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Escrito por Neo Mondo | 23 de setembro de 2026
Parecem pedras, mas são algas calcárias vivas, o pesquisador Guilherme Pereira-Filho, do IMar-Unifesp, coleta rodolitos no fundo do mar brasileiro, nódulos que abrigam uma diversidade ainda desconhecida pela ciência - Foto: Zaira Matheus/Arquivo LABECMar
POR - REDAÇÃO NEO MONDO*
Estudo da Unifesp com DNA de rodolitos de Abrolhos (BA) e Queimada Grande (SP) encontrou mais de 450 espécies, 21 registros inéditos para o Atlântico Sudoeste e prováveis espécies novas para a ciência
Dois bancos de algas calcárias no litoral brasileiro podem abrigar, juntos, até 1% de todas as espécies marinhas já descritas no planeta. Um deles ocupa cerca de 20 mil km² no sul da Bahia. O outro tem apenas 1 km² e fica ao lado de uma ilha paulista. A estimativa é de pesquisadores do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), que leram o DNA de nódulos de rodolitos coletados no Banco dos Abrolhos (BA) e na Ilha da Queimada Grande, em Itanhaém (SP). O estudo saiu em 2026 na revista Biological Conservation e foi divulgado pela Agência FAPESP em 18 de setembro. Ele registra 21 ocorrências inéditas para o Atlântico Sudoeste e aponta candidatas a espécies novas para a ciência.
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Rodolitos parecem pedras. São algas. Cada nódulo rosado se forma a partir de algas vermelhas coralináceas que vivem soltas no fundo do mar e depositam carbonato de cálcio em camadas finas, poucos milímetros por ano, ao longo de décadas. Acumulados, esses nódulos formam bancos que servem de abrigo, berçário e superfície de fixação para algas, invertebrados e peixes. A plataforma continental brasileira reúne entre 167 mil e 230 mil km² dessas formações, segundo levantamentos citados no próprio artigo. Abrolhos abriga o maior banco conhecido do mundo.
As coletas aconteceram nos verões de 2015 e 2016. Mergulhadores desceram a 7, 15 e 25 metros em Abrolhos e a 10 e 25 metros em Queimada Grande, com equipamento autônomo e mistura gasosa do tipo trimix. Cerca de 60 nódulos por localidade foram fixados em formol para a triagem manual dos animais. Outros dez seguiram para o laboratório conservados em álcool. Lá, a equipe triturou o material e aplicou o metabarcoding, técnica que extrai de uma vez o DNA de todos os organismos da amostra e compara trechos de um gene padrão, o COI, com bancos de dados internacionais.
O sequenciamento devolveu 1.837 assinaturas genéticas distintas, as chamadas ESVs: 1.054 de invertebrados e 783 de macroalgas. Cruzadas com as identificações feitas por taxonomistas ao microscópio, elas resultaram em mais de 450 espécies. A conta por trás da manchete é simples. A ciência conhece cerca de 200 mil espécies marinhas, e 450 equivalem a 0,2% desse total. Se cada ESV corresponder a uma espécie, hipótese menos conservadora que os próprios autores tratam como teto, o número chega perto de 1%. O primeiro autor, Pedro Longo, conduziu o trabalho no pós-doutorado com bolsa da FAPESP. A coordenação é de Guilherme Pereira-Filho, professor do IMar-Unifesp.
Entre as algas, o grupo aponta quatro prováveis espécies novas. Uma delas pertence ao gênero Dissimularia, que tem apenas quatro espécies descritas, todas no Pacífico. Algas já conhecidas no Atlântico Norte e no Caribe apareceram pela primeira vez no Atlântico Sul. Entre os invertebrados, o DNA revelou sobretudo organismos que vivem presos ao substrato, como esponjas, ascídias e briozoários. Três esponjas são registros inéditos para o Atlântico Sudoeste: Pione vastifica, Protosuberites denhartogi e Hooperia anfractuosa. A última nunca havia sido documentada em nenhum ponto do Atlântico. O material genético trouxe ainda nematoides, nemertíneos, ostracodos e ácaros marinhos, além de vestígios de camarões, siris, caranguejos, estrelas-do-mar e ouriços que circulam pelo entorno dos bancos.
