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Um algodoeiro-da-praia a poucos metros do canal do porto abre o Engenharias + Circulares em Santos

Escrito por Neo Mondo | 30 de setembro de 2026

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Algodoeiro da praia uma espécie nativa de restinga simboliza o retorno da natureza aos espaços urbanos junto ao Porto de Santos - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Muda de espécie nativa de restinga, que ajuda a fixar areia, chegou ao Parque Tecnológico em 25 de setembro e antecede um muro verde e uma floresta de bolso previstos para 2027

O Parque Tecnológico de Santos recebeu em 25 de setembro uma muda de algodoeiro-da-praia (Hibiscus pernambucensis), primeira ação simbólica do Engenharias + Circulares. A iniciativa é uma parceria do Parque com a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS). Os palestrantes do seminário que lançou o projeto, realizado no mesmo dia, receberam a planta. Ela está agora em aclimatação no jardim lateral do Parque, a poucos metros do canal do Porto de Santos. O plantio definitivo deve acontecer nos próximos dias, durante a VII Semana de Biotecnologia. A escolha da espécie tem uma razão física: nas praias e restingas, o algodoeiro-da-praia ajuda a fixar e estabilizar a areia.

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O texto de apresentação da iniciativa provoca os engenheiros do próprio prédio: pergunte a eles se ali tem areia. Segundo os organizadores, a muda volta a um solo próximo do seu ambiente de origem, agora dentro de uma área construída. A equipe comprou o exemplar na Casa Azul Paisagismo, em Santos, depois de procurar a espécie nativa, típica de ambientes costeiros.

A procura faz sentido, porque o nome popular engana. No Brasil, algodoeiro-da-praia também designa o Hibiscus tiliaceus, primo exótico muito usado na arborização de cidades litorâneas. Um levantamento botânico da Universidade de Vassouras aponta o tiliaceus como originário do Sudeste Asiático, sem ocorrência espontânea no país. Uma forma de separar as duas plantas está na flor: a do tiliaceus tem mancha púrpura na base das pétalas, e a da nativa é toda amarela. O Plano de Arborização Urbana de Santos inclui o Hibiscus tiliaceus entre as espécies recomendadas para a cidade, sob o nome de algodão-da-praia. A taxonomia também não é consenso. A base norte-americana ITIS classifica o Hibiscus pernambucensis como sinônimo de uma variedade do Talipariti tiliaceum.

A espécie nativa tem endereço científico conhecido. Joecildo Francisco Rocha, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e Silvia Rodrigues Machado, da Unesp, descreveram a planta na Revista Brasileira de Botânica em 2009 como um arbusto nativo de manguezais e restingas ao longo da costa brasileira. O mesmo trabalho registra usos para a fibra, na indústria têxtil e de papel, e para a madeira leve, em brinquedos e caixas. Também cita a indicação do botânico Harri Lorenzi para o plantio em áreas degradadas. Na Costa Rica, um catálogo de espécies tropicais descreve exemplares que crescem apenas nas franjas vegetadas das praias arenosas, com troncos quebrados e dobrados pelo vento, quase dentro d'água.

A capacidade de fixar areia vem das raízes, e elas levam tempo para se formar. Experimentos em canal de ondas e observações de campo reunidos pela Coastal Wiki mostram que as raízes finas e densas seguram mais sedimento do que a parte aérea da planta. A vegetação recém-plantada começa a reter a areia trazida pelo vento em pouco tempo, mas só resiste às ondas depois que o sistema de raízes se adensa. E nenhuma planta compensa uma praia que já perdeu areia demais. Um estudo com modelos físicos de dunas, publicado no repositório da NOAA, agência oceânica dos Estados Unidos, mediu que as raízes finas aumentam a resistência mecânica do sedimento. Uma muda num jardim não segura praia nenhuma, e os organizadores tratam o gesto como símbolo.

"Quando falamos em inovação, nem sempre precisamos inventar algo novo. Uma espécie de restinga carrega milhões de anos de inovação", afirma Caroline Fassina, idealizadora do Engenharias + Circulares e gerente de projetos do Parque. "Inovar também é fazer políticas públicas para que outras formas de vida possam voltar a conviver com nossas cidades, nossos portos e nossos espaços de lazer. A natureza sabe otimizar, adaptar e circular matéria e energia. As Soluções Baseadas na Natureza partem justamente desse princípio."

foto de Jurandir Zullo - Unicamp
Aline Martinez - Unifesp
Ana Carolina Famá - Urbano Vitalino Advogados Caroline Fassina - Parque Tecnológico de Santos, remete a matéria Um algodoeiro-da-praia a poucos metros do canal do porto abre o Engenharias + Circulares em Santos
Ana Carolina Famá (Usbano Vitalino Advogados), Aline Martinaz(Unifesp), Caroline Fassina (Parque Tecnológico de Santos) e Jurandir Zullo (Unicamp) - Foto: Divulgação

Na orla de Santos, a prefeitura já aplica a mesma lógica. O Projeto Jundu funciona desde agosto de 2022. O jundu é a vegetação rasteira de restinga, comum nas praias santistas até os anos 1970, que voltou a brotar sozinha entre os canais 1 e 2. Em 23 de abril de 2026, a prefeitura começou a implantar o Parque Jundu, primeiro espaço de preservação de restinga na faixa de areia da cidade. A área fica entre a divisa com São Vicente e o Novo Quebra-Mar, no José Menino.

O seminário da AEAS reuniu empresas, universidades e poder público para discutir economia circular em três setores com peso na Baixada Santista: construção civil, indústria e logística portuária. Entre os palestrantes estava a oceanógrafa Aline Martinez, professora de Ecologia Urbana da Unifesp, que pesquisa Soluções Baseadas na Natureza e ecoengenharia marinha em cidades costeiras. Os organizadores dizem que a muda junta três áreas do conhecimento. A biologia entende a planta e suas relações com o ambiente. A engenharia projeta a infraestrutura em volta dela. A matemática, segundo o texto da iniciativa, deverá "futuramente" medir, modelar e avaliar esses sistemas. A ação integra as iniciativas do Parque ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

O algodoeiro é a primeira peça de um projeto maior. Perto do jardim, o Parque trocou um muro de alvenaria por um gradil, primeira etapa para um muro verde. A vegetação faz parte de um projeto de paisagismo que liga esse muro a uma floresta de bolso. Profissionais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) cederam o projeto sem custo. A execução seguirá as regras de contratação pública e está prevista para o primeiro trimestre de 2027, a partir de março. A data foi escolhida para evitar o período de mais calor e dar às mudas mais chance de pegar.

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