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Escrito por Neo Mondo | 11 de junho de 2026
Brasil: planta piloto de geração solar fotovoltaica flutuante da AXIA Energia no reservatório de Sobradinho (BA), o maior lago artificial da América Latina em área de superfície — Foto: Divulgação/AXIA Energia
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
O Brasil tem sol, vento e água em abundância. Tem a matriz elétrica mais renovável entre as grandes economias do mundo. Tem o maior reservatório artificial da América Latina, rios que atravessam três biomas e um Nordeste que concentra o maior potencial eólico e solar do continente. E mesmo assim, em 2025, cerca de 20% de toda a energia renovável gerada no país foi cortada antes de chegar ao consumidor. As perdas associadas à energia não despachada ultrapassaram R$ 2 bilhões em doze meses. O problema não é falta de geração. É falta de inteligência para usar o que já existe.
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É dentro dessa contradição que a AXIA Energia — maior empresa de geração renovável do Hemisfério Sul, responsável por 17% da capacidade instalada do Brasil e por 37% de todas as linhas de transmissão do Sistema Interligado Nacional — vem construindo, nos últimos anos, um conjunto de laboratórios a céu aberto no sertão nordestino. Três instalações, cerca de R$ 300 milhões investidos, tecnologias que individualmente existem em outros lugares do mundo mas que em combinação não existem em nenhum outro lugar. O homem que coordena esse programa é Juliano Dantas, vice-presidente de Tecnologia e Inovação da empresa. Em entrevista exclusiva ao Neo Mondo, ele fala sobre o que esses laboratórios estão revelando — e sobre o que o Brasil ainda precisa decidir.
Juliano, uma empresa de capital aberto responde a trimestres. A tecnologia HCPV do CRESP levou anos entre a concepção e o piloto operacional. Como o senhor constrói dentro da AXIA o espaço institucional que a inovação de fronteira precisa para respirar?
Na AXIA criamos um portfólio equilibrado de inovaçõe e temos inovações para o negócio de hoje e inovações incrementais que nos ajudam a melhorar a nossa operação, engenharia, áreas corporativas e comercialização. São melhorias que vão evoluindo os processos, com ganhos de eficiência mais marginais, mas também mais imediatos.
Temos também outras inovações que compõem esse portfólio que estão olhando para negócios ou tecnologias emergentes que farão parte do nosso negócio do futuro. Uma parte do nosso portfólio, portanto, nós colocamos nesse horizonte de um prazo mais distante. A heliotérmica se encaixa nesse perfil. É algo que nós visualizamos como tendência, um futuro onde cada vez mais sistemas com armazenamento de energia serão necessários.
A partir desses experimentos nós obtemos uma familiaridade com a tecnologia. Atualmente nós conseguimos operar a tecnologia com uma escala representativa do que seria um campo maior e permite fazermos escolhas tecnológicas que melhor se adaptem à nossa necessidade no Brasil, incluindo a possibilidade de aumentar o conteúdo nacional e reduzir os custos dessas tecnologias em aplicações futuras.
A companhia entende que é importante ter um portfólio equilibrado com tecnologias disruptivas até para negócios emergentes e tecnologias incrementais para os negócios de hoje e também tecnologias mais agressivas que vão garantir o nosso crescimento em novos leilões e novos ativos da empresa. Todo esse portfólio é equilibrado para maximizar o valor da empresa em todos os horizontes.
O modelo ANEEL de P&D existe há 25 anos no Brasil. O que o polo do Nordeste — CRESP, Casa Nova, Sobradinho — demonstra sobre o que esse modelo pode produzir quando há uma visão estratégica por trás do investimento, e não apenas cumprimento regulatório?
Essa é uma oportunidade que a regulação dá para que as empresas façam investimentos que possam gerar impacto na sua operação, nos seus ativos, na produtividade e no resultado do seu negócio.
A nossa empresa encara como algo complementar à nossa estratégia de tecnologia e inovação e a gente entende a importância de fazer o uso buscando a geração de valor.
A nossa filosofia é buscar entregas de valor para alocar esses recursos de P&D em projetos que já nós já faríamos, que já faziam sentido fazer independente da origem do recurso. O recurso vem para que a gente faça uma alocação eficiente dada essa nossa filosofia.
De fato, se a filosofia for apenas cumprir uma obrigação, acaba que esse uso não é feito da melhor maneira. Mas o uso eficiente do recurso depende de uma empresa que queira isso, uma estrutura que permita isso, e de um mindset de inovação que a companhia precisa ter em toda a sua estrutura organizacional, não só na área de inovação.
