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Escrito por Neo Mondo | 1 de junho de 2026
IA e humanidade frente a frente: a tecnologia pode acelerar o futuro, mas continua sendo o talento humano que dá direção, propósito e significado à inovação - Foto: Ilustrativa/Magnific
ARTIGO
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Por - Lorena Nogaroli*, especial para Neo Mondo
Quando falamos em ESG, costumamos associar o conceito às mudanças climáticas, à diversidade, à governança corporativa e ao impacto social das organizações. No entanto, um novo desafio começa a surgir no horizonte e merece atenção urgente das lideranças empresariais: como garantir a sustentabilidade econômica e social do mercado de trabalho?
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Recentemente, a revista The Economist publicou uma análise provocativa intitulada “The Jobs Apocalypse: A Very Short History”. O artigo revisita séculos de transformações tecnológicas e conclui que previsões de desemprego em massa costumam falhar. Da mecanização agrícola à Revolução Industrial, da automação fabril à informática, a história mostra que novas tecnologias eliminam funções específicas, mas também criam novas oportunidades.
Essa perspectiva é importante e oferece razões para o otimismo. No entanto, existe uma questão menos visível que merece ser incorporada ao debate ESG: o que acontece quando a tecnologia não elimina apenas empregos, mas também as oportunidades de formação profissional?
A Inteligência Artificial está avançando rapidamente sobre tarefas que tradicionalmente eram desempenhadas por estagiários, trainees e profissionais em início de carreira. Relatórios preliminares, pesquisas básicas, produção de conteúdo, programação de baixa complexidade, análises operacionais e atendimento ao cliente são algumas das atividades que já podem ser executadas por sistemas inteligentes com elevada eficiência.
Sob a lógica da produtividade, essa transformação parece inevitável. Empresas que utilizam IA conseguem reduzir custos, acelerar processos e aumentar sua competitividade. Mas a sustentabilidade exige uma visão de longo prazo.
E é justamente nessa perspectiva que surge uma preocupação relevante. Toda organização depende de uma cadeia contínua de desenvolvimento de talentos. Os especialistas, gestores e líderes do futuro são formados a partir das oportunidades oferecidas aos profissionais iniciantes de hoje. Quando uma empresa contrata um jovem em início de carreira, não está apenas preenchendo uma vaga operacional. Está investindo na construção de sua futura capacidade produtiva.
Se a automação eliminar de forma significativa essas portas de entrada, poderemos criar um problema estrutural que transcende empresas individuais. Quem serão os especialistas em cibersegurança daqui a dez anos se os profissionais de hoje não conseguirem ingressar na área?
Quem serão os gestores de inovação, cientistas de dados, engenheiros, consultores ou executivos do futuro se não houver espaço para desenvolver experiência prática? A experiência profissional não é produzida por algoritmos. Ela é construída ao longo do tempo.
Esse risco não é apenas social. É econômico. Da mesma forma que a sustentabilidade ambiental exige a preservação dos recursos naturais para as próximas gerações, a sustentabilidade econômica exige a preservação dos mecanismos de formação de capital humano. Afinal, conhecimento, experiência e qualificação também são recursos estratégicos.
Empresas que enxergam apenas os ganhos imediatos da automação podem descobrir, no futuro, que contribuíram para a redução da oferta de profissionais qualificados no mercado. O resultado pode ser uma escassez crescente de talentos, aumento dos custos de contratação e perda de capacidade de inovação.
Sob essa perspectiva, a discussão sobre Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma pauta tecnológica e passa a ser uma questão de responsabilidade corporativa. Organizações comprometidas com princípios ESG precisam refletir sobre o papel que desempenham na formação da próxima geração de profissionais.
Isso não significa frear a inovação, mas construir uma transição responsável. Significa criar programas de desenvolvimento que integrem jovens profissionais ao uso da IA, adaptar modelos de estágio, investir em capacitação contínua e reconhecer que produtividade e desenvolvimento humano não são objetivos incompatíveis.
A história mostra que as sociedades prosperam quando conseguem transformar avanços tecnológicos em progresso compartilhado. A IA oferece uma oportunidade extraordinária para ampliar produtividade, competitividade e crescimento econômico.
Mas sua adoção também exige uma reflexão fundamental: a sustentabilidade não depende apenas de preservar o planeta, mas também de preservar as condições que permitem às futuras gerações trabalhar, aprender, inovar e liderar.
Se queremos que a IA seja uma aliada do desenvolvimento sustentável, precisamos garantir que ela não feche as portas justamente para aqueles que serão responsáveis por construir o futuro.
*Lorena Nogaroli é jornalista, fundadora da Central Press, que já empregou mais de 600 estagiários.

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