Ciência e Tecnologia Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 8 de setembro de 2025
Decepción, na Antártida: ecossistema poliextremo, ilha registra temperaturas muito altas ou muito baixas, alterações de pH e intensa radiação ultravioleta - Foto: Wikimedia Commons
Por - Thais Szegö | Agência FAPESP / Neo Mondo
Substância é essencial para garantir a sobrevivência do micróbio em ambiente com características extremas e mostrou ter propriedades antioxidantes, emulsificantes e estabilizantes
Um composto bioativo produzido pelo microrganismo Bacillus licheniformis, encontrado na Ilha Decepción, na Antártida, tem propriedades que o qualificam para uso na produção de alimentos, cosméticos, produtos farmacêuticos e materiais biodegradáveis.
Leia também: Bactérias associadas a insetos podem ser ferramenta para agricultura sustentável
Leia também: Diversificação de culturas agrícolas pode mais que dobrar a fixação de carbono
O achado resulta de projeto liderado pelo Instituto Antártico Chileno e recebe apoio da FAPESP por meio do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) sediado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP).
Os resultados da pesquisa foram publicados no International Journal of Biological Macromolecules.
A Ilha Decepción foi escolhida como foco do estudo por ser um ecossistema poliextremo, ou seja, um ambiente com temperaturas muito altas ou muito baixas, alterações de pH e intensa radiação ultravioleta. Tais características obrigam os microrganismos da região a desenvolver habilidades metabólicas e fisiológicas especiais.
Entre essas adaptações está a produção de exopolissacarídeos, polímeros de açúcar que são secretados por bactérias, fungos, leveduras e algas e desempenham papel crucial na sua proteção contra os estresses provocados pelo ecossistema poliextremo. Em ambientes hostis, a substância protege as células microbianas de desidratação, pressão osmótica, substâncias tóxicas e ataques de fagos (vírus que infectam bactérias), além de facilitar a comunicação entre as células (leia mais em: agencia.fapesp.br/41090 e agencia.fapesp.br/53965).
“Por isso, isolamos uma cepa do Bacillus licheniformis encontrada em água fumarólica [líquido presente em uma abertura na crosta terrestre de onde são liberados vapor d’água, gases e minerais provenientes de atividade vulcânica] que, apesar de estar na Antártida, chega a temperaturas superiores a 100 °C, e fizemos a análise do seu genoma”, explica João Paulo Fabi, professor do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da FCF-USP, também apoiado em seus estudos pela FAPESP e um dos autores do artigo.
O sequenciamento genômico identificou genes relacionados à biossíntese de exopolissacarídeos com boa resistência à radiação ultravioleta e adaptação térmica. Além disso, suas propriedades funcionais se revelaram superiores às da goma xantana comercial – produzida pela bactéria Xanthomonas campestris e empregada como espessante, estabilizante e emulsificante na indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/estabilizante-a-partir-da-cana/) .
“Essas características tornam o exopolissacarídeo produzido pelo Bacillus licheniformis um forte candidato para aplicações biotecnológicas que exigem estabilidade e bioatividade”, aponta Fabi. “Ele oferece proteção antioxidante, maior vida útil, estabilidade de emulsão e aprimoramento de textura, particularmente em alimentos funcionais. Sua estabilidade térmica e tolerância a pH extremo também o tornam promissor para cosméticos, produtos farmacêuticos e materiais biodegradáveis em diversas outras áreas.”
O artigo Structural characterization and biotechnological potential of an exopolysaccharide produced by Bacillus licheniformis F2LB isolated from Fumarole Bay of Deception Island, Antarctica pode ser lido AQUI.
Semente de planta comum no Brasil mostra potencial para remoção de microplásticos da água
Bioinsumo à base de microalgas pode reduzir a dependência de fertilizantes agrícolas