Carbono Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação

Por que o desperdício de alimentos e a gestão de resíduos precisam entrar na pauta da COP30?

Escrito por Neo Mondo | 19 de novembro de 2025

Compartilhe:

Desperdício e o prato invisível da COP30.Foto: Divulgação

ARTIGO

Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização

Por - Lucas Infante* e Lucas Urias*, especial para Neo Mondo

Enquanto a COP30 acontece em Belém do Pará, o mundo acompanha de perto as decisões que devem moldar o futuro climático das próximas gerações. A expectativa é de compromissos mais ousados, investimentos mais robustos e, sobretudo, ações mais concretas. Mas há um tema que, apesar de seu peso ambiental e social, ainda segue à margem das negociações: o desperdício de alimentos e a gestão de resíduos.

Leia e assista também: COP30 — Dia 9: O Oceano ocupa tudo — dados abertos, planos globais, economia azul, cinema ambiental e o Brasil de volta ao centro das decisões

Leia e assista também: COP30 — Dia 8: A Carta de Belém, microplásticos em nossos alimentos e o oceano como potência de captura de carbono

Segundo a ONU, 1,3 bilhão de toneladas de comida são desperdiçadas todos os anos. Um número que não reflete apenas desigualdade e descuido, mas também uma gigantesca pegada de carbono. Da produção ao transporte, cada alimento consome água, energia, solo fértil e emite gases de efeito estufa. Quando descartado, parte dessas emissões retorna à atmosfera, sobretudo quando não há gestão ambiental adequada, liberando metano, um gás muito mais potente que o CO₂.

Em outras palavras, cada fruta, pão ou pedaço de carne desperdiçado representa um duplo desperdício: ambiental e humanitário. O IPCC estima que o desperdício de alimentos responda por cerca de 8% das emissões globais, mais do que o setor de aviação e transporte marítimo juntos. Em um planeta marcado por fome crescente e escassez de recursos, continuar ignorando esse tema nas cúpulas climáticas é uma contradição moral e estratégica.

foto de lucas infante, autor do artigo Por que o desperdício de alimentos e a gestão de resíduos precisam entrar na pauta da COP30?
Lucas Infante - Foto: Matheus Toledo

Mas a boa notícia é que existem soluções comprovadas. A França proibiu supermercados de descartar alimentos e tornou obrigatória a doação. Copenhague e Milão implementaram redes públicas de redistribuição de excedentes, inspirando políticas semelhantes em várias partes do mundo. Essas experiências mostram que enfrentar o desperdício não depende de soluções distantes, mas da união entre inovação e tecnologia como motores de mudança, apoiadas por políticas públicas que conectam governos, empresas e sociedade em uma mesma agenda sustentável.

O mesmo vale para a gestão de resíduos sólidos, frente que evidencia que o problema não termina no prato, mas no que fazemos com o que sobra. Quando o alimento não é reaproveitado, ele entra em um ciclo que ainda pode gerar valor, desde que o destino seja planejado e tratado de forma ambientalmente correta. No Brasil, cerca de 45% dos resíduos urbanos são orgânicos, mas apenas uma fração inferior a 1% é destinada à compostagem. No contexto global, esse número também é alarmante: a compostagem responde por apenas cerca de 8,5% dos resíduos sólidos urbanos, segundo estudos internacionais, mostrando que o desafi o é universal.

A compostagem, porém, é o elo que conecta o início e o fi m da cadeia. Transformar restos orgânicos em insumo agrícola é devolver à terra o que dela veio. Essa prática reduz emissões de gases de efeito estufa, substitui fertilizantes químicos e fortalece a agricultura regenerativa. Em operações integradas, o tratamento de resíduos orgânicos já tem mostrado resultados expressivos, convertendo milhares de toneladas de matéria orgânica em composto de alto valor agronômico, utilizado na recuperação de solos e em cultivos sustentáveis. Em escala global, a gestão inadequada de resíduos sólidos urbanos é responsável por cerca de 1,6 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente emitidas a cada ano, o que evidencia o potencial da compostagem e de outras soluções circulares para reverter esse quadro.

Essa abordagem evidencia que a solução climática não está apenas em evitar o desperdício, mas também em valorizar o que inevitavelmente sobra. Fechar o ciclo do alimento, do consumo à regeneração, é o caminho para uma economia verdadeiramente circular, onde cada etapa tem função e propósito. É o que transforma o conceito de descarte em oportunidade e o de resíduo em recurso. Na União Europeia, por exemplo, são gerados entre 118 e 138 milhões de toneladas de biowaste todos os anos, mas menos de 40 milhões acabam sendo reciclados ou compostados, um dado que reforça o tamanho da oportunidade global.

Ao levar essa discussão para a COP30, o Brasil tem a chance de mostrar que enfrentar o desperdício e gerir resíduos com responsabilidade são partes de uma mesma agenda. Incorporar o tema dos orgânicos na pauta climática é reconhecer que a transição verde não depende apenas do que deixamos de jogar fora, mas de como transformamos o que sobra em valor ambiental e social.

Se a COP30 quer realmente ser o ponto de virada da ação climática, precisa colocar o prato invisível no centro da mesa. Não há transição verde completa sem repensar o que produzimos, consumimos e descartamos.

Lucas Urias - Foto: Divulgação/Grupo Multilixo

E nós, cidadãos? Também temos parte nesse desafio. Rever hábitos, planejar melhor compras, valorizar o reaproveitamento e cobrar políticas públicas eficazes são gestos simples, mas poderosos.

A pergunta que fica é: continuaremos servindo o planeta com promessas ou finalmente iremos eliminar o desperdício do prato?

*Lucas Infante, CEO da Food To Save
Formado em Administração pela PUC-Campinas e pós-graduado em Gestão de Negócios pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), Lucas Infante atuou na administração de grandes negócios, como a Ultragaz e o Carrefour na Espanha. Desde jovem, tinha uma inquietação sobre o destino da comida jogada fora e o desperdício de comida no mundo. Por isso, em 2021, fundou a Food To Save, app nº1 no combate ao desperdício de alimentos no Brasil, com o propósito de revolucionar o desperdício de alimentos no país, além de promover o acesso a bons alimentos, de forma mais sustentável e ajudando o meio ambiente. Foi eleito empreendedor do ano pela EY, reconhecido como um dos Top 50 Creators do LinkedIn na categoria Food
Industry & Food Tech e já participou de importantes fóruns e eventos nacionais e internacionais, participando de debates sobre o desperdício de alimentos no Brasil e como a tecnologia pode colaborar para mudar essa realidade.

*Lucas Urias, Diretor de Estratégia e Inovação do Grupo Multilixo
Diretor de Estratégia e Inovação do Grupo Multilixo, onde lidera iniciativas voltadas à transformação digital, sustentabilidade e crescimento estratégico da empresa. É bacharel em Administração com ênfase em Finanças pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e possui formação executiva pelo Advanced Program do Insper. Ao longo da carreira, tem se dedicado à implementação de soluções inovadoras no setor de gestão de resíduos e economia circular, conectando tecnologia e impacto socioambiental.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

O Brasil aprovou a sua própria bomba-relógio ambiental

ArcelorMittal transforma sucata em estratégia

Carbono azul reposiciona o Brasil no mercado global de soluções climáticas


Artigos relacionados