Os dois bancos quase não se repetem. Das 1.054 variantes de invertebrados, só 52 aparecem nos dois locais. Entre as macroalgas, 58. Abrolhos reuniu 816 variantes de invertebrados; Queimada Grande, 290. O índice de dissimilaridade calculado pelos autores chegou a 0,91 para invertebrados e 0,86 para algas, e a diferença vem da troca de espécies entre um local e outro, não de um banco ser versão empobrecida do outro.
O inventário tem buracos, e os autores os expõem. Das quase 17 mil espécies marinhas registradas no Brasil, apenas 3.700 têm sequências de DNA depositadas em repositórios públicos, o que deixa parte das assinaturas sem nome. A técnica também falhou em grupos específicos: não detectou nenhuma alga verde da classe Ulvophyceae, presente nos inventários morfológicos, e recuperou só microalgas verdes. A equipe da Unifesp pretende montar uma biblioteca genética de referência com os organismos coletados nos bancos.
O título do artigo faz uma pergunta: seriam os rodolitos uma "Amazônia rosa"? Os números globais sustentam a provocação. Os bancos cobrem mais de 4 milhões de km² no planeta, área cerca de 20% maior que a dos recifes de coral tropicais, que abrigam perto de 25% das espécies marinhas. Em algumas regiões, respondem por mais de 30% da biodiversidade local. Ocorrem de polo a polo e da faixa entremarés até 200 metros de profundidade. Uma revisão internacional publicada em 2023 na Science of the Total Environment, liderada por Fernando Tuya, concluiu que esses bancos seguem muito menos estudados que recifes de coral, florestas de kelp, manguezais e pradarias marinhas. Plymouth
A busca por moléculas úteis entra na mesma conta. Em 2012, Pereira-Filho e Gilberto Amado-Filho, do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mostraram que os bancos brasileiros se estendem de 2°N a 25°S, a maior faixa latitudinal conhecida para essas formações, e que abrigam equinodermos, moluscos e briozoários, grupos com potencial para bioprospecção. A próxima fase do estudo da Unifesp vai além do que se vê. Os pesquisadores retiraram todas as algas e invertebrados visíveis dos nódulos e agora procuram estruturas reprodutivas escondidas no interior. Longo descreve os rodolitos como bancos de sementes, capazes de guardar fases desconhecidas do ciclo de vida de grupos como os cnidários.
Enquanto isso, o calcário dos rodolitos continua sendo extraído no Brasil para corrigir a acidez de solos agrícolas. Pereira-Filho afirma que o país está entre os poucos que ainda permitem a exploração de carbonato de cálcio com essa origem. Alguns países europeus proibiram essa mineração por considerarem os nódulos um recurso não renovável. A exploração de petróleo no mar pressiona pelos dois lados: perfuração do leito e risco de vazamento. "Quanto dessa diversidade podemos perder antes mesmo de conhecê-la?", questiona o pesquisador.
A pergunta chega a um calendário concreto. A COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica acontece em Yerevan, na Armênia, de 19 a 30 de outubro, e fará a primeira revisão global do Marco de Kunming-Montreal desde sua adoção, em 2022. Pereira-Filho defende mais investimento em pesquisa para confirmar se os bancos são ambientes megadiversos e lembra que florestas tropicais e recifes de coral só receberam esse reconhecimento depois de décadas de esforço coordenado. Uma análise de 2025 publicada na Diversity and Distributions mostrou que só 15,7% dos pontos com bancos de rodolitos no Brasil estão dentro de áreas marinhas protegidas, num país com menos de 5% do mar sob proteção integral. Em Abrolhos, onde fica o maior banco do planeta, cerca de 96% da área de rodolitos está fora das unidades de conservação da região, segundo estudo publicado em 2025 na Ocean and Coastal Research.
*Com informações da Agência FAPESP.
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