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Atuação em rede descentralizada e apoio a proprietários rurais podem restaurar até 20% mais floresta na Mata Atlântica, mostra estudo científico

Escrito por Neo Mondo | 21 de dezembro de 2025

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Foto: Flavio Forner

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Coalizão liderada por organizações brasileiras mostra eficácia na recuperação florestal e pode inspirar estratégias globais de restauração

Um estudo publicado na prestigiada revista científica Nature Communications oferece a primeira evidência em larga escala do impacto positivo de uma estratégia brasileira de aceleração da restauração. A análise comprova que a atuação em redes descentralizadas, associada ao apoio técnico e financeiro a proprietários rurais na Mata Atlântica, um dos biomas mais biodiversos, mas também mais ameaçados do planeta, aumentou a recuperação da cobertura florestal em 10 a 20 pontos percentuais em média nas áreas apoiadas, em comparação com áreas similares sem o apoio do programa.  

A pesquisa avaliou os resultados de ações coordenadas pelo Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Pacto) em seis estados da Mata Atlântica – Bahia (BA), Espírito Santo (ES), Paraná (PR), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Minas Gerais (MG) – no período de 2000 a 2018. Os autores compararam a recuperação florestal em áreas em restauração que receberam apoio do Pacto a partir de 2010 com um grupo controle estatisticamente similar, isolando o impacto direto da intervenção. Os resultados mostram que esse apoio do Pacto gerou um aumento médio de 9,9 pontos percentuais na conversão de áreas não florestadas, quando a área analisada tinha qualquer sobreposição com o programa. Cada área avaliada conta com dois hectares. Para parcelas totalmente cobertas pelo programa, o aumento na recuperação florestal chegou a aproximadamente 20 pontos percentuais. 

Segundo os autores, o sucesso da iniciativa está diretamente ligado à governança descentralizada e à presença ativa nos territórios, com Unidades Regionais que oferecem suporte técnico, produzem  mudas, fortalecem redes locais e compartilham conhecimentos. O estudo demonstra também que a restauração em larga escala em terras privadas depende de um contexto institucional e econômico favorável. A pesquisa confirmou que a decisão de restaurar é primariamente financeira para os proprietários rurais. Os impactos foram significativamente maiores em áreas mais remotas, onde os custos de oportunidade (lucros cessantes de usos alternativos da terra, como agricultura) são mais baixos. Além disso, os maiores efeitos foram observados nos estados com maior atividade de fiscalização ambiental, como Bahia e Paraná. Nesses estados, a conformidade com o Código Florestal, que exige a reserva de 20% da terra como Reserva Legal, é um fator crucial, pois reduz o risco de multas e facilita o acesso a crédito agrícola.

A restauração total resultante da intervenção do Pacto foi de aproximadamente 4.600 hectares de floresta no período de 2010 a 2018, apenas na amostra analisada. Esse nível de restauração corresponde a 21% da área total restaurável (21.800 hectares) da amostra de estudo, comprovando que a restauração em larga escala é viável. Os autores ressaltam que este é um resultado conservador  do impacto total do Pacto, uma vez que a amostra cobre apenas uma parte das propriedades apoiadas.

“O Pacto atua onde os desafios são maiores: custos altos, lacunas técnicas e baixa rentabilidade no curto prazo. A articulação entre diferentes setores e territórios permite superar essas barreiras com soluções adaptadas a cada realidade local”, explica Ludmila Pugliese, diretora de restauração de paisagens e florestas da Conservação Internacional (CI-Brasil), que coordenou o Pacto por oito anos e é coautora do estudo.

Além de Ludmila, o artigo também é assinado por Alex Mendes, Secretário Executivo do Pacto até 2025. Para ele, o estudo comprova cientificamente o que se observa na prática: “Resultados duradouros na restauração dependem da construção coletiva, do fortalecimento das lideranças locais e da conexão entre ciência, políticas públicas e ação em campo.” 

A CI-Brasil integra o Conselho de Coordenação do Pacto, uma coalizão multissetorial formada por centenas de instituições que atuam de forma articulada para restaurar ecossistemas da Mata Atlântica, e aplica as recomendações da coalizão em seus projetos no país. A organização atua em diferentes biomas com foco em soluções baseadas na natureza (SBN) para enfrentar a crise climática e a crise da biodiversidade.  Para os autores, o modelo do Pacto representa um caminho viável e eficaz para escalar a restauração florestal como estratégia de conservação no Brasil e em outros países tropicais, especialmente no contexto da Década da Restauração da ONU.

Foto: Flavio Forner

O estudo publicado na Nature Communications é de autoria de Roberto Toto e Jennifer Alix-García, do Departamento de Economia Aplicada da Universidade Estadual do Oregon; Katharine R. E. Sims, dos Departamento de Economia e Departamento de Estudos Ambientais do Amherst College;  Carlos Muñoz Brenes, do Centro Moore de Conservação Internacional; Alex Fernando Mendes, do Pacto de Restauração da Mata Atlântica;  Bruno Coutinho e Ludmila Pugliese, da Conservação Internacional (CI-Brasil).  

Sobre o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica - O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Pacto) é um movimento multissetorial brasileiro, criado em 2009, que reúne mais de 270 membros, incluindo organizações não governamentais (ONGs), empresas, centros de pesquisa e órgãos governamentais. O Pacto atua nos 17 estados da Mata Atlântica com o objetivo de integrar pessoas e instituições para restaurar o bioma em larga escala. Sua meta ambiciosa é viabilizar a recuperação de 15 milhões de hectares até o ano de 2050. O movimento funciona como uma rede de compartilhamento de conhecimento e métodos, aplicando um protocolo comum de monitoramento e auxiliando implementadores a garantir financiamento para projetos de restauração, que incluem desde o plantio ativo até a regeneração natural assistida. O Pacto é um exemplo de como a colaboração descentralizada pode ser eficaz para cumprir as metas de restauração do Brasil.

Sobre a Conservação Internacional - A Conservação Internacional (CI-Brasil) é uma organização sem fins lucrativos que usa ciência, política e parcerias para proteger a natureza da qual as pessoas dependem para obter alimentos, água doce e meios de subsistência. Desde 1990 no Brasil, a Conservação Internacional trabalha em mais de 30 países em seis continentes para garantir um planeta saudável e próspero, que sustenta a todos. A CI-Brasil integra o Conselho de Coordenação do Pacto e aplica as recomendações da coalizão em seus projetos no país. Mais informações: www.conservacao.org.br.


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