A cultura de inovação é a cultura da nossa companhia como um todo e não de uma área só. A companhia tem essa cultura que nos permite fazer apostas que podem se tornar bastante promissoras no futuro.
A Planta Híbrida de Casa Nova testa, em escala controlada, soluções para um problema que existe em escala nacional — o curtailment no Nordeste. Qual é o caminho entre o que se aprende num microgrid de pesquisa e a mudança real no comportamento do sistema elétrico brasileiro?
A Planta Híbrida de Casa Nova funciona como um “laboratório real”, onde se desenvolvem e validam lógicas operativas (controle, uso de BESS e cargas flexíveis) para reduzir curtailment e otimizar o despacho. Uma vez comprovadas, essas soluções são parametrizadas e replicadas em outros ativos , pois já nascem alinhadas aos requisitos do SIN e às regras operativas.
Três sites, R$ 300 milhões investidos, tecnologias que individualmente existem em outros lugares do mundo mas que em combinação não existem em nenhum outro lugar. O que essa combinação específica está permitindo aprender que não seria possível aprender de outra forma?
Essa combinação está permitindo aprender como o sistema funciona como um todo — não só as partes isoladas. Com esses projetos conseguimos analisar as interações entre geração, armazenamento e carga, incluindo despacho, estabilidade, qualidade de energia e resposta a restrições do sistema. O diferencial não é cada tecnologia em si, mas a orquestração entre elas — permitindo aprender como transformar um conjunto de ativos em um sistema flexível e otimizado, algo que não seria possível estudando cada elemento separadamente.
A planta flutuante de Sobradinho monitora continuamente um reservatório que opera sobre o maior rio totalmente brasileiro. O que o monitoramento IoT dessa planta está revelando sobre a relação entre a saúde hidrológica da bacia e a geração de energia — e como isso informa a estratégia de inovação da AXIA para os próximos anos?
A planta flutuante não monitora o reservatório. Os dispositivos IoT desenvolvidos para a planta flutuante é para seu próprio monitoramento visando aumentar a eficiência e segurança.
A experiência com a HUgreen mostrou que é possível transferir conhecimento, capacitar uma empresa local e criar um processo de montagem que superou em eficiência o modelo original australiano. O que essa experiência revela sobre o potencial real do Brasil de construir uma cadeia produtiva nacional em energia solar concentrada?
De forma geral, essa experiência mostra que o Brasil não está limitado a “importar tecnologia”, mas tem capacidade real de internalizar, adaptar e melhorar as soluções avançadas em energia solar concentrada. A capacidade de produção nacional de vários componentes como os espelhos, torres e outros componentes são possíveis e tem alto potencial de redução de custo.
Você opera ativos que têm horizonte de décadas e testa tecnologias que ainda não têm escala comercial. Olhando para o que está sendo aprendido hoje no CRESP, em Casa Nova e em Sobradinho, qual é a transformação mais profunda que você acredita que esses projetos vão produzir no sistema energético brasileiro nos próximos vinte anos?
A tendência é que os desafios do setor elétrico brasileiro se intensifiquem, com maior variabilidade e necessidade de flexibilidade. Nesse contexto, o principal valor desses projetos é antecipar esse futuro — usando os próprios ativos como plataformas de teste em ambiente real para desenvolver e validar novos modelos operacionais, preparando o sistema para operar com mais resiliência e eficiência.

Ao longo desta conversa, Juliano Dantas não descreveu o futuro como uma promessa. Descreveu-o como um conjunto de decisões que ainda precisam ser tomadas — algumas técnicas, outras institucionais, muitas delas incômodas. O que os laboratórios do Nordeste estão provando, na sua visão, é que o Brasil já tem o conhecimento para avançar. O que falta, sugere ele sem dizê-lo diretamente, é a disposição de escalar o que foi aprendido antes que o mundo siga em frente sem esperar. A matriz elétrica brasileira fechou 2024 com 88% de participação renovável. O Nordeste concentra o maior potencial eólico e solar do continente. O Rio São Francisco atravessa três biomas e sustenta a vida de milhões de pessoas. Raramente um país foi dotado de tantos ativos para liderar uma transição energética. A questão que esta entrevista deixa em aberto não é se o Brasil tem o que é preciso. É se terá a velocidade.
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