Ciência e Tecnologia COPs Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Política Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 20 de novembro de 2025
Quando cientistas precisam gritar, é porque o mundo deixou de ouvir - Foto: Divulgação
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Manifesto duro, alerta claro e uma provocação direta aos negociadores: proteger vidas ou proteger combustíveis fósseis?
Eu confesso: às vezes, mesmo cobrindo COPs há tantos anos, ainda me sinto estremecido quando vejo a ciência bater de frente com a política. E hoje, na COP30, esse confronto ganhou contornos quase cinematográficos.
Leia também: Quando o planeta supera seus próprios recordes — e o alarme ressoa
Leia também: Terra ultrapassa mais um limite: os oceanos entram na zona de risco
Era início da tarde quando uma pequena multidão começou a se formar em frente ao Pavilhão de Ciências Planetárias. Sabe aquele burburinho que antecede algo grande? Pois é. E não deu outra. Cientistas climáticos — muitos dos maiores nomes do planeta — surgiram juntos, determinados, carregando um manifesto que, sinceramente, não é só um documento: é um soco na mesa da história.
“Provocação.”
Essa foi a palavra escolhida pelos cientistas para definir as propostas apresentadas até agora sobre combustíveis fósseis e desmatamento. E, olha, quando a ciência usa a palavra “provocação” publicamente, é porque já passamos de todos os limites razoáveis.
Carlos Nobre, uma das vozes mais influentes da ciência climática brasileira e um profundo conhecedor da Amazônia, sintetizou o drama em poucas palavras — daquelas que gritam mesmo depois que a voz já silenciou:
“A COP30 tem uma escolha a fazer: proteger as pessoas e a vida ou proteger a indústria de combustíveis fósseis.”
Fiquei parado ali, notebook na mão, tentando absorver o peso disso. Porque não é retórica. É real. É urgente. É agora. Nobre lembrou que já estamos vivendo perigos, que bilhões de pessoas sofrem, que os pontos de inflexão — especialmente na Amazônia e nos recifes de corais — não são mais um fantasma distante. Eles já estão batendo à porta.
E se tem alguém que entende o que significa “ponto de inflexão” é ele.
Outro que não economizou nas palavras foi Johan Rockström, diretor do Potsdam Institute e uma das autoridades mais respeitadas em limites planetários. Ele criticou abertamente o primeiro rascunho do “Mutirão”, apresentado pela presidência da COP. Segundo ele, o texto simplesmente não cumpre o papel de ser um roteiro real.
“Os delegados parecem não entender o que é um roteiro. Um roteiro precisa nos mostrar o caminho. De onde estamos, para onde precisamos ir, e como chegar lá.”
E ele foi além:
zerar emissões até 2045 só será possível se o mundo parar imediatamente de financiar a expansão dos fósseis, eliminar subsídios e criar um plano global de transição justa para energias renováveis.
Simples? Não.
Possível? Totalmente.
Necessário? Mais do que nunca.
Thelma Krug, presidente do Conselho Científico da COP30, participou de uma coletiva mais conciliadora — mas nem por isso menos enfática. Ela lembrou que são 196 países, cada um com seus medos, pressões internas e limites políticos.
E, mesmo assim, ela acredita. Acredita que é possível construir um mapa do caminho real, desde que os países apresentem seus próprios planos concretos rumo ao net zero. Não mais metas abstratas — mas trajetórias possíveis.
A sinceridade dela me tocou. Porque ser otimista nesse contexto não é ingenuidade. É resistência.
O manifesto — que será entregue aos negociadores, ao presidente da COP André Corrêa do Lago, à CEO Ana Toni e ao presidente Lula — é só o começo.
Carlos Nobre ainda revelou algo que pode mudar o rumo das próximas COPs:
Um painel científico específico para transição energética e eliminação de combustíveis fósseis.
Ele será criado agora, será apresentado em Bogotá em abril e lançará seu primeiro relatório já na COP31.
Quando escutei isso, fiquei arrepiado. Porque não se trata apenas de protesto. É proposta. É construção. É caminho.
Vou ser muito sincero: há momentos na COP30 em que sinto que o mundo está prestes a fazer escolhas perigosas demais. O lobby fóssil é pesado, barulhento e persistente. Mas também há momentos — como hoje — em que a ciência fala alto, fala claro, fala com coragem.
E, quando ela fala, eu acredito que ainda há saída.
A manifestação desses cientistas não é contra a COP. É pelo planeta. É por nós. É pelo direito de existir em um mundo que não arde, não afoga e não sufoca seus próprios habitantes.
Se a COP30 realmente quer entrar para a história, está diante da sua maior encruzilhada.
Como disse Nobre:
“A transição energética necessária é totalmente factível.”
Resta saber se teremos coragem de escolher esse caminho.
E, honestamente?
A história não costuma perdoar quem escolhe tarde demais.
Semente de planta comum no Brasil mostra potencial para remoção de microplásticos da água
Bioinsumo à base de microalgas pode reduzir a dependência de fertilizantes agrícolas