África sem condicionalidades democráticas
• Consolida-se como hub energético entre Cáspio, Europa e Oriente Médio
Essa fluidez é a marca de Erdoğan. Ele pode demonizar atores curdos numa eleição — inclusive com campanhas de desinformação e deepfakes — e, poucos anos depois, negociar um processo de paz com esses mesmos grupos. Não por convicção. Por cálculo.
A COP31 entra exatamente nesse jogo.
Diferente de petroestados clássicos, a Turquia não nega a ciência climática. Reconhece o problema, mas o subordina rigidamente a três pilares:
A relação do país com a UNFCCC sempre foi ambígua. Classificada como país desenvolvido em 1992 por ser membro da OCDE, a Turquia passou décadas contestando esse rótulo para acessar financiamento climático. Ficou isolada. Não integrou blocos como G77 ou Umbrella Group. Não desenvolveu musculatura diplomática climática.
A ratificação do Acordo de Paris, em 2021, não foi virada ambiental. Foi negociação econômica. Um pacote de € 3,1 bilhões com países europeus e bancos multilaterais permitiu a Erdoğan vender a ratificação como vitória soberana — e como escudo contra o CBAM europeu.
Clima, aqui, é moeda de troca.
Talvez o movimento mais revelador da COP31 seja este:
A Turquia sedia. A Austrália negocia.
Na prática, Ancara transferiu a condução técnica das negociações para os australianos, ficando com o protagonismo performático: chefes de Estado, anúncios, fotos, discursos. É uma divisão de trabalho explícita entre substância e espetáculo.
Enquanto isso, a Turquia exibe avanços reais — e seletivos — em energia solar e eólica, não por altruísmo climático, mas para reduzir a conta de importação energética. Ao mesmo tempo, mantém laços profundos com o carvão doméstico e com aliados fósseis estratégicos como Rússia, Azerbaijão e Catar.
O discurso avança. O sistema trava.
As COPs já vinham enfrentando um esvaziamento político gradual. Antália pode aprofundar esse movimento.
• Acesso restrito
• Sociedade civil doméstica sob pressão
• ONGs criminalizadas
• Participação física cada vez mais cara
Nesse cenário, há um risco real de que a COP31 entregue uma vitória de papel: textos elegantes, declarações não vinculantes, manchetes otimistas — e pouca transformação estrutural.
Para Erdoğan, pressionar pela eliminação dos combustíveis fósseis é perigoso. Seus aliados regionais dependem deles. Romper esse eixo pode custar caro demais.
A pergunta incômoda emerge: o clima será protagonista ou figurante?
Para ambientalistas, movimentos sociais e a esquerda turca, a COP31 não é só uma cúpula climática. É uma chance rara de expor contradições, denunciar greenwashing e usar o holofote global contra um regime cada vez mais fechado.
Mas há um dilema real:
Criticar o anfitrião pode empurrar o tema climático para fora do centro do palco. Silenciar, por outro lado, transforma a conferência em propaganda.
Em Antália, toda vitória climática terá rosto político. E toda crítica ao rosto político pode custar espaço ao clima.
Talvez a pergunta não seja se Antália entregará um “grande acordo”. Mas outra, mais desconfortável:
👉 O que significa vencer numa COP montada como teatro geopolítico?
• Seria um salto real em financiamento público — doações, não empréstimos — ao Sul Global?
• Um compromisso verificável de expansão massiva de renováveis?
• Um hub de finanças verdes com regras claras e transparência?
• Ou apenas mais uma encenação diplomática bem iluminada?
Se Erdoğan é, de fato, hiperpragmático, a chave pode estar em oferecer vitórias verdes mais valiosas para sua sobrevivência do que seus vínculos fósseis. O desafio da imprensa será identificar quando isso acontece — e quando não passa de cenário.
Na COP31, o papel da cobertura jornalística será decisivo. Não apenas reportar o texto final, mas testar a realidade por trás da narrativa.
Medir impacto. Comparar promessas com números. Expor o que ficou de fora. Manter o clima no centro mesmo quando o palco tenta roubá-lo.
Porque, em Antália, talvez a maior vitória não seja um acordo histórico — mas impedir que a crise climática vire apenas mais um figurante numa peça de poder.
E isso, no mundo de hoje, já seria um ato profundamente político.
*Com informações de Cínthia Leone, ClimaInfo.